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terça-feira, 1 de junho de 2010

FEBRE DE MOLIERE - O AVARENTO

E lá fui eu assistir O Avarento. Confesso que, principalmente, para ver em cena alguns amigos, colegas de profissão. Elison Couto, antigo colega de  vários elencos; Plínio Marcos, velho companheiro de Depósito de Teatro; e Lúcia Bendatti, ou Lucinha para os íntimos, a quem já tive oportunidade de dirigir em Boca de Ouro. Ainda bem que todos meus amigos estão muito bem na peça (o quê não dá pra se dizer de todo o elenco). Plínio, que está entrando agora, e Elison, apenas corretos. Nem sempre suas gags se traduzem em risadas da platéia. Mas, Lucinha está matando a pau. Tira excelente partido de sua personagem, e não tem chute disperdiçado. Bola na rede. Joga com a platéia, dá uma que outra apeladinha, mas faz o público rir, o que, afinal de contas, é o fundamento da comédia. A peça é dirigida por Gilberto Fonseca, que optou por fazer uma peça de Molière como se estivéssemos vivendo na época de Molière. Uma espécie de reconstituição arqueológica. Figurinos de época, salamaleques à la Luís XIV, e mais um conjunto de velharias que contaminam a interpretação dos atores e engessam o espetáculo deixando-o com sabor de mofo. A encenação não resistiria uma ánalise mais aprofundada. O texto é datado e previsível. Se agrada ao público talvez seja porque eles (a platéia) também tenha em seu imaginário o teatro feito na época de Molière, ou no máximo, um teatro do século XIX. É bonito de se ver, mas cansa na primeira meia hora porque se sabe que vai continuar assim até o final. De minha parte, deixaria Molière descansando nas glórias do passado.

AO SUCESSO COM JOÃO DE RICARDO

A performance se chama Homem que não Vive da Glória do Passado. O performer é o ator e diretor João de Ricardo. Cheio de idéias, com uma corajosa exposição, alguns textos bons e alguns momentos ótimos. O novo e o velho misturados numa busca fragmentada, enganadora e cheia de perguntas sem respostas. Provocante, sim. Lá pelas tantas cansei. Já estava de bom tamanho. Trabalho arriscado e, com certeza, polêmico. Mas, uma das características da arte é justamente esta: provocar polêmicas. Eu curti.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

DENTROFORA


Imperdível. Liane Venturella (a grande atriz da atualidade) e Nelson Diniz (impecável) dão um show de teatro em DentroFora. Proposta radical para um texto não menos.  Maravilha. Carlos Ramiro Fensterseifer acerta em cheio na direção.
Na foto de Fernando Gomes/ZH estão os dois protagonistas: Liane Venturella e Nelson Diniz.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

NELSON RODRIGUES BUARQUE DE HOLLANDA - POA EM CENA

Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, com direção de Zé Henrique de Paula. A direção é limpa, bem marcada e recheada de momentos "teatrais". A inserção de canções criam hiatos e fico pensando qual a real necessidade dramática deste recurso? As muitas canções (11) às vezes nos distanciam da tragédia. Quando cantadas pelo conjunto de vozes do elenco aparecem com força e propriedade. Porém, no solos, nem sempre alcançam o objetivo lírico e/ou dramático.
O coro engraçadinho, homossexual e debochado também atenua os possíveis efeitos trágicos.
M.F.


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O PAÍS DE HELENA - TEATRO ESSENCIAL

Foi a melhor foto que eu achei. Acho que a foto é do Kiran, porque ele é que anda fotografando a peça desde antes do seu nascimento. Na foto aparecem Elisa Volpatto e Priscilla Colombi. Excelente a direção da Aninha (Ana Paula Zanandréa). Excelentes as atrizes, mas, sem dúvida, a segunda citada é impagável no divertido jogo que propõe à platéia. O primeiro ato é o melhor de todos. O segundo está sem ritmo. E o terceiro, que deve o ser o que menos foi passado, carece de aprofundamento. As atrizes apenas repetem parte do repertório já utilizado.
Assisti a peça em uma de suas apresentações obrigatórias. Era o início do processo. Estava monótono. As atrizes já traziam em si a chama, mas a direção ainda procurava caminhos. Agora é outra coisa. O espetáculo se concretiza. Cria (junto com as atrizes, é claro) uma forte empatia com o público. Tem limpeza e precisão. Saiu boa esta guria.
Espertamente, a Aninha fez um monólogo com duas atrizes. Dividiu o papel único entre as duas intérpretes e escapou dos problemas de encenar um monólogo.
Modesto Fortuna

sábado, 20 de junho de 2009

O DESVARIO DA TAINAH


DESVARIOs.m. Desregramento do proceder; desatino, loucura, delírio: os desvarios da juventude.Desvario: devaneio, desacerto, loucura, formada pela prefixação de "des" + o radical "vari" + o morfema "ar". Desvario: alienação, alucinação, delírio, demência, desatino, desvairo, insânia, loucura e tresvário

Em primeiro lugar: vão ver que a peça é boa. Na verdade, a peça é muito boa. Tudo o mais que eu escrever adiante jamais poderia diminuir uma vírgula desta montagem que é um acerto, pricipalmente se levarmos em conta o atual panorama do teatro local.
O texto é brilhante. Os cacos são bons. As liberdades com o texto são boas. A marcação é criativa, variada e, por muitas vezes, tão surpreendente quanto o texto. Os atores estão todos muito bem. Pequenos deslizes de texto de uma atriz, mas afinal de contas estamos no segundo dia. Vi a peça e já fiquei com vontade de vê-la novamente depois da trigésima apresentação. Daí é que vai estar boa de verdade. Por enquanto, parece apenas um arremedo do que pode ser esta história de “um homem desorientado, quase desesperado”, conforme ensina o release da peça. A interpretação do casal protagonista terá que elevar-se mais alto se quiserem atingir as notas gravadas no texto, que é simplesmente brilhante. Melhor do que este somente Paul Auster em O Gordo e o Magro vão para o Céu.
A direção de Tainah é segura e limpa. Tem um desenho claro e uma modernidade inerente. Tem gente quer ser moderno, que segue a Cartilha da Encenação Contemporânea. Têm outros que estão sintonizados com o seu tempo e simplesmente são modernos.A peça tem um ranço, tem algumas barrigas e mente quando propõe um jogo com a platéia e não está preparada para cumpri-lo. Ou não quer cumprir. Quando uma regra do jogo não é cumprida o jogo fica sem graça. Se é dado o direito para que o público escolha democraticamente a cena que quer ver, fica implícito que as outras duas alternativas perderam e estão fora do espetáculo. As barrigas estão em certas repetições de cenas e textos. Sim, já entendemos o mote principal. Sim, já entendemos que estamos diante de um texto fragmentado, loucão, pra lá de inteligente. Pra que ficar repetindo? Já o ranço, na minha opinião tem duas causas:
1. A direção não permite que a peça exploda. Amarra-a a uma seriedade excessiva em momentos que não são sérios. Não se decide pela comédia. Fica em cima do muro.
2. O protagonista "desorientado", presentificado por Leandro Lefa, é bom de corpo e em alguns momentos alcança a graça, mas, carece de força, falta presença e nuanças no texto, energia de protagonista. Fiquei torcendo para que o personagem do Lucas Sampaio desse um pau no carinha pra ver se ele ligava todos os motores. O personagem dele é o próprio Pato Donald. Se fode até quando se dá bem. O Leandro é perfeito para o papel. Tem que ver desenho do Pato Donald e explodir na peça.
Desvario recebeu financiamento do Fumproarte. Deve ter recebido a mesma verba mixuruca que todo mundo recebe pra realizar seus projetos. Mas, mesmo esta verba mixuruca, já faz uma enorme diferença no resultado da produção em geral. Alguém da UFRGS que tenha visto o trabalho quando era resultado de um projeto de graduação e revisto agora, devia cobrar da Reitoria da UFRGS, uma posição mais ativa na viabilização de recursos para a produção dos trabalhos finais do DAD. Ou, no mínimo, se coçar para adequar tecnicamente suas salas de espetáculo para que o aluno tivesse reais condições de experimentar ou, simplesmente, realizar seu projeto. Já que a UFRGS capta recursos da Cultura para proteger e recuperar seus prédios históricos, será que ela não poderia captar ou destinar recursos da Cultura para seus teatros?
Parabéns, pra todo mundo.
Vão ver.
M.F.
Na foto de Elisa Viali (ZH) aparecem Lucas Sampaio e Elisa Volpato

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A MEGERA BEM DOMADA



Jamais deixaria de assistir A MEGERA DOMADA, não só porque a diretora, Patrícia Fagundes é minha amiga, mas porque admiro e acompanho o trabalho dela desde o início de sua carreira. Suas peças sempre foram certeza de bom teatro. Além disso, outra grande amiga, a atriz Sandra Possani entrou na peça, como protagonista, substituindo Roberta Savian. Então, assisti o espetáculo na penúltima sessão de sua temporada de estréia no Teatro de Câmara, com casa maravilhosamente lotada.
Dizer que Shakespeare dispensa apresentações é um lugar comum que cabe muito bem aqui neste parágrafo onde eu deveria tecer algumas considerações à respeito deste autor tão estudado, encenado e respeitado no mundo inteiro, e de quem o leitor poderá informar-se em inúmeras páginas da internet. Porém, tendo vivido apenas 52 anos e escrito 35 peças teatrais entre as quais pelo menos 4 obras primas da literatura universal, é natural que nem todas sejam incluídas nesta categoria, e apareçam, na minha mortal opinião, como obras menores dentro da magnifíca obra do chamado bardo inglês.
A MEGERA DOMADA, segundo a bíblia shakespeariana escrita por Harold Bloom, é uma de suas primeiras comédias e é "tanto comédia romântica quanto farsa" pois "a rispidez física entre Kate e Petrucchio possui um apelo básico (farsa), mas o humor que caracteriza seu relacionamento é altamente sofisticado" (comédia romântica). A história da peça, que ja foi apresentada sob a forma de tele-novela com o título de O Cravo e a Rosa, é simplíssima: um pai, Batista decide que a filha mais jovem, Bianca, só casará depois que a filha mais velha, a megera intratável Catarina seja desposada. Petrúcio, um nobre falido, acaba aceitando a mão de Catarina e todas as encrencas que virão junto. Um novelão bem ao gosto burguês (da época e atual)recheado de trocas de identidade, mentiras inverossímeis e duelos verbais espirituosos à moda parisiense, tão afiados quanto anacrônicos.
A encenação é moderna e até mesmo glamourosa, com os atores comportando-se com uma certa displicência naturalmente ensaiada. Penso que Antonio Rabadan se sai melhor com a criação dos figurinos deste espetáculo do que com aqueles que foram criados para o espetáculo anterior, apesar de que é um tanto batida a opção (não sei se dele ou da diretora) de trabalhar com preto, cinza, branco e vermelho. De qualquer maneira, os figurinos são adequados, bonitos e bem acabados. O cenário, ou melhor a ambientação cenográfica, assinada por Paloma Hernandez, se não se destaca, também não atrapalha, servindo as necessidades exigidas pelo espetáculo e auxiliando-o com sua leveza e mobilidade. EduardoKraemer, um dos meus iluminadores favoritos por sua inventividade, se mostra discreto e também a serviço do espetáculo, sem oferecer aquele brilho que ja vi em outras ocasiões.
Esta é a terceira incursão da diretora Patrícia Fagundes pela obra de Shakespeare, já que anteriomente encenou Macbeth, com o subtítulo de Herói-Bandido, depois O Sonho de uma Noite de Verão, e agora coloca em cena esta versão de A Megera Domada. As três montagens buscam recuperar o apelo popular que as obras gozavam na época elisabetana, bem como uma linguagem contemporânea para atingir o espectador moderno. Acho que a busca continua e que o adjetivo "popular" poderia ser analisado à fundo e definido com precisão, assim como a linguagem contemporânea, que não deve ser apenas, tenho certeza, inserir uma canção moderna, mencionar o furacão Catrina e acrescentar alguns cacos ou gírias modernas ao texto. Sem dúvida, a direção de Patrícia Fagundes sobre o espetáculo é firme e bem orientada no sentido de extrair uma teatralidade e uma comunicação viva do espetáculo com a platéia. No entanto, parece seguir (o que aliás, está muito na moda) uma receita, uma fórmula, ja inventada para o espetáculo anterior: a boate no "Sonho..." e a casa de shows, neste.
O elenco, que brilhava e cativava os espectadores no "Sonho...", agora apenas executa com presteza as marcações e determinações cênicas. Todos estão bem, mas o único que brilha e ganha a platéia é Felipe de Paula, que utiliza o corpo, a voz e inventa outros recursos para extrair gargalhadas do público. Explora com eficiência criativa as nuances de seu papel. A turma que arrasava no sonho: Álvaro Vilaverde, Lisandro Belotto (que tinha uma cena impagável) e Leonardo Machado estão apenas desempenhando aquilo que sabem como bons atores que são. No mesmo caso se encontram Carlos Mödinger e Rafael Guerra. A bela Elisa Volpatto está apenas bela e não tira maiores partidos de sua personagem, contentando-se em ser apenas a "mocinha". Heinz Limaverde aparece desconfortável e é o mais displicente em cena, não atingindo nem de perto sua performance da peça anterior, tampouco aquilo que se espera ao ver seu nome na ficha técnica, pois trata-se de um dos melhores atores que conheço, com seu talento ja testado e comprovado em uma gama variadíssima de espetáculos. Sandra Possani, ainda preocupada com as marcas e textos, vai demorar mais algumas apresentações para mostrar seu inegável talento.
O resultado é um espetáculo bonito, agradável, que não empolga em momento algum. Não decola. É, certamente ágil, divertido e comunicativo, mas não atinge a potencialidade cômica do texto, que aliás, é pronunciado pelos atores, salvo raras exceções, de cabo a rabo, com excessiva velocidade. Enfim, tanto por seu conteúdo, quanto por sua forma atraente e glamourosa, é uma peça destinada ao sucesso.
M.F.