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domingo, 17 de maio de 2009

MULHERES INSONES



Posso dizer que acompanho o trabalho do Décio Antunes, que eu me lembre, desde sua encenação de "A Serpente" (de Nelson Rodrigues) que assisti no Teatro de Câmara há muitos anos atrás. Na realidade, eu e o Décio fomos colegas de DAD, lá pelos idos de 1974, 75, 76. Os dois bastante calados, reservados (mais o Décio, do que eu), mesmo assim conseguimos construir uma relação de amizade e coleguismo que se estende até o presente momento.Relembrando agora de "A Serpente", penso que já naquele antigo trabalho (talvez um dos primeiros que ele dirigiu), o Décio colocava em cena uma ousadia cenográfica, um cenário de forte impacto que dita a concepção do espetáculo. Agora, acabo de ver uma das suas últimas realizações, o deslumbrante "Mulheres Insones". Desta vez, Décio junta um cenário forte com uma coreógrafa calejada que representa o que há de melhor na dança no Brasil e no mundo. Félix Bressan (o mesmo cenógrafo da Trilogia Perversa) parece que acertou desta vez ao assinar um cenário em conjunto com os diretores. Com certeza é seu cenário que mais se integra ao espetáculo e não fica roubando foco, disputando com o espetáculo. Desta vez, Décio estava melhor assessorado do que nunca. Daniel Lion é, ao lado de Coca Serpa, nosso mais importante figurinista. André Birk é medalhão da sonoplastia. Flávio Oliveira não tem mais, em sua casa, onde colocar tantos Açorianos recebidos por suas trilhas sonoras. A Carlota, então, nem se fala. Como diz pomposamente Caco Coelho: "Carlota Albuquerque é nossa Imperatriz da Dança com D maiúsculo." Essa também, eu posso dizer que acompanho de perto. Me odeio por não ter visto Lautrec, mas o resto vi tudo. Não perco. É pura aula de direção.Lamentei não ver minha amiga Naiara Harry em cena. Fiquei esperando sua entrada durante um bom tempo, até que me convenci que ela não entraria mais. Foi substituída. Pena. Mas, em compensação, estava no elenco uma das minhas bailarinas preferida: Angela Spiazzi. (as outras são: Tânia Baumann e Luciane Coccaro). Belíssima, exata, perfeita. Uma maravilha para os sentidos ver a Angela dançando. Aliás, o elenco da peça é muito bom. Muito coeso e cheio de energia. A pequeninha Didi é excelente bailarina. Ja a vi num espetáculo da Jussara Miranda. Tem presença. Mas carece, como também acontece com Joana do Amaral, de diminuir a representação e a falsa dramaticidade do corpo e do olhar quando imaginam que estão representando um personagem ou uma situação. Gabriela Greco, como não podia deixar de ser, é a melhor atriz e nada deixa a desejar corporalmente. Um corpo bonito que se movimenta plástica e dramaticamente de forma correta. Correta é pouco. Melhor seria dizer: consciente, concentrada. Me agrada sempre ver a beleza e a graça de Gabriela Peixoto que aparece na medida certa. Carismática, sentindo prazer de estar cena, acreditando sempre naquilo que está fazendo. Não exagera dramaticamente e funciona o tempo inteiro. Feliz do Décio que está trabalhando com este elenco disciplinado e brilhante. A peça é o melhor trabalho que ja vi do Décio, é sensível, dramática e tem uma personalidade própria. Que maravilha ir ao teatro e ver um espetáculo assim. Mas, pra não ficar somente em elogios, que são absolutamente sinceros, vão aqui também alguma críticas. Achei que faltou dramaturgia. Achei que a dramaturgia fica agarrada a poucos temas rodrigueanos e não arrisca. A coreografia arrisca e a dramaturgia não arrisca. Senti falta de texto. Acho que o espetáculo ganharia se fosse colocado mais próximo do espectador. Acho que as bailarinas deveriam estar mais preparadas pra colocar a dramaticidade e o teatro de Nelson Rodrigues em cena. Acho que a coreografia da Carlota se sobrepõem ao espetáculo, como o cenário de Félix Bressan se sobrepunha em As Núpcias de Teadora. E, finalmente, acho que o espetáculo, apesar delas rolarem na areia, fica num meio termo, num bom mocismo que não se coaduna com a profundeza das águas onde nadam as personagens mulheres de Nelson Rodrigues.
M.F.

sábado, 16 de maio de 2009

FELIZ ENTRADA EM CENA

Feliz de mim que fui agraciado com este belo espetáculo. Confesso que sempre vou ao teatro com o espírito de gostar do que vou ver. Em relação a "Crucial", me senti estimulado a gostar desde o convite que recebi. Uma linda proposta gráfica que em mim despertou a curiosidade de assistir a peça. Havia também a obrigação de amigo de ver a Vanise Carneiro. Pois gostei do trabalho dela em cena. Gostei muito. Vejo maturidade. Vejo entrega. Cresceu imensamente do trabalho anterior (MacBeth, da Patrícia Fagundes) para este. Crucial é algo ou alguma coisa ou alguém ou alguma situação muito importante, capital, mas é também sinônimo de difícil, árduo, decisivo. A mim parece que a Vanise foi desafiada neste trabalho. Desafiada pelo texto diferente e ousado de Paulo Scott. Desafiada pela direção de Gilson Vargas. E, porque não, pela atuação exímia e exemplar do Marcos Contreras que tá arrasando. Tem momentos de raro brilho. Aqueles momentos em que o teatro acontece. Então ela caiu num daqueles momentos decisivos = crucial. O Gilson, vai entrando com o pé direito na direção teatral, e de quebra traz do cinema alguns cortes e efeitos muito inventivos e uma estética que permeia a peça. O espetáculo tem uma limpeza de detalhes e uma clareza de proposta. O texto é bom, legítimo Paulo Scott, é interessante quase todo tempo. Mas não todo o tempo. Em alguns momentos ele me parece longo. O espetáculo acontece num estado crucial, num fio de navalha pavoroso, pois transita entre as fronteiras do cinema, da hq, da ficção científica, asimov, edgar allan poe, dos contos fantásticos, hoffmann, e até do teatro. Bacana. Me senti divertido e saí bem do teatro. Tão feliz quanto havia entrado. E aí parece que está o pecado do espetáculo. Ele se mantém frio, futurista, distante. A gente acompanha, mas não se envolve. Conversando com as pessoas com as quais eu estava ficou em todos uma sensação boa mas com a nítida falta de algo que ninguém soube explicar. Mas assim é o teatro.
M.F.