sábado, 16 de maio de 2009

PENÉLOPE BLOOM PARA POUCOS

Muito difícil, dificílimo, comentar peça de ex-mulher. Se digo que não gostei disso ou daquilo, será por causa de mágoas do passado ou do presente. Se falo bem, é pra disfarçar os mesmos ressentimentos. Mas, no meu rápido cursinho de crítica teatral, Dona Bárbara ensinou que o crítico deve presar, acima de tudo a isenção. Então, o fato é que achei o espetáculo bonito e bem acabado, mas não gostei da peça. Depois de meia hora sem acontecer nada, foi um martírio esperar os 45 minutos restantes para o final do espetáculo, não só por se tratar de um espetáculo "difícil", mas principalmente por causa de sua verborragia e ausência de alterações de ritmo. A longa queixa e divagação da Sra. Bloom começam e terminam praticamente inalteradas. Além disso, pude presenciar um choque entre dois tipos de teatro diferentes: a brasileira, Maria Falkembach, mostrando um teatro moderno, físico, com partituras vocais e corporais, dando seguimento a sua pesquisa na interface da dança e do teatro, enquanto que a atriz costa-riquenha, Vicky Monteiro, em que pese seu esforço aparente para fisicalisar algumas ações, permanece o que chamamos de "atriz de texto", o que provavelmente está mais vinculado a sua larga vivência teatral naquele país. Enquanto esta última mantém durante todo o tempo uma sólida quarta parede, a primeira rompe esta convenção por diversas vezes. O embate destas duas correntes teatrais, que poderia ser benéfico, na realidade da cena não favorece o espetáculo. Vicky demonstra claramente suas qualidades vocais e expressivas e Maria Falkembach, que ja tive oportunidade de dirigir em diversas ocasiões, mostra maturidade em cena. Pena que seja colocada na condição de coadjuvante, de uma espécie de espelho da verdadeira Molly Bloom, que seria vivida por Vicky Monteiro.
A peça se baseia na última parte do livro "ULISSES" de James Joyce, que é quando o Sr. Bloom deita e dorme e sua esposa, Molly, desperta e recapitula o dia e parte de sua vida, num fluxo psíquico entre lúcida e ilúcida. Não li o livro de Joyce, mas sei que ele tem fama de literatura "difícil" que beira o incompreensível e dedicado ao entendimento apenas para eruditos. Sendo que segundo alguns críticos, a tradução da edição brasileira, realizada por Antonio Houaisss, complica ainda mais o entendimento. Tudo isso empresta ao livro um pouco da síndrome de "roupa nova do rei", a qual se faz presente por extensão, também na peça em questão.
A iluminação, de Mirco Zanini, talvez por opção, talvez devido aos poucos recursos da sala, é apenas protocolar. O cenário de Rudinei Morales, é discreto, bem acabado e se coaduna com as necessidades do espetáculo. Poderia ter mais "viagem", um pouco mais de arte e refinamento. A trilha sonora de Leandro Maia é precisa, discreta e presente salientando momentos e propondo climas. O figurino feito à seis mãos, por Liane Venturella, Sandra Possani e Chico Macalão, em que pese a breguice do penhoir ser igual a colcha, é de muito bom gosto e acrescenta beleza e plasticidade ao movimento das atrizes que tiram e colocam roupas o tempo inteiro.
A direção de Gerardo Bejarano é limpíssima e, ao meu ver, comete os seguintes pecados: não se define quanto ao estilo de interpretação, permite que o ritmo do espetáculo se mantenha o mesmo durante praticamente toda a peça; e, finalmente, privilegia a verborragia em detrimento da proposta físico-corporal. Cria um espetáculo sem muitas nuanças e não ilumina a difícil obra em que se baseia, mantendo-a elitizada e acessível somente para poucos entendidos.
M.F.

ANTÍGONA BR

Sei que parece sacanagem ir ver peça de colega no segundo dia, mas não deu para ir no primeiro e ganhei um convite para a segunda apresentação de ANTÍGONA BR que aconteceu no magnífico Theatro São Pedro. A peça tem direção de Jessé Oliveira, de quem eu posso dizer que acompanho o trabalho pois tenho visto muitas de suas produções, inclusive sua montagem anterior à frente deste mesmo Grupo Caixa Preta, HAMLET SINCRÉTICO. Aliás, mantendo uma tendência atual, perceptível em várias peças, esta ANTÍGONA BR segue na linha encontrada em Hamlet Sincrético. Assim como Enrique Diaz persegue em "A Gaivota" a mesma fonte do seu "Ensaio.Hamlet". E Patrícia Fagundes segue as descobertas do "Sonho..." na sua "Megera...".
ANTÍGONA BR, numa tentativa de aprofundar as idéias e temas já apresentados no espetáculo anterior, oferece ao público uma confusa salada onde os ingredientes são algumas tragédias gregas, muitos elementos da cultura afro-brasileira (capoeira, griot, culto aos orixás, signos, ritos e mitos africanos), catolicismo popular e um pouco de linguagem pop, tudo isso temperado com cantos e músicas afro-brasileiras sob direção Luiz André da Silva.
Colocando de lado os problemas de ritmo desandado, má articulação entre as cenas e a excessiva e prolongada duração do espetáculo, problemas estes que são totalmente contornáveis na sequência das apresentações, a nova peça do Caixa Preta encontra-se assentada na dramaturgia pra lá de confusa assinada por Viviane Juguero, na minha opinião um dos maiores problemas do espetáculo.
Os figurinos de Raquel Capeletto são excelentes, dão colorido, brilho e auxiliam na composição e na identificação dos personagens. A iluminação também aparece de maneira eficiente. As coreografias de Joca Vergo, além de eficientes, dão brilho ao espetáculo, mas padecem também do mal da confusão ou falta de clareza.
A direção de Jessé Oliveira apresenta lances surpreendentes, de altíssima criatividade, entremeados com momentos completamente perdidos e vazios onde se percebe que o diretor ou não teve tempo para pensar melhor a respeito, ou realmente não conseguiu definir a contento. Uma direção de altos e baixos, problematizada por uma dramaturgia sem clareza que pretendeu abarcar muitas histórias de uma só vez, mas também pelas escolhas feitas pelo diretor, como é o caso do inexplicável uso de duas atrizes para representar Antígona. O elenco é um caso à parte. Acompanho o trabalho de alguns atores desde TRANSEGUN e, por incrível que possa parecer, em alguns não identifico crescimento. Continuam os mesmos amadores de sempre. Gestos mal acabados, gritaria exagerada, dicção ruim, corpo sem presença. Ou se exigem pouco e se vêem como amadores, ou estão sendo pouco puxados pela direção. Desta montagem cabe destacar apenas o trabalho de Lucila Clemente que fez uma belíssima composição para o seu personagem no coro dos velhos. Quanto aos outros, se ninguém brilha, ninguém compromete. O que, cá entre nós, é muito pouco.
Pra concluir, acho que o trabalho de Jessé não terminou. Ainda tem muita coisa pela frente se quiser pelo menos aproximar-se da realização anterior.
M.F.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

OS PERSAS - A TRAGÉDIA MODERNA

Uma proposta de atualização da tragédia formalmente bem sucedida. Momentos de puro teatro e pura ação vocal. A mais antiga das tragédias por nós conhecida na íntegra na versão do moderno teatro alemão. Ousado, "limpo", provocativo. E a precisão?
M.F.

A COMÉDIA DOS ERROS - MUITOS ACERTOS, POUCO RISO


Sei que minha grande amiga e colega Adriane Mottola há muito tempo acalenta a idéia de encenar A COMÉDIA DOS ERROS. Desde os tempos do Decameron, quando a conversa girava em torno de que peça poderíamos montar, essa possibilidade já era citada. E agora, finalmente, seu sonho está em cena. E somente isto já seria um fato prodigioso. Está em cartaz a ousada encenação que a diretora Adriane Mottola, corajosamente bota na roda como sua proposta para elucidar a seguinte questão: como se daria a adaptação, a aproximação, da forma elisabetana, que passados quinhentos anos já podemos chamar de clássica, ao gosto do público moderno. Como encenar Skakespeare sem ser chato? Impossível não comparar quando somos (beneficamente) assolados por montagens dos clássicos shakespearianos. Ficando apenas no âmbito da comédia, pode-se dizer que: enquanto Daniela Carmona e Adriano Baseggio escolheram apostar na fantasia onírica e campestre e na magia incandescente das fadas e Patrícia Fagundes da preferência ao caminho da comunicação agíl e movimentada dos cabarés e casas noturnas, Adriane vai fundo na proposta de modernização, aproveita seu trabalho e estudos de teatro contemporâneo para contemporaneizar Shakespeare.
Montagem super bem realizada com figurinos, como sempre, impecáveis de Coca Serpa. Cenários sugestivos e bem construídos. A iluminação franciscana mas eficiente.
A direção de Adriane Mottola é segura e resulta num espetáculo limpo, bem articulado, mas que ao ver peca pela escolha da tradução de Barbara Heliodora. Pode ser uma boa jogada de marketing, mas o texto versificado choca-se com a proposta ultra moderna da marcação coreografada.
Assisti a terceira apresentação da peça. A primeira realizada numa segunda-feira. Os erros não estavam apenas no título. Aconteceram vários tropeços durante a apresentação. O espetáculo estava frio. Intimidado. Sem ritmo. coisas que não significam absolutamente nada, simplesmente porque é assim que funciona. Na terceira apresentação uma peça está engatinhando a procura de um sentido, de um ritmo e de uma conformação particular que só vai atingir lá pela viségima apresentação. Fora isso, senti falta da comédia. Do riso provocado pelas situações cômicas. A platéia sorria. O elenco esforçava-se visivelmente na tentativa de parecer engraçados. Mas a explosão sonora das risadas não acontecia. Talvez por causa do próprio esforço. Destaque para a atriz Janaina Pelizzon que aparece num papel pequeno mas muito bem aproveitado. Ao vê-la em cena, lembrei do filme "Quero Ser John Malkovitch", e pensei: quero ser Janaina Pelizzon. Sem esforço, com um "time" perfeito.
Resumindo, trata-se de uma produção de alto nível, espetáculo de puro teatro, bem realizado e saboroso, mas esbarra na falta de comédia, talvez por ficar tri-partido entre o contemporianismo das marcas coreografadas, o texto mantido em versos e o esforço exagerado de alguns atores para tornarem-se engraçados.
M.F.
Foto: Marcos Nagelsten zh
Aparecem na foto: Janaina Pelizzon e Sofia Salvatori

quinta-feira, 14 de maio de 2009

ÉDIPO - UMA AULA DE TRAGÉDIA


Fui ao Theatro São Pedro ver a nova peça do Luciano Alabarse, a tragédia Édipo. Peça do Luciano é para mim ida obrigatória ao teatro. Primeiro, porque, pra quem não sabe acompanho a trajetória do Luciano desde quando ele era aluno do DAD/UFRGS. Pra falar a verdade, eu era bolsista da Universidade e trabalhava como uma espécie estagiário em uma peça dirigida pelo Luciano. Acho que era seu trabalho de formatura. Vi praticamente todas as peças que ele dirigiu e pelo menos uma, em que ele atuou. Em segundo lugar, em todas as oportunidades, percebi seriedade artística e profundidade de propostas. Um teatro absolutamente consequente. E sempre com muito público.
Pra começar a dramaturgia é de primeira. Tanto a de Sófocles, como a do Luciano, que teve a sacação e o tino de reunir com inteligência as peças Édipo Rei e Édipo em Colono. Desceu redondo. Principalmente na parte final, onde, embalado pela representação dos atores, Luciano Alabarse cria um cena de grande apelo (no melhor sentido dramático) emocional para a platéia.
Escrevi para o Luciano logo após ter assistido o espetáculo que eu achava que ele estava ficando careta. E é o que acho. Eu gostava imensamente mais e era tocado imensamente mais quando assisti, por exemplo, Pode Ser que Seja Só o Leiteiro Lá Fora, ou a adatação que ele fez para um romance de João Gilberto Noll, chamado Hotel Atlântico. Vou ficar somente nestas duas. Aquele era o Luciano que eu gostava. Cada peça era melhor do que a anterior. E agora?
Decidiu mergulhar nos clássicos. Fez Antígona com assessoria da mega doutoura Kathrin Holzermayr Rosenfield. Foi a pimeira aula de tragédia. Depois, fez Hamlet. A mais careta de todas. Voltou pros gregos em Medéia com a sensacional Sandra Dani no papel principal. Daí até eu, né? E aí chega a vez de Édipo. Insisto em escrever aula de tragédia porque é assim que chegam em mim as três peças gregas: todas têm uma clima de aula de tragédia para o público frequentador do teatro São Pedro. Algo como samba pr inglês ver.
Esta peça é inegavelmente a melhor de todas. Ainda paira um tom de caretice, mas mesmo sem nunca ter participado do chamado teatro de grupo, Luciano está investindo também na manutenção de vários nomes do seu elenco. Os atores, e ele mesmo, vão se apropriando daquela linguagem trágica e suas interpretações vão se tornando mais vigorosas. Concordo plenamente com Renato Mendonça quando ele escreve em seu comentário que "brilham Marcelo Adams, como um Édipo bem-intencionado, egocêntrico e épico, Marcos Contreras, construindo um Creonte sempre a ponto de explodir, e Lutti Pereira, interpretando o vidente Tirésias em impressionante clima de transe místico". Faço minhas, as palavras do nobre colega crítico.
Quanto a polêmica sobre o efeito da trilha com Roling Stones, fico achando que tanto faz colocar Stones, quanto Pink Floyd, quanto The Who, quanto Beatles, quanto qualquer outra preferência musicaldo Luciano não faria diferença alguma. A música parece dissociada da peça. Uma coisa é a peça, outra coisa é a música. Elas não se contrapõem nem se acrescentam. Creio eu. É uma bricdeira do diretor, uma inofensiva licença poética. Um coup de théâtre pra inglês ver.
Modesto Fortuna.

CONSIDERAÇÕES EM DIA DE GRIPE


Pois enfrentei o frio e a gripe e me fui para o teatro, que é uma das únicas coisas que consegue me tirar de casa. Como é bom ir ao teatro. Me fui para o SESC no sábado assistir a mais recente criação do Grupo Meme, concebido, dirigido e coreografado por Paulo Guimarães. Lamento não ter visto "BU", seu trabalho anterior, assim poderia conhecer um pouco mais sobre o trabalho do meu amigo Laco. Terezinhas é um belo é agradável espetáculo. Bem coreografado e limpo. Nem todos os bailarinos têm o mesmo preparo técnico, assim as interpretações destoam um pouco entre si. Na minha opinião o problema da peça reside na dramaturgia que é bastante fraca.
Isto posto, quero mesmo fazer dois comentários.
Um: eu estava gripado, tossi três ou quatro vezes. Talvez, cinco. Me senti um chato completo. Mas minha culpa foi atenuada por que estava na platéia o famoso "fotógrafo chato", aquele que por inexperiência ou excesso de zelo, quer fotografar a peça inteira como se estivesse filmando o espetáculo. Pois tinha um assim na platéia nesta noite. O espetáculo completamente intimista e estalo constante da máquina. E ele sentado, muito bem posicionado, no centro da platéia. De última.
Dois: de última é o palco do SESC que não permite cenas no chão. Da terceira fila pra trás ninguém enxerga nada. Se numa peça de teatro isso é um problema sério, porque se os atores estão em pé não se enxerga as pernas. Quando se abaixam transformam-se, no máximo, em uma cabeça. Se deitam, somem. Agora imagine num espetáculo de dança que trabalhar o tempo inteiro com estas variações. Impossível. O palco prejudica o espetáculo. Isso é o que dá construir auditórios ao invés de teatros. Os arquitetos e engenheiros tem que saber que tudo o se faz num auditório é possível de ser feito num teatro, mas o contrário nem sempre é possível.
M.F.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A CRÍTICA DA CRÍTICA



Depois de escutar com o devido respeito e atenção as palavras proferidas na palestra apresentada na noite de terça (8/4) no Teatro do SESC, pela Sra. Bárbara Heliodora, que como apregoa a divulgação trata-se de “uma das críticas teatrais mais temidas e respeitadas do Brasil”, fiquei ruminando algumas coisas: é absolutamente inegável o profundo conhecimento técnico, teórico e prático que ela possui sobre o teatro. Sua vasta cultura, erudição, preparo e brilhantismo ficaram patentes na leitura do texto que ela criou, creio eu, especialmente para o encontro promovido pelo ARTESESC. Defendeu a função da crítica, com um texto elegante, claro, no qual demonstrava suas crenças através de um pensamento fluente, inteligentemente encadeado, sem deixar de ser um tanto esquemático. É indiscutível a vivência teatral de quem assiste, anualmente, perto de 100 espetáculos, como ela mesma afirmou. É simplesmente incontestável a importância do nome Bárbara Heliodora tanto para o exercício da crítica em particular, quanto para o teatro brasileiro em geral. Dona Bárbara é uma apaixonada confessa pela arte teatral. Diz amar o teatro e torna visível este amor com a maneira inflamada e parcial com que manifesta sua visão sobre o que considera bom ou ruim na arte dramática. Na verdade, se detecta que ela ama mesmo o bom teatro, tanto quanto detesta aquele teatro que na sua visão pessoal é ruim. Sua veemência atinge as raias do dogmatismo e da pretensão de ser a dona de uma verdade única, embora negue isso com a mesma ênfase. Para quem lê, mesmo que esporadicamente as suas críticas nas páginas do Jornal O Globo, como é o meu caso, é possível perceber, nas linhas e nas entrelinhas, que por vezes, ela manda às favas a sua apregoada isenção e objetividade, e se deixa levar por momentos de extrema vaidade pessoal, arrogância, crueldade, deboche e até mesmo uma transbordante e destrutiva maldade. Ela diz que todos somos críticos informais quando assistimos qualquer obra de arte, e pensamos se gostamos ou não gostamos, ou quando expressamos nossa opinião numa mesa de bar, o que não deixa de ser uma verdade. Mas querer comparar uma discussão entre amigos num bar com o preto sobre o branco das páginas de um jornal de circulação nacional é, no mínimo, querer minimizar o seu poder diante da platéia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA COM O DIRETOR ROBERTO OLIVEIRA

Meu amigo, Roberto Oliveira, ator, diretor e chorão de plantão concedeu uma entrevista para o Blog Caco, editado por Renato Mendonça, editor de teatro do caderno de variedades da Zero Hora. Abaixo a entrevista na íntegra. Boa leitura a todos. Os comentários são válidos e esperados. A foto é da belíssima fotógrafa de ZH, Dulce Helfer. (Ass.: Modesto Fortuna)
RENATO MENDONÇA: Aqui vão as perguntas, e me corrige se eu errei alguma coisa.
Abraço e obrigado
O Depósito de Teatro andou meio sumido, mas está voltando com força total: no dia 29 de março, vai liderar novamente a Farra do Teatro; além disso, a partir de abril, o Depósito promove a Oficina de Montagem – Nível Avançado, para atores já com experiência (detalhes para as duas atividades em www.depositodeteatro.com.br).
No dia 11 de abril, estréia no Renascença mais uma montagem do grupo, o espetáculo infantil O que seria do Vermelho se não fosse o Azul, com texto e direção de Roberto Oliveira.
CACO - É com Roberto, líder do Depósito, que o Caco conversou, não sem antes cumprimentá-lo com atraso pelo prêmio de melhor ator que ele recebeu pelos filmes "Ainda Orangotangos" e "Cão Sem Dono", durante o 12º Festival de Lima – Encuentro Latino de Cine (luxo: entre os jurados, Mario Vargas Llosa e Maria de Medeiros), em agosto do ano passado.
ROBERTO – UMA TOTAL E FELIZ SURPRESA. EU ESTAVA EM BELO HORIZONTE PARTICIPANDO DAS FILMAGENS DE UM LONGA: GAIO FILHO, DIRIGIDO POR TIAGO MATA MACHADO. DEI SORTE PORQUE DOIS FILMES EM QUE EU ATUEI ESTAVAM DISPUTANDO NO MESMO FESTIVAL: CÃO SEM DONO E AO. PESSOAS LIGADAS AO AINDA ORANGOTANGOS ESTAVAM LÁ E TROUXERAM MEU TROFÉU.

CACO – Em 2008 e parte de 2007, o Depósito perdeu sua sede e enfrentou graves problemas financeiros. Por quê? O que aconteceu?
ROBERTO - QUANDO NOS MUDAMOS DA BENJAMIN PARA A CÂNCIO GOMES, SABÍAMOS O RISCO QUE ESTÁVAMOS CORRENDO. NOS PREPARAMOS PARA SUPORTAR SEIS MESES DE TOTAL ARROCHO E APRESENTAMOS AO PREFEITO JOSÉ FOGAÇA O PROEJTO ENTORNO SOLIDÁRIO, UM PROJETO DE CUNHO ABSURDAMENTE SOCIAL. VOCE PODE VER NO LINK ABAIXO COMO O PROJETO FOI RECEBIDO.
http://www2.portoalegre.rs.gov.br/cs/default.php?reg=64414&p_secao=3&di=2006-06-30

DEPOIS DE UMA LONGA INDEFINIÇÃO DO NOSSO PREFEITO JOSÉ FOGAÇA EM DESTINAR RECURSOS DO PIEC (PROGRAMA INTEGRADO ENTRADA DA CIDADE) PARA O PROJETO ENTORNO SOLIDÁRIO, PROJETO ESTE QUE PRETENDIA REVITALIZAR O ENTORNO E ATACAR DE FRENTE PROBLEMAS EXISTENTES NAQUELA REGIÃO, QUE VÃO DESDE ANALFABETISMO ATÉ PROSTITUIÇÃO INFANTIL. INFELIZMENTE, A PREFEITURA ATUA COM UMA MOROSIDADE DE TARTARUGA NA ÁREA CULTURAL. O PIEC RECEBE DINHEIRO DO BID E DEVE DESTINAR RECURSOS PARA PROJETOS NA ÁREA DA INCLUSÃO CULTURAL, QUE ERA EXATAMENTE O QUE PRETENDÍAMOS FAZER. INOPERÂNCIA? ENGANAÇÃO? ESTAGNAÇÃO? O PREFEITO FOGAÇA ARRUMOU UMA PEDAÇO DE UMA COISA DANDO UM TERRENO PARA UMA DISTANTE FUTURA SEDE DO ÓI NÓIS, E ESTRAGOU COMPLETAMENTE OUTRA SEMENTE QUE PODIA FLORESCER LÁ NO QUARTO DISTRITO.
IMPUTAMOS TAMBÉM RESPONSABILIDADE DIRETA PELO FECHAMENTO DA SEDE A FUNARTE, NA PESSOA DE SEU OMISSO E AUTORITÁRIO EX-PRESIDENTE SR. CELSO FRATESCHI. IRONICAMENTE A ENTIDADE QUE TEM POR OBRIGAÇÃO FOMENTAR A FORMAÇÃO E MANUTENÇÃO DE GRUPOS DE TEATRO, DECRETOU O ENCERRAMENTO DO DEPÓSITO DE TEATRO AO TOMAR INJUSTAS, ARBITRÁRIAS E DESCABIDAS MEDIDAS PUNITIVAS QUE ESTÃO SENDO CONTESTADAS NA JUSTIÇA.
DEPOIS DE DEZ ANOS DE TOTAL RESISTÊNCIA FOMOS FORÇADOS A FECHAR NOSSAS PORTAS, POIS DEIXÁRAMOS APENAS DE NÃO RECEBER PELO QUE FAZÍAMOS E PASSAMOS A PAGAR PARA FAZER. ANTES QUE PESADAS DÍVIDAS RECAÍSSEM SOBRE OS MEMBROS DO GRUPO QUE AINDA NÃO HAVIAM ABANDONADO O BARCO DECIMOS PELA ENTREGA DOS IMÓVEIS QUE ALUGÁVAMOS.
CACO - O Depósito estava conduzindo um projeto de integração com a comunidade carente do entorno da sede da Câncio Gomes. O que ficou desse projeto? Faltou apoio?
ROBERTO - SIM, FALTOU APOIO. DO ESTADO, DA PREFEITURA, DA IMPRENSA E, PRINCIPALMENTE DO EMPRESARIADO TACANHO. A CULTURA GAÚCHA ESTÁ ATIRADA AS TRAÇAS. ALÉM DO CARNAVAL E DO TRADICIONALISMO NÃO AVANÇAMOS UM MILÍMETRO NO ORÇAMENTO DE NENHUM GOVERNO, SEJA DA ESQUERDA, SEJA DE DIREITA. VIDE A SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA. O EMPRESARIADO CONTINUA COM AS FIRMES VISEIRAS DO CAPITAL AFERROLHADAS AOS OLHOS. ESTÃO TÃO ALHEIOS DA CULTURA LOCAL QUE NÃO CONSEGUEM ENXERGAR AS POSSIBILIDADES DE LUCRO INSTITUCIONAL E O POTENCIAL DE TRANSFORMAÇÃO QUE O NOSSO PROJETO PRETENDIA APLICAR NA REGIÃO. PROCURAMOS TODAS AS EMPRESAS DO ENTORNO: FERRAMENTAS GERAIS, GERDAU, MERCEDES BENZ, VONPAR, TOYOTA, PEPSICO, DMAE, ESAB, PÉGASUS, TURBO MOTO, SINOSSERRA E ATÉ MESMO A CGTEE, QUE ESTEVE ENVOLVIDA EM FALCATRUAS FINACEIRAS MAS NÃO APLICAVA UM TOSTÃO NA CULTURA LOCAL, TODAS DISSERAM NÃO. NOS INSTALAMOS NUMA ZONA CONFLAGRADA DA CIDADE COM UM MARAVILHOSO PROJETO DE TRANSFORMAR A CARA E A ALMA DO ENTORNO, MAS NOSSA IDÉIA CAIU NO VAZIO, NUM VÁCUO PARA ONDE VÃO TODAS AS PEÇAS, TODAS AS MÚSICAS, TODAS AS PINTURAS, POEMAS, FOTOGRAFIAS, ESCULTURAS, ETC, QUE HABITAM ESTA ESTRANHA ILHA CHAMADA RIO GRANDE DO SUL.

CACO – 2008 foi sinônimo de discussão de espaços para os grupos de teatro e de dança e de falência da LIC. Que achas disso? Poderias propor o que seria prioridade em 2009? Qual tua posição sobre a Lei de Fomento aos Grupos, e que está tramitando na Câmara de Vereadores da Capital?
ROBERTO - A DISCUSSÃO SOBRE OS ESPAÇOS VAI GANHAR CADA VEZ MAIS TERRENO, POIS TODOS OS GRUPOS PERCEBEM QUE "TER" UM ESPAÇO FAZ UMA ENORME DIFERENÇA NOS RESULTADOS ARTÍSTICOS.
FAZ TEMPO QUE A LIC FALIU. DESDE O PRIMEIRO MOMENTO, QUANDO MOSTROU QUE ESTAVA ASSOCIADA APENAS AOS INTERESSES DA MACRO CULTURA, DOS SONEGADORES E FORMADORES DE CAIXA DOIS E QUE SUAS GENEROSAS VERBAS JAMAIS BENEFICIARIAM OS PROJETOS DA MICRO CULTURA. A LIC NÃO ATENDE AOS INTERESSES DA MAIORIA DOS FAZEDORES DE ARTE DO NOSSO ESTADO.
QUANTO AS PRIORIDADES AÍ VÃO:
PRIORIDADE MUNICIPAL = MAIS PULSO DO SECRETÁRIO DE CULTURA NAS QUESTÕES DE SUA ÁREA E MAIOR PESSOAL NA CAPTAÇÃO DE RECURSOS JUNTO A FAZENDA MUNCIPAL. APROVAÇÃO, REGULAMENTAÇÃO E EXECUÇÃO DA LEI DE FOMENTO PARA OS GRUPOS DE TEATRO E DANÇA QUE SE ENQUADRAM DENTRO DA PROPOSTA TORNADA PROJETO DE LEI QUE SE BASEIA INTEGRALMENTE NA LEI APROVADA EM SÃO PAULO. MAIS VERBAS E AUTONOMIA PARA O PROJETO USINA DAS ARTES. MAIS VERBAS PARA O PROJETO ARRUMANDO A CASA. MAIS VERBAS PARA O FUMPROARTE, QUE A CADA CONCURSO TEM QUE INVENTAR UMA REGRA NOVA PARA ELIMINAR MAIS CANDIDATOS. PARTICIPAÇÃO DA SECRETARIA NA CONSTRUÇÃO DA SEDE DO ÓI NÓIS, NO MÍNIMO PARA ABRIR PORTAS DE EMPRESÁRIOS IMPORTANTES. APOIO DIRETO E EFETIVO NA APROVAÇÃO DO PROJETO ENTORNO SOLIDÁRIO APRESENTADO PELO DEPÓSITO DE TEATRO, QUE ESTÁ PARADO EM ALGUMA GAVETA DA PREFEITURA MUNICIPAL, MAS COMO AINDA É O MESMO PREFEITO, NÃO DEVE SER DIFÍCIL DE ENCONTRA-LA. INTERVENÇÃO DIRETA NA QUESTÃO DOS GRUPOS QUE TRABALHAM NO HOSPITAL SÂO PEDRO.
PRIORIDADE ESTADUAL = DEPOR A GOVERNADORA E SUA SECRETÁRIA DA CULTURA PODERIA SOAR MUITO RADICAL, MAS É A PRIMEIRA COISA QUE ME OCORRE. A INÉRCIA QUE TOMOU CONTA DA SECRETÁRIA DE ESTADO DA CULTURA DESDE A METADE DO GOVERNO OLÍVIO ATÉ O PRESENTE MOMENTO SÓ DEMONSTRA DESCASO. É REFLEXO DA PRÓPRIA FALTA DE CULTURA OU DE VISÃO DA CULTURA QUE NOSSOS DIRIGENTES DA CULTURA ESTADUAL TÊM, OU MELHOR NÃO TÊM. ENQUANTO A CULTURA CONTINUAR SENDO A PASTA POBRE QUE DEVE SER ENTREGUE A UM AMIGO OU CORRELIGIONÁRIO OU NA BARGANHA DE CARGOS ENTRE PARTIDOS, CONTINUAREMOS VIVENDO NESTA MISÉRIA CULTURAL. ACHO QUE OS ARTISTAS TÊM QUE DECIDIR QUE SECRETARIA QUEREMOS. TEMOS QUE INVERTER O PROCESSO. NÃO DÁ MAIS PRA FICAR ESPERANDO. OU A SECRETARIA PRODUZ, CRIA E DESENVOLVE PROJETOS OU FECHA. OU VOLTA PARA A EDUCAÇÃO E SE ASSUME O RETROCESSO. ASSIM COMO ESTÁ É UMA PIADA. É O DESMANTELAMENTO DO APARELHO CULTURAL DO ESTADO.

CACO – Como está o Depósito agora? Além da montagem da peça infantil, outros planos?
ROBERTO - ESTAMOS EM FASE DE FISIOTERAPIA. PASSAMOS PELA PIOR FASE. SAÍMOS DA UTI. DEPRECIAÇÃO, INDIGNAÇÃO, SOLIDÃO, DESORIENTAÇÃO, E AGORA ESTAMOS NA FASE DA RECONSTRUÇÃO LENTA DO QUE SERÃO OS PRÓXIMOS DEZ ANOS. TOMARA, QUE TENHÁMOS APRENDIDO ALGUMA COISA COM ESTA PESADA LIÇÃO.
POR OUTRO LADO, ESTAMOS CHEIOS DE PLANOS, OU MELHOR DE PROJETOS. APRESENTAMOS DOIS PROJETOS PARA A FUNARTE, QUATRO PARA O FUMPROARTE. COM CERTEZA CONTRIBUIREMOS PARA TORNAR-LHES MAIS DIFICULTOSA A DECISÃO. TALVEZ ASSIM ELES PERCEBAM QUE O FUMPROARTE PRECISA DE MAIS DINHEIRO. COMO TU DISSESTE ESTAMOS PREPARANDO A FARRA DE TEATRO/2009 QUE PRETENDE SER UM ATO COMEMORATIVO AO DIA INTERNACIONAL DO TEATRO, ALÉM DE ENCERRAR A SEMANA DE PORTO ALEGRE E A EXPOSIÇÃO DOS 80 ANOS DA USINA DO GASÔMETRO. ESTAMOS LANÇANDO UMA COLEÇÃO DE POSTAIS COMEMORATIVOS AOS 10 ANOS DO NÚCLEO DE FORMAÇÃO DE ATORES DO DEPÓSITO DE TEATRO. ESTAMOS NOS INSTALANDO NA SALA 402 DA USINA DO GASÔMETRO, ABRIGADOS PELO PROJETO USINA DAS ARTES. PRETENDEMOS TRANSFORMAR NOSSA SALA NUM TEATRO DE BOLSO. ESTAMOS TRABALHANDO NA DIVULGAÇÃO DAS OFICINAS/2009. E VAMOS ESTREAR UM ESPETÁCULO INFANTIL CHAMADO O QUE SERIA DO VERMELHO DE NÃO FOSSE O AZUL EM ABRIL NO TEATRO RENASCENÇA.

CACO – O Depósito vai ocupar espaço na Usina do Gasômetro? Quais seriam os planos? A Bagasexta segue viva?
ROBERTO - SIM. ACABEI DE RESPONDER TUA PERGUNTA AÍ ACIMA. PARTICIPAMOS DO EDITAL DO PROJETO USINA DAS ARTES E FOMOS CONTEMPLADOS COM A SALA 402. UMA SALA TODA DE VIDRO, COM UM PÉ DIREITO BAIXÍSSIMO, MAS QUE VAI SER NOSSO ENDEREÇO POR ALGUM TEMPO. PRETENDO REALIZAR ALGUMAS EXPERIMENTAÇÕES TEATRAIS APROVEITANDO O PEQUENO ESPAÇO QUE A SALA OFERECE.
QUANTO A BAGASEXTA, AS COISAS SÃO MAIS DIFÍCEIS. ALÉM DE ESTARMOS OUTRA VEZ SEM UM LUGAR ADEQUADO PRA FAZER NOSSA FESTA PERFORMATICA, ESTAMOS DESFALCADOS DO JULINHO (ANDRADE) E DO MARCELO (AQUINO) QUE ESTÃO ATUANDO NO EIXO RIO/SÃO PAULO. O FUTURO DA BAGASEXTA É INCERTO. TALVEZ A GENTE FAÇA COMO O "TANGOS" E O "BAILEI", UMA VEZ POR ANO A GENTE REAPARECE E FAZ UMA GRANDE BAGASEXTA ANUAL.

CACO – Andaste fora dos palcos por um tempo, mas foste percebido em várias plateias. Como estás vendo a cena atual em Porto Alegre?
ROBERTO - COISAS DO WORD. FIQUEI HORAS DIGITANDO E PERDI AS TRÊS ÚLTIMAS RESPOSTAS. TENHO IDO MUITO AO TEATRO. EU ADORO TEATRO. QUANDO NÃO ESTOU FAZENDO ESTOU ASSISTINDO. SAIO DE CASA PREPARADO PRA GOSTAR DA PEÇA QUE VOU ASSISTIR. TORÇO PELO BOM TEATRO. A PEÇA COMEÇA E EU VIBRO COM AS PRIMEIRAS IDÉIAS, MAS E DEPOIS? AS COISAS QUE TENHAM VISTO SÃO MARAVILHOSAS TENTATIVAS DE ALGO QUE NÃO ACONTECE. NÃO CONSIGO FICAR EMPOLGADO COM AS COISAS QUE TENHO ASSISTIDO. NADA TEM OUSADIA. POUCAS PEÇAS TÊM TEATRO-ARTE. ASSIM COMO SOU ADEPTO DO FUTEBOL-ARTE, SOU ADEPTO DO TEATRO-ARTE. FORA OS SHEAKESPEARES E POUQUÍSSIMOS OUTROS TRABALHOS, A DRAMATURGIA É FRACA, TÍMIDA. UM CONTEÚDO INDEFINIDO RESULTA NUMA FORMA INDEFINIDA. ATUAÇÕES IMPRECISAS E DÉBEIS. DIREÇÕES CONFUSAS E MAL DESENHADAS. É CLARO QUE TEM (AINDA BEM, NÉ?) EXCEÇÕES. EU SEI QUE TRABALHAMOS COM A PRECARIEDADE, COM A FALTA TOTAL DE RECURSOS, MAS... TENHAM DÓ.
MAS TAMBÉM ACHO QUE ISTO É UM REFLEXO DA MANEIRA COMO A CULTURA É TRATADA. COMO ENCARAMOS AS QUESTÕES CULTURAIS. NA MINHA OPINIÃO, TUDO ESTÁ INTERLIGADO. NÃO CONSIGO PENSAR QUE TUDO ACONTECE ISOLADAMENTE. FECHAR AS PORTAS DO DEPÓSITO DE TEATRO ESTÁ INTERLIGADO A ATITUDE DE EXPULSAR OS GRUPOS DO HSP. A MANEIRA COMO A UFRGS TRATA A CULTURA, UTILIZANDO-SE DA LEI ROUANET PARA CAPTAR RECURSOS PARA PRESERVAÇÃO DE SEUS PRÉDIOS E MANTENDO A MINGUA O DEPARTAMENTO DE ARTE DRAMÁTICA ESTÁ INTIMAMENTE LIGADA A PASMACEIRA QUE DOMINA A SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA QUE VEM PERMITINDO O DESMATELAMENTO DA PARCA ESTRUTURA CULTURAL DO ESTADO. TODOS ESTES PROBLEMAS E QUESTÕES SÃO FACES DIFERENTES DE UM MESMO UNIVERSO. PARA MIM OS RESULTADOS NA ÁREA ARTÍSTICA DEPENDEM DIRETA E INDIRETAMENTE DE BONS GESTORES E DE BONS RESULTADOS NO ÂMBITO ADMINISTRATIVO CULTURAL.
CACO – Já foste premiado com o Açorianos de Melhor Ator por "O Ferreiro e a Morte" (1987) e por O Estranho Sr. Paulo (1996), com o Açorianos de Melhor Ator Coadjuvante, por "Decameron" (1993), e com o Tibicuera de Melhor Ator Coadjuvante, por "O Rei Nunca Riu" (1993).Mas tens frequentado sets de filmagem cada vez mais. Queres te dividir entre cinema e teatro? E qual a diferença entre a atuação no cinema e no teatro?
ROBERTO - SERIA MARAVILHOSO QUE TUA FRASE - "TENS FREQUENTADO SETS DE FILMAGEM" - FOSSE MESMO VERDADEIRA. APESAR DE TODOS OS PRÊMIOS CONSEGUIDOS NO TEATRO E APESAR DOS CINCO OU SEIS TROFÉUS QUE VIERAM DAS ATUAÇÕES NO CINEMA, AINDA ESPERO AQUELES CONVITES TODOS, EM QUANTIDADE, PARA QUE EU POSSA ME DIVIDIR ENTRE O TEATRO E O CINEMA COMO EU GOSTARIA. ACHO QUE O ATOR DEVE TESTAR SUAS CAPACIDADES INTERPRETATIVAS EM TODAS AS MÍDIAS POSSÍVEIS, PENA QUE AQUI NO ESTADO A GENTE NÃO POSSA REALMENTE EXPERIMENTAR-SE NA TELEVISÃO E NO CINEMA. SÃO POUCOS OS ATORES GAÚCHOS QUE CONSEGUEM ADQUIRIR UMA CERTA PRÁTICA E FAMILIARIDADE COM OS RECURSOS DA TV E DO CINEMA, BEM COMO DE SUAS DIFERENÇAS E PARTICULARIDADES.

CACO – Já ouvi falar que estavas te dedicando a escrever um livro. Procede? Que livro seria esse?
PROCEDE. ESTOU TENTANDO EDITAR UM LIVRO COM QUATRO PEÇAS INFANTIS QUE ESCREVI NOS ANOS 80 E 90. MAS O LIVRO A QUE TE REFERES TEM O TÍTULO PROVISÓRIO DE NO SMOKE - DIÁRIO DE UM (QUASE?) EX-FUMANTE, QUE, COMO O TÍTULO INDICA, CONTA NA FORMA DE UM DIÁRIO OS PROBLEMAS ENFRENTADOS POR UM SUJEITO QUE ESTÁ DETERMINADO A PARAR DE FUMAR. O LIVRO SE COLOCA NA LINHA DOS LIVROS DE HUMOR. NA MESMA VERTENTE DAS COISAS QUE O VERÍSSIMO ESCREVE. GUARDADAS AS PROPORÇÕES, É CLARO. TERMINEI DE ESCREVÊ-LO NO ANO PASSADO E AGORA ELE SE ENCONTRA EM FASE DE TESTES. ENTREGUEI CÓPIAS PARA DEZ AMIGOS SELECIONADOS E ELES ESTÃO LENDO E ANOTANDO SUAS CRÍTICAS PARA UMA PROVÁVEL SEGUNDA REVISÃO GERAL. ESTOU PROCURANDO QUEM QUEIRA EDITAR. QUERES SER MAIS UM DOS LEITORES-TESTADORES? ALGUÉM AÍ QUER LER? ALGUÉM AÍ QUER EDITAR?

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO - QUARTO DIA

Quarto dia de encontro, terceiro encontro matinal com a plenária reunida. Quinze grupos de outros estados e alguns grupos paulistanos - na abertura se falou em 60, mas na prática devem ter cinco ou seis participando efetivamente - reunidos para uma manhã de resoluções e encaminhamentos. Afora duas ou três idéias anotadas, não conseguimos chegar a nenhuma conclusão ou proposta de ação, mobilização, articulação de qualquer espécie. Sintomático. Parece que preferimos reclamar e ter sempre do que reclamar, reclamar da curadoria do encontro, do patrocinador do encontro, resmungar, choramingar, ao invés de buscar objetivamente possíveis soluções para o problema. Simplesmente não conseguimos. Vários colegas expressaram sua avaliação do encontro em São Paulo. Pontos negativos foram levantados e repassados e repassados. Propostas passaram várias vezes pela roda e não criaram eco.
As propostas de encaminhamentos deveriam atender a quatro grandes temas ou questões apontadas pelos grupos, durante os dois encontros matinais anteriores, como "as quatro mais" do Próximo Ato - Etapa São Paulo:
1. Diálogo com a sociedade.
2. Políticas públicas de financiamento do teatro.
3. Compartilhamento e crítica estética entre grupos.
4. Repertório e políticas vigentes de programação.
Talvez, se pensassemos em duas ações para cada uma das quatro questões, conseguíssemos apontar mais do que as duas a que, depois de mais de duas horas de reunião, chegamos:
1. Alimentar um blog com links para os quatro temas. O que contempla os quatro itens.
2. Intervir na dinâmica dos festivais criando momentos de encontros dos grupos. Que contempla somente a 'questão número 4.
E o diálogo com a sociedade? Nenhuma idéia?
E sobre as políticas públicas?
amanhã teremos mais uma rodada de duas horas para tentar novamente chegar a mais alguns encaminhamentos.
De tarde, o último encontro com Erika Fischer-Lichte, onde ela projetou trechos de peças do grupo alemão Murx - visto num PoA em Cena - e analisou cirurgica e brilhantemente cada uma das peças. Depois os produtores ingleses David Jubb e David Micklem ministraram uma dinâmica chamada Playgrounding, um minicurso que é um processo de improvisação arquitetônica. Coisa pra inglês ver. A realidade dos caras é muito distante da nossa, mas também lá, cultura é a primeira coisa que se corta quando aparece a palavra crise.
Noite: duas palestras bacanas: a mexicana Ileana Diéguez e o brasileiro Ismail Xavier, mega doutor e professor da USP na área de cinema. As palestras eram díspares mas se encontravam de maneira formidável. Ela falando nas experiências de teatralidade contidas nas intervenções cênicas urbanas, e ele destrinchando Glauber Rocha e sua teoria sobre a "Estética da Fome". Senti que conseguiram expandir as mentes e limites da nossa imaginação e da nossa teatralidade.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO - TERCEIRO DIA

Mais um dia de encontro.
De manhã, lá fomos nós para mais uma sessão de Espaço Aberto na Casa das Rosas. A plenária, um pouco menor do que no dia anterior por causa das ausências, decidiu discutir quatro temas: reformas na lei rouanet, diálogos com a sociedade, crítica e residência entre grupos e um quarto tema que não lembro agora qual era, mas isso não tem muita importância porque esta sala de discussão e a que deveria tratar da lei rouanet acabaram não acontecendo. Assim, dois assuntos foram aprofundados e embora não se tenha chegado a conclusões definitivas, foi possível ouvir os mais variados relatos e teorias a respeito de cada uma das questões.
À tarde, mais uma árdua rodada de duas horas com a alemã Erika Ficher-Lichte e depois, outro encontro com a mexicana Ileana Diéguez que apresentou vários exemplos de invenções estéticas urbanas como prática de manifestação política que atua num limite entre o teatro e a teatralidade.
O encontro da noite acabou mais cedo pra mim. Isso porque um dos palestrantes convidados era, nada mais nada menos do que o ator, diretor, autor, dono de teatro, homem das artes, gestor cultural e vítima da ditadura, Sr. Celso Frateschi. Pois este Sr. é o grande, o maior, responsável direto pelo encerramento das atividades do Depósito de Teatro. Consegui ouvir sua palestra vazia em que, dos trinta minutos que dispunha, gastou 28 falando sobre como ele mesmo era bom e importante e como havia sofrido com a ditadura, e como havia aprendido com o Boal, e , enfim, como ele era magnífico e engajado. Mas, não levem muito em consideração o que estou escrevendo, porque sinto muita raiva desta pessoa. Mas que a palestra foi vazia foi. Tanto o papo de produtor de primeiro mundo dos Davids, quanto a discurso do Frateschi puxaram para baixo o nível bacana das discussões.
Em determinado momento ficou insuportável, mesmo repugnante ficar olhando o rosto e ouvindo a voz da referida sumidade que destruiu um sonho coletivo plantado em 1998 e que portanto, deveria estar festejando seus 10 anos, como o Espaço Ágora, do Sr. Celso Frateschi, que decretou este estado de luto em que nos encontramos. Tive que me retirar porque comecei a pensar que tipo de ação eu poderia fazer ou que tipo de atitude eu deveria tomar. Pena que a idade parece que nos torna absurdamente sensatos, e para não estragar a imagem do encontro preferi sair a armar um barraco na hora do debate.
Voltei pro Tulipp Inn pensando algumas coisa que ja pensei, do tipo como pode um homem de teatro, um artista que tem um espaço e o mantém, se torna cego pelo poder de um cargo ridículo no qual não consegue se manter por mais de dois anos, e não enxerga o chão que está pisando e amassa uma flor tão delicada quanto o nosso grupo de teatro? Pensei coisas novas: Como uma pessoa que acaba com um grupo de teatro por omissão e descaso pode ser convidado por uma instituição para falar num encontro internacional de teatro de grupo? Como uma pessoa que tem o seu nome envolvido em acusações de favorecimento do cargo em benefício próprio pode ser convidada para falar num encontro internacional de teatro? A primeira resposta é fácil: eles não sabiam nada sobre a história do Depósito. Mas no segundo caso, todos sabem das acusações feitas nas páginas de O Globo e puderam ler a troca dos e-mails disparados entre os burocratas da Funarte e este senhor. E me parece que, como nas eleições, somente a suspeita, o envolvimento do nome, já deveria afastar este tipo de pessoa deste tipo de evento. Mas não. Talvez o Itaú Cultural esteja envolvido nesta lavagem de nome de pessoa. Ou talvez, ele seja amigo dos curadores e de algum deles. Ele não disse nada além de referir-se a si próprio e "limpar" o seu nome dando a platéia a "sua ficha". Voltei pro hotel carregando um enorme peso, uma tristeza enorme.
Minha única atitude foi entregar-lhe uma carta acusando-o, responsabilizando-o pela morte do Depósito de Teatro que aqui ninguém sabe, mas é um grupo de Porto Alegre, com dez anos de existência e uma série de excelentes trabalhos prestados a cidade e a comunidade em que estava inserido.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO - SEGUNDO DIA


Bem puxado esse negócio aqui. Trabalho das nove da manhã às dez e meia da noite. E no dia seguinte tem de novo. Hoje o dia começou na Casa das Rosas, maravilhoso palacete, acho que do início do século XX, com um roseiral gigantesco. Foi aí o encontro da manhã, que começou as nove e meia com o trio de curadores explicando a dinâmica do Espaço Aberto, que discute temas que partem das inquietações dos próprios participantes e congrega os participantes que, livremente, se inscreverem para debater sobre este ou aquele tema. A idéia é aproveitar o clima de liberdade de assuntos que existe num coffe-break, por exemplo.
Foram apresentados 12 temas para discussões, que foram divididas em duas sessões de debates de duas horas cada um. Cada participante só pode escolher dois temas e então torna-se uma escolha muito difícil pois a gente gostaria de estar pelo menos em três lugares ao mesmo tempo. Isto é impossível. Mas participar de três discussões é possível porque as regras deste enorme coffe-break permitem que você se retire de uma reunião e entre em outra, no momento que a primeira não esteja mais lhe interessando. Todos os temas expressavam questões centrais e comuns a todos os teatreiros de norte a sul do Brasil.
Almoço, adivinhe onde? No restaurante do Itaú Cultural.
De tarde dois mini-cursos. Adivinhe onde? No Itaú Cultural. O primeiro, "O Que Acontece no Entremeio - Teatro Como Espaço Liminar" com a mega doutora e professora phd total Erika Fischer-Lichte que abordou as diferenças entre o fenômeno da encenação e o da apresentação, explicitando que a experiência da apresentação é absolutamente única e muito mais efêmera do que o próprio fenômeno teatral, uma vez que cada apresentação é a soma de relação entre aquele grupo de atores e aquele grupo de espectadores e que uns afetam aos outros simultaneamente.
Depois foi a vez da mega doutora e professora phd total Ileana Diéguez provocar a platéia com o tema "Os Limiares da Cena - Teatralidades, Performances e Política", através do qual palestrou sobre os limites do teatro, ou melhor, sobre as fronteiras do teatro com outras artes performáticas, como por exemplo a instalação. O teatro como arte liminal ou numa liminaridade que aproveita vários elementos do teatro recombinados com outros meios artísticos. Ilena apresentou cenas de uma re-criação de Antígona, que relacionava-se diretamente com um momento político do Peru, onde o Presidente Fujimori havia proibido de se falar nos túmulos encontrados numa escavação. E duas outras experiências que transbordavam teatralidade, mas preenchiam-se (será enriqueciam-se?) com elementos de outras áreas da arte.
De noite, mais uma rodada na Sala Vermelha do Itaú Cultural, que só não é maior por falta de espaço. Se fosse em Itú, certamente teria o dobro do tamanho. Com 0,5% da verba anual que sustenta uma estrutura daquele tamanho não teria acontecido o que aconteceu com o Depósito de Teatro. Mas isso é outro assunto.
De noite, duas belíssimas palestras, imperdíveis: a professora Erika Fischer-Lichte dissertando sobre a totalidade da sua teoria sobre o fenomeno da apresentação, e o mega doutor e professor e phd total em estética e crítico de arte, Rodrigo Naves. Simplesmente, genial. Os dois palestrantes propuseram uma discussão de altíssimo nível cada um na sua área. Rodrigo Naves citou vários autores e filósofos alemães e isso fez com que a doutora Erika suavizasse a expressão que usava no início da fala do colega da artes plásticas. Ele começou falando baixinho, num tom quase monocórdio, mas que logo inflamou-se e se transformou num , tão apaixonado e provocativo, quanto bem humorado discurso sobre os limites apresentados a chamada arte contemporânea. Encantou a platéia inteira.
O debate acabou por falta de perguntas e porque o restaurante fechava as 23 horas e muita gente queria pegar o fimzinho do jantar. Como dizia Brecht, primeiro a barriga, depois o foder, depois...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO

Pois aqui estou eu em São Paulo, participando da sexta edição de um encontro internacional de teatro, chamado Próximo Ato, do qual a gente só está tomando conhecimento agora. É que este ano os organizadores do evento resolveram ampliá-lo para estados brasileiros. Nas cinco primeiras edições tudo se passou em São Paulo. Desta vez aconteceu em Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, sendo que cada uma destas cidades reuniu os estados da sua região geográfica. À frente desta gigantesca empreitada está o Itaú Cultural, braço do Banco Itaú para apoio às artes.
Os organizadores abriram a noite agradecendo a participação de todos, explicitando os objetivos da entidade, aquilo que esperam de semelhante encontro e passaram a palavra aos seus parceiros que são espécies de adidos culturais dos consulados da Espanha, França, Inglaterra e Alemanha. São ele que pagam as despesas da parte internacional do encontro. O Itaú cobre a parte nacional e prometem para o próximo ano ampliar ainda mais o Próximo Ato, levando-o para todas as regiões do Brasil, com a brilhante idéia de mapear a ação do teatro de grupo, e por extensão, da produção teatral brasileira. Pelo menos daquela produção que realmente interessa e que, via de regra, é realizada pelo chamado teatro de grupo, coletivos artísticos que tentam superar a precariedade, que é comum a todos, através da geração de experiência e da busca de uma forma estética mais ou menos radical.
Na sequência, falaram os curadores: Maria Tendlau, Antônio Araújo e José Fernando Azevedo. Como este é o terceiro ano consecutivo que o trio faz a curadoria do evento, eles esmiuçaram os propósitos do encontro e repassaram cada uma das três edições que comandaram, demonstrando que avançam num caminho lógico que ano a ano aprofunda a discussão sobre os resultados alcançados pela atividade teatral em grupos. A questão que se impõe no encontro diz respeito a timidez formal que resulta das experiências vividas nos grupos teatrais. Causas? Consequências? Façam suas apostas?
Depois, todos para o lançamento do livro que reúne textos desenvolvidos nas cinco primeiras edições do evento e, é claro, o indefectível coquetel. E todos, eram muitos. Bonito de se ver. Bonito de fazer parte e ver-se como um tentáculo de um movimento que a gente nem imagina a extensão e o potencial de atuação, mobilização e difusão de idéias, pensamentos e estéticas. Maravilhoso. Vieram 25 pessoas de outros estados para reunirem-se com mais de 60 paulistanos da capital o do interior.
E logo a seguir: os negócios. Os malditos e necessários contatos. Conhecer pessoas, conversar, trocar. Muitos sorrisos, apertos de mão, conversas vazias, ou seja, a velha cordialidade e hipocrisia, repito necessária, mas nem por isso menos hipócrita. Infelizmente, não gosto desta parte e mesmo entre os meus, sinto-me um peixe fora d'água. Percebo que não sou a pessoa certa para estar aqui, mais ou menos, na qualidade de representante do movimento de teatro de grupo do Rio Grande do Sul.
Saí de fininho e voltei para o hotel. Golden Tulipp. Mais bicha, impossível.

domingo, 21 de setembro de 2008

DEPÓSITO DE TEATRO FECHA SUAS PORTAS

Como ja deve ser do conhecimento de muita gente o Depósito de Teatro, justamente no ano em que completaria dez anos de atuação e luta renhida pela sua permanência, encerra suas atividades e fecha as portas da sua sede na Rua Câncio Gomes. Com o emblema de "10 anos de resistência e prazer", o grupo investiu todas suas fichas na manutenção de uma sede e na produção de uma obra artística inegavelmente de altíssima qualidade para os padrões locais. Injetou energia, sangue, suor e lágrimas; inventou e reinventou propostas teatrais, intervenções em diversos espaços, performances; atuou efetiva e dignamente na formação de platéia e de novos atores; tendo recebido por tudo isso o seguinte comentário do jornalista e ex-vice-governador do Estado, Antonio Hohlfeldt: “Pode-se dizer que, hoje em dia, o Depósito de Teatro (...) tornou-se o palco mais significativo de nossa atual cena teatral”.*
Algumas idéias e ações foram pensadas para denunciar à opinião pública os porquês de tão repentina decisão. A simples razão do silêncio é que o grupo teme represálias. Imaginem um grupo de artistas se cala porque teme represálias do poder público. É quase pior do que a censura.
Em que pese este temor, vários são os acontecimentos que podem ser apontados como causadores da dissolução do grupo e entrega dos prédios aos seus proprietários. Sim, o Depósito de Teatro era inquilino. Não era o proprietário nem do espaço da Benjanim, tampouco do da Câncio. Pode-se começar citando a audácia e pretensão do grupo em vislumbrar a criação de um centro multicultural numa região da cidade absolutamente carente de recursos e horizontes, formada, principalmente, por papeleiros e sub-empregados em geral, na sua maioria com baixíssimo nível de instrução escolar ou analfabetos; sem nenhuma possibilidade de acesso e expressão cultural; uma zona insegura, empobrecida e decadente da cidade. Contrariando todas as regras de mercado e previsões marketeiras, o grupo trocou a Av. Benjamin Constant por um novo endereço onde impera o descaso e o abandono, tanto do poder público quanto dos empresários reclamões da área.
É obvio que os integrantes do Depósito sabiam onde estavam se metendo. A praça da vergonha (não entendo como nenhum ecologista reclamou do que fizeram com a praça. Onde está a Agapan?) e seus arredores são focos de miséria, exploração sexual infantil e juvenil, “bocas” de tráfico, gangues de meninos de rua e grupos de moradores de rua, além de uma máfia de pequenos contraventores. É certo que eles escolheram aquele endereço porque acreditavam piamente que o teatro poderia provocar uma sensível diferença naquele lugar. "Estabelecer ali um foco de luz", com definiu a atriz Sandra Possani.
Outros pontos que devem ser apresentados como determinantes neste ato de pendurar as luvas e abandonar o ringue, dizem respeito justamente a dinâmica e o comportamento dos membros da Associação Cultural, que manteve, ao longo destes dez anos, uma atitude bastante relapsa em relação a questões de crucial importância na gerência de um empreendimento cultural. Inaptidão administrartiva; despaixão pela contabilidade; a insuportabilidade do peso asfixiante da burocracia imposta à cultura; inedaquação para gerenciar um empredimento cultural; comportamento relapso diante de questões chave na administração de uma empresa do setor cultural (que é o que somos obrigados a ser); comportamento relapso e pusilânime em relação ao gerenciamento cotidiano e profissional do grupo e do espaço.
Mas, a frente de todos estes motivos, dois se destacaram e decretaram a impossibilidade total de continuidade. Dois principais motivos minaram até a raiz mais profunda a resistência, o prazer e a crença na luta cultural que o grupo sempre manteve: a atitude injusta, arbitrária, imoral e autoritária da Funarte que à revelia de todas as provas apresentadas e desconhecendo o excelente histórico do grupo, penalizou a Associação não só, a devolver a quantia de trinta e quatro mil reais (mais ou menos o mesmo valor de que foram vítima comprovada pela justiça de um roubo praticado por sua produtora), e além disso simplesmente diz que o grupo perdeu o direito a outros 180 mil reais a que a Associação fez jus licitamente em dois outros editais promulgados e definidos pela referida entidade. Mas, sobre isso quero falar mais extensamente outro dia. Hoje quero tratar do outro motivo: a Prefeitura de Porto Alegre, administração José Fogaça.
Artista, intelectual, homem de visão, democrata, ora num partido, ora noutro, José Fogaça recebeu solenemente a diretoria da Associação em seu gabinete de audiências da Prefeitura. Na ocasião o grupo lhe apresentou o Projeto Entorno Solidário, que resumidamente propõe uma série de ações artístico-culturais-profissionalizantes no entorno da sede, em troca de uma verba que seria investida na manutenção do grupo e do espaço. O próprio grupo se encarregou de indicar ao prefeito a fonte desta despesa: o PIEC - PROGRAMA INTEGRADO ENTRADA DA CIDADE, que prevê em seus estatutos que sejam apoiadas financeiramente idéias e projetos de natureza cultural. O dinheiro existe e vem do Banco Mundial. Ou seja não sai um centavo dos cofres municipais e a cidade ainda ganha um centro cultural descentralizado cuja proposta é encarar o "trabalho sujo" que vem sendo feito justamente por ONGs e outros artistas kamikases. Era o negócio da China. O prefeito ficou encantado com o projeto. Ordenou imediatamente que seus assessores tomassem todas as providências cabíveis. Resultado: passados quase um ano e oito meses o projeto continua(?) tramitando pela Prefeitura. Passados uma ano e oito meses o grupo vinha sendo suavemente enrolado pela amabilidade e simpatia da Secretaria Municipal da Cultura que tentava débil e suavemente pressionar a liberação da verba.
Falta de visão do Fogaça? Ele estava mentindo e enganando descaradamente o grupo? Ou foi preguiça e falta de visão dos seus comandados? O dinheiro foi usado para outra coisa? Como vão prestar contas da parte do dinheiro que deveria ser aplicado em projetos da área cultural? Incógnitas não explicadas.
O resultado é que por BURRICE, DESCASO ou MÁ GESTÃO DE VERBA, a cidade de Porto Alegre perdeu a oportunidade de implantar um projeto que poderia ser piloto na área cultural, além de perder um espaço cultural maravilhoso numa área de risco.
O GRUPO DEPÓSITO DE TEATRO, privado da comemoração de décimo ano de intensas e memoráveis realizações, perde sua base, sua casa, sua cara, sua referência, seu centro de operações, perdeu o tesão, perdeu o rumo, o sentido de existir, perdeu totalmente a confiança neste neste governo de realizações medíocres, que tratou com medidas paliativas (algumas muito boas, mas paliativas) questões tão importantes quanto a manutenção dos espaços culturais sob administração de grupos de teatro e da sobrevivência dos próprios grupos.
Tendo em vista que o município não dá conta de construir ou instalar e administrar novos espaços culturais em regiões descentralizadas da cidade, e, aliás, nem no centro (o Centro Municipal de Cultura foi construído no final dos anos 70), é um absurdo irracional permitir a extinção de um grupo de teatro, é uma insanidade cultural perder a parceria de um grupo de teatro para cumprir uma missão que, no mínimo, é também da Prefeitura. Reflexo de como as coisas relacionadas a cultura são tratadas em nosso estado. Orgulho de ser gaúcho? Como assim? E na Cultura, não vai nada?
Modesto Fortuna
LEIA NO PRÓXIMO NÚMERO = OUTROS CAUSADORES DA MORTE DO DEPÓSITO DE TEATRO.
*Jornal do Comércio RS, 05 de agosto de 2005.
Foto: Kiran
Aparecem na foto: Os Três Patetas (Maria Falkembach, Sandra Possani, Roberto Oliveira) e José Fogaça.

SEICHO-NO-IE E O ENCANTO DAS MULHERES



Na mesma época em que comecei a perceber a existência das mulheres e querer me aproximar delas, conheci e comecei a andar com o Hique, ou Rique ou Rife. Nunca entendi direito o nome dele. Um cara metido a maluco, mas bom companheiro de trabalho e um amigo legal que sempre tinha cigarros. A família dele, todinha, era da seicho-no-ie. Acreditavam que o mundo é uma projeção da mente, faziam viagens espirituais pelo espaço e diziam que tudo na vida era habitado pela presença divina e então tudo devia ser amado como se fosse o próprio Deus. Que viagem. Daí que o Rife tinha que amar pedras, latas de lixo, postes de concreto e garrafas de cerveja. Mas disso eu também gostava. De cerveja e das mulheres.
A gente saía juntos. Na Lancheria do Parque. Ia andar de skate no Marinha. Ou então dava longas caminhadas pela cidade procurando qualquer lance legal: uma festa, uma briga, umas minas pra beijar. Ou simplesmente gastava uma grana bebendo cerveja e cachaça em algum boteco bem fudido. Às vezes ele tinha que me carregar pra casa. Às vezes ele é que dava trabalho. Uma noite ele tomou um porre fudido e se apaixonou por um tijolo desses de seis ou oito furos. Levantava o tijolo na mão com reverência e me mostrava como o tijolo era lindo. “Eu te amo tijolo.” E começou a fazer carinho no tijolo. Abriu as calças e tirou o pau pra fora. Alisava o pau e o tijolo. Quando o pau ficou duro enfiou o negócio num dos buracos do tijolo e ficou metendo e cantando um mantra seicho-no-ie. O cara ficou engatado na porra do tijolo. O pau trancou lá dentro. Levei ele no Pronto Socorro com tijolo e tudo. Os caras riram de montão. Quebraram o amado tijolo com um martelo. O pau do Rique tava todo esfolado. Sangrando bastante. Depois dessa façanha passou a amar somente as mulheres e outros buracos mais delicados e receptivos e que também são habitados por Deus.

Nessa época foi que comecei a perceber as mulheres. Admirá-las. Antes eu nem as via. Apenas gostava de bater nelas. De espancá-las pra valer no recreio da escola, ver como choravam, desesperadas. De repente, comecei a vê-las de uma maneira diferente. Ficaram encantadoras, a ponto de me fazer acreditar que mulher é a coisa mais bonita que existe no mundo. Comecei a pensar que sobre elas pesa a responsabilidade por um mundo menos hipócrita. Mas isso já é outro papo. E não falo só por causa do lance da trepada, do prazer, sexo, etc... Falo de encanto mesmo. De beleza, saca? Assim como... o mar, uma palmeira balançando no vento, um bauru do Trianon, um Mercedes conversível... Beleza mesmo. Estética. Design. Cheiro, movimento e tesão. Como a garota que passa agora diante da minha janela. De tarde, solzinho dourado e ela parece um sorvete cremoso rebolando e me derretendo. Esfrego instintivamente o pau. O Caetano cantando alguma coisa na cozinha. Alguma coisa que diz: “o melhor lugar é ser feliz, o melhor é ter amor...”. Amor! Essa é a palavra. Eu, cheio de amor pra receber e ela, sobrando pra me dar. E como sobrava... Eu poderia chupá-la inteira durante dias. Deus habitava ela inteirinha. Eu poderia comê-la de mil e trezentas maneiras diferentes. O olho devorando. Uma cabeça imaginando e a outra sacando todas e crescendo, comichando. Inchando pra valer. E o olho já transbordando. A menina rebolando aquela bundona carnuda. Pensei que era muito fácil amar as mulheres. Sobretudo as lindas. Sobretudo aquela ali, na parada ônibus, na frente da janela do meu quarto. Encostada no muro como um passarinho pousado numa goiabeira. Um lacinho vermelho no cabelo. Aquele solzinho incandescendo de leve a pele dela. Vejo ela de biquini na praia. Vejo ela de calcinhas brancas. Vejo ela peladinha na minha cama. Vejo ela como eu quiser. Me convidando. Vejo Deus habitando a boceta dela e me chamando pra entrar no seu templo sagrado. Ela conversa com Deus e diz pra ele: “Vou dar praquele carinha que ta na janela me olhando. Tenho que dar pra ele. Vou foder ele todinho e chupar bem o pau dele.”
O Caetano calou a boca e eu, pra aliviar a tensão, fui até a cozinha mudar de estação. Outro bobalhão começou a cantar outra merda qualquer. Resolvi atacar. Saí à rua determinado e pude ver o ônibus arrancando. Na parada, caída no chão a fita mimosa vermelha com cheiro de champú barato. Cheiro de flor. Fita mimosa, perfume, cabelo de mulher, flor, mulher. Tudo da mesma família feminina. Coisas que se afinam, que guardam a beleza em si. Todas habitadas por Deus.
Voltei para o meu quarto e me converti imediatamente a seicho-no-ie. Cantei o mantra que tocava no rádio: “eu já não penso em mais nada, só consigo pensar em você...”, enrolei a fitinha mimosa vermelha no meu pau e mandei ver. Bati uma bronha bem devagarinho pensando na garota da parada e em todas as mulheres do mundo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

AINDA ORANGOTANGOS DUPLAMENTE PREMIADO NO FESTIVAL DE CINEMA DE LIMA



O longa Ainda Orangotangos venceu dois prêmios no Festival de Lima, no Peru. Dirigido por Gustavo Spolidoro, o filme recebeu o troféu Spóndylus, para filme de estréia, e Roberto Oliveira venceu na categoria de Melhor Ator. Ainda Orangotangos ganhou o Primer Premio del Jurado a da Mejor Ópera Prima, recebendo o troféu Spóndylus e o valor de US$ 5 mil. Oliveira recebeu o prêmio de Melhor Ator pelo trabalho feito em Ainda Orangotangos e em Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca. Ambos são produzidos pela Clube Silêncio em parceria com a produtora Drama Filmes.Faziam parte do júri, presidido pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, a atriz portuguesa Maria de Medeiros, o diretor argentino Marcelo Piñeyro, o jornalista francês e diretor do Festival de Friburgo Edouard Waintrop e o diretor chileno Silvio Caiozzi. Este é o 11º festival que o longa participa. Ainda Orangotangos já foi exibido no Festival de Roterdã (Holanda), Bacifi (Argentina), Toulouse (França) e Munique (Alemanha). Nos próximos meses, o longa será exibido em outros festivais importantes, como Sanfic, em Santiago no Chile; Milano Internacional, na Itália; Latinbeat, em Nova York; Films From the South, em Oslo, Noruega, e em Nouveau Cinema, em Montreal (Canadá).O filme, o primeiro todo rodado em um único plano-seqüência no Brasil, é uma adaptação de seis contos do livro homônimo de Paulo Scott. Gustavo Spolidoro e Gibran Dipp assinam o roteiro, que mostra 14 horas de um dia quente de verão, quando quinze personagens transitam pelas ruas e prédios de Porto Alegre. Ainda Orangotangos estréia dia 29 em Porto Alegre e no dia 5 de setembro nos cinemas de São Paulo e do Rio de Janeiro.