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domingo, 17 de maio de 2009

NOSSA SENHORA DOS AFOGADOS

Tive um domingo teatral: à tarde fui ao teatro infantil e me diverti vendo Píppi MeiaLonga, e à noite fui assistir o novo trabalho do Núcleo de Formação de Atores do Depósito, o espetáculo Nossa Senhora dos Afogados livremente inspirado na Senhora dos Afogados de Nelson Rodrigues, com direção de Plínio Marcos Rodrigues, cenário de Rudinei Morales, figurinos de Chico de Los Santos e atuação de um grupo de jovens atores, alunos de um curso que pretende ser um Nível II, já que congrega iniciantes com alguma experiência anterior. Levando em consideração que esta é a primeira direção assinada por Plínio Marcos, posso dizer que ele está no lucro. Realiza um espetáculo com uma concepção clara, baseada na simplicidade, com poucos recursos mas recheada de bons signos teatrais. Fiel as rubricas de Nelson Rodrigues, Plínio cria (ou pretende criar) climas e clímaxes nas cenas e lida razoavelmente bem com a presença do coro que às vezes atrapalha ou interrompe o desonrolar da ação dramática capturando a atenção do espectador em momentos indevidos. Por outro lado, Plínio demonstra dificuldade nas costuras entre as cenas, na limpeza do trabalho de entradas e saídas, na determinação sobre em que momentos o coro deve aparecer e no desenho de um ritmo específico para cada cena e para a peça como um todo.O cenário de Rudinei Morales, carece de arte, de finalização. Apesar do espaço do Depósito de Teatro ainda se mostrar como um espaço precário, apesar de conhecer o tamanho do orçamento destinado para a montagem, penso que, se por um lado o cenário tem limpeza e equilíbrio, simplicidade e eficiência, por outro, demonstra descuido com a necessidade de beleza plástica e com a idéia de finalização. Chico de Los Santos foi feliz na escolha dos tons de cores que utilizou na composição do figurino e consegue um bom resultado no conjunto. Mas é no elenco que residem as maiores dificuldades do espetáculo. Minha experiência diz que é sempre melhor misturar jovens talentos com atores mais experimentados, porque desta maneira a tendência é elevar os resultados na área da interpretação. Numa oficina isso raramente vai acontecer. Todos estão no mesmo nível de saber ou de dificuldades para colocar em prática o conhecimento adquirido em oficinas anteriores ou na única peça que realizaram. Assim, descontando a parcela de 50% que sempre cabe as exigências da direção e a interação e comunicação entre diretor e elenco, senti que, embora todos os interprétes tivessem condição de ir mais longe, todos preferiram nadar perto da praia ao ivés de arriscarem-se na arrebentação. Nelson Rodrigues escreveu uma tragédia para vários protagonistas. Tanto pode ser a história vivida pelo pai de família e quase ministro Misael, interpretado por Rui Koetz (que baseou seu personagem na potente voz que brota de sua garganta e não de seu coração, e não rasga sua alma, não se enlemeia na profunda tragédia que a vida trama para o seu personagem, a insuportabilidade de conviver consigo próprio ao cometer um assassinato), mas também pode ser que o protagonista seja o noivo, encarnado por Ricardo Zigomático (que entra bem e vai perdendo a força porque sua interpretação é um tanto exterior e esteriotipada, um tanto insegura, necessitando aprofundar um conjunto de imagens para completar sua visão da personagem e então, permitir que ele possa reproduzir a força da vigança, o filho que vem para vingar a morte da mãe da maneira mais cruel que se possa imaginar). Ou quem sabe a protagonista é a mocinha, a noiva Moema, interpretada por Camila Martins, que, assim como Rossendo Rodrigues e Viviane Falkembach trabalham demasiadamente no mesmo registro do trabalho anterior "ÓPERA DOS MENDIGOS". Também o torturado filho da família, Paulo, vivido por Diego Bittencourt, poderia ser o protagonista da história, ja que esta personagem tem sua história revelada pela peça. Mas Diego atua sempre na mesma nota, tem dificuldades com a pronúncia das palavras, e vai do começo ao fim da peça sofrendo e usando a mesma máscara facial contraída que pouco revela sobre a alma de sua personagem. Kelly Cruz, Daniela Ferraz e Valesca Maffei, sendo que esta última é cria do Depósito, tendo atuado em "O ÚLTIMO CARRO", revesam-se na interpretação da mãe, Dona Eduarda e não atingem grandes vôos, ficando aquém daquilo que poderiam ter rendido e não alcançam a dimensão trágica solicitada pelo papel. Tatiana Moraes teve um momento de crescimento durante os ensaios mas acomodou-se e mostra uma vó louca com pouquíssima loucura e uma certa pressa em soltar o texto. Finalmente, Núbia Quintana, que foi quem criou as máscaras, não se apresenta com força e energia em cena, mas mesmo assim tira algum proveito quando na pele da dona do prostíbulo onde acontece o ato final. Por falar nas máscaras, acho que Nübia realizou um belo trabalho, mas optou por máscaras leves quase engraçadas, que não trazem em si o peso da tragédia vivida pela família de Misael. O espetáculo é curto, mas mesmo assim não se comunica integralmente com a platéia. E, embora a tragédia não aconteça, tem a força do texto rodrigueano e uma concepção bem delineada que o coloca acima de muitos trabalhos que se vê por aí afora. Parabéns ao Plínio. Parabéns ao elenco e a equipe.
M.F.

MULHERES INSONES



Posso dizer que acompanho o trabalho do Décio Antunes, que eu me lembre, desde sua encenação de "A Serpente" (de Nelson Rodrigues) que assisti no Teatro de Câmara há muitos anos atrás. Na realidade, eu e o Décio fomos colegas de DAD, lá pelos idos de 1974, 75, 76. Os dois bastante calados, reservados (mais o Décio, do que eu), mesmo assim conseguimos construir uma relação de amizade e coleguismo que se estende até o presente momento.Relembrando agora de "A Serpente", penso que já naquele antigo trabalho (talvez um dos primeiros que ele dirigiu), o Décio colocava em cena uma ousadia cenográfica, um cenário de forte impacto que dita a concepção do espetáculo. Agora, acabo de ver uma das suas últimas realizações, o deslumbrante "Mulheres Insones". Desta vez, Décio junta um cenário forte com uma coreógrafa calejada que representa o que há de melhor na dança no Brasil e no mundo. Félix Bressan (o mesmo cenógrafo da Trilogia Perversa) parece que acertou desta vez ao assinar um cenário em conjunto com os diretores. Com certeza é seu cenário que mais se integra ao espetáculo e não fica roubando foco, disputando com o espetáculo. Desta vez, Décio estava melhor assessorado do que nunca. Daniel Lion é, ao lado de Coca Serpa, nosso mais importante figurinista. André Birk é medalhão da sonoplastia. Flávio Oliveira não tem mais, em sua casa, onde colocar tantos Açorianos recebidos por suas trilhas sonoras. A Carlota, então, nem se fala. Como diz pomposamente Caco Coelho: "Carlota Albuquerque é nossa Imperatriz da Dança com D maiúsculo." Essa também, eu posso dizer que acompanho de perto. Me odeio por não ter visto Lautrec, mas o resto vi tudo. Não perco. É pura aula de direção.Lamentei não ver minha amiga Naiara Harry em cena. Fiquei esperando sua entrada durante um bom tempo, até que me convenci que ela não entraria mais. Foi substituída. Pena. Mas, em compensação, estava no elenco uma das minhas bailarinas preferida: Angela Spiazzi. (as outras são: Tânia Baumann e Luciane Coccaro). Belíssima, exata, perfeita. Uma maravilha para os sentidos ver a Angela dançando. Aliás, o elenco da peça é muito bom. Muito coeso e cheio de energia. A pequeninha Didi é excelente bailarina. Ja a vi num espetáculo da Jussara Miranda. Tem presença. Mas carece, como também acontece com Joana do Amaral, de diminuir a representação e a falsa dramaticidade do corpo e do olhar quando imaginam que estão representando um personagem ou uma situação. Gabriela Greco, como não podia deixar de ser, é a melhor atriz e nada deixa a desejar corporalmente. Um corpo bonito que se movimenta plástica e dramaticamente de forma correta. Correta é pouco. Melhor seria dizer: consciente, concentrada. Me agrada sempre ver a beleza e a graça de Gabriela Peixoto que aparece na medida certa. Carismática, sentindo prazer de estar cena, acreditando sempre naquilo que está fazendo. Não exagera dramaticamente e funciona o tempo inteiro. Feliz do Décio que está trabalhando com este elenco disciplinado e brilhante. A peça é o melhor trabalho que ja vi do Décio, é sensível, dramática e tem uma personalidade própria. Que maravilha ir ao teatro e ver um espetáculo assim. Mas, pra não ficar somente em elogios, que são absolutamente sinceros, vão aqui também alguma críticas. Achei que faltou dramaturgia. Achei que a dramaturgia fica agarrada a poucos temas rodrigueanos e não arrisca. A coreografia arrisca e a dramaturgia não arrisca. Senti falta de texto. Acho que o espetáculo ganharia se fosse colocado mais próximo do espectador. Acho que as bailarinas deveriam estar mais preparadas pra colocar a dramaticidade e o teatro de Nelson Rodrigues em cena. Acho que a coreografia da Carlota se sobrepõem ao espetáculo, como o cenário de Félix Bressan se sobrepunha em As Núpcias de Teadora. E, finalmente, acho que o espetáculo, apesar delas rolarem na areia, fica num meio termo, num bom mocismo que não se coaduna com a profundeza das águas onde nadam as personagens mulheres de Nelson Rodrigues.
M.F.