sábado, 16 de maio de 2009

TEATRÃO NO TEATRINHO

Fui até a Sala Carlos Carvalho, na sucateada Casa de Cultura Mário Quintana, assistir "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant". De cara fiquei feliz porque havia bastante público na fila do teatro e porque, ao entrar na sala, me deparei com o cenário limpo, clean, bem distribuído e bem acabado de Felipe Helfer. Depois, durante a peça vi que o cenário se adequa perfeitamente a peça, até determinando bastante a concepção da mesma, fato bastante comum no teatro. A peça, que foi anteriormente (há mais ou menos 20 anos) apresentada em Porto Alegre, se não me engano, no Teatro da Ospa, com uma performance arrasadora de Fernanda Montenegro interpretando a protagonista, Petra von Kant, que nesta montagem é vivida por Bettina Müller, é dirigida por Airton de Oliveira. Na minha opinião, a direção é limpa, óbvia e opta por uma linha caretíssima que lembra, guardada as devidas proporções, os espetáculos chamados de "teatrão". Penso que o Airton distribui bem as atrizes no espaço e as oferece sempre em angulos favoráveis aos espectadores, busca o tempo todo uma limpeza e um acabamento nas cenas, mas vejo também que se limita a marcações manjadas que nunca surpreendem, não inovam, nem subvertem qualquer regra dos mais básicos manuais de arte dramática. Fica aquele espetáculo correto, meio novela da oito, que nunca explode. Exige pouco ou apenas o básico de suas atrizes, todas elas com condições de render mais do que estão fazendo ao limitarem-se em atender o feijão com arroz realista solicitado pela direção. Incrivelmente, mesmo trabalhando numa sala tão pequena e tão próxima do público, tendo um cenário com espelhos que duplicam o publico, Airton opta pela quarta parede e, ao mesmo tempo que isola seu grupo de atrizes na "casa" de Petra Von Kant, isola também o espetáculo, que na minha opinião ganharia em teatralidade e comunicação emocional se buscasse o contato direto com o público. Mas isso é uma opção do diretor. Bettina Müller no papel da sofredora Petra Von Kant não chega a suar. Parece que tira de letra, esta segura, desenvolta e... normal. É notoriamente uma boa atriz, já testada anteriormente em outros papéis, que possuiria maturidade suficiente para render mais, para que se extraísse mais calor da sua interpretação. Me parece nitidamente "interpretando" e isso me distancia do sofrimento da rejeitada Petra. Me chama sempre atenção o trabalho da Janaina Pelizzon. Acho-a uma excelente atriz que está merecendo um trabalho a altura do seu talento. Entra na peça muda e sai calada e tira partido a cada intervenção. Aparece na medida certa, com segurança e presença em cena. Rosa Campos Velho aparece na última cena como a perplexa mãe Von Kant, e não mostra esforço nem prepocupação em extrair alguma mais profunda de seu personagem. Parece contentar-se com o pouco que dá. Marley Danckwardt, a aristocrata Sidonie, a amiga que apresenta Karin a Petra, tropeçou mais de uma vez no texto, parecia um tanto desconcentrada e com uma interpretação desafinada e vazia que só alcançou algum efeito na cena final, pouco antes de retirar-se da casa de Petra. Simone Telecchi, também usando figurinos de gosto duvidoso, se desdobra em poses pretensamente sensuais para viver a aspirante a modelo Karin. A gente fica sem saber o que levou Petra a se apaixonar tanto por ela. Não mostra o carisma necessário, fica entre uma boboca e ignorante mocinha do interior e uma aproveitadora de plantão. Concordei plenamente com a opinião da filha de Petra (interpretada apenas corretamente por Aline Jones) que diz que a moça é vulgar. Na montagem carioca de 1982, quem fazia Karin era a Renata Sorrah e depois a Cristiane Torloni. As duas ofereciam mil motivos não só para que Petra se apaixonasse, mas também para que a gente se apaixonasse por ela(s). De qualquer forma, parabéns para Airton de Oliveira e sua equipe pelo trabalho digno, honesto e correto.
M.F.

FELIZ ENTRADA EM CENA

Feliz de mim que fui agraciado com este belo espetáculo. Confesso que sempre vou ao teatro com o espírito de gostar do que vou ver. Em relação a "Crucial", me senti estimulado a gostar desde o convite que recebi. Uma linda proposta gráfica que em mim despertou a curiosidade de assistir a peça. Havia também a obrigação de amigo de ver a Vanise Carneiro. Pois gostei do trabalho dela em cena. Gostei muito. Vejo maturidade. Vejo entrega. Cresceu imensamente do trabalho anterior (MacBeth, da Patrícia Fagundes) para este. Crucial é algo ou alguma coisa ou alguém ou alguma situação muito importante, capital, mas é também sinônimo de difícil, árduo, decisivo. A mim parece que a Vanise foi desafiada neste trabalho. Desafiada pelo texto diferente e ousado de Paulo Scott. Desafiada pela direção de Gilson Vargas. E, porque não, pela atuação exímia e exemplar do Marcos Contreras que tá arrasando. Tem momentos de raro brilho. Aqueles momentos em que o teatro acontece. Então ela caiu num daqueles momentos decisivos = crucial. O Gilson, vai entrando com o pé direito na direção teatral, e de quebra traz do cinema alguns cortes e efeitos muito inventivos e uma estética que permeia a peça. O espetáculo tem uma limpeza de detalhes e uma clareza de proposta. O texto é bom, legítimo Paulo Scott, é interessante quase todo tempo. Mas não todo o tempo. Em alguns momentos ele me parece longo. O espetáculo acontece num estado crucial, num fio de navalha pavoroso, pois transita entre as fronteiras do cinema, da hq, da ficção científica, asimov, edgar allan poe, dos contos fantásticos, hoffmann, e até do teatro. Bacana. Me senti divertido e saí bem do teatro. Tão feliz quanto havia entrado. E aí parece que está o pecado do espetáculo. Ele se mantém frio, futurista, distante. A gente acompanha, mas não se envolve. Conversando com as pessoas com as quais eu estava ficou em todos uma sensação boa mas com a nítida falta de algo que ninguém soube explicar. Mas assim é o teatro.
M.F.

BEM SUCEDIDO PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


No sábado, fui ao suntuoso Salão de Atos da poderosa UFRGS, para assistir a estréia de IVONE, PRINCESA DA BORGONHA, espetáculo com direção de Irion Nolasco sobre um texto do polonês Witold Gombrowicz (não vou ficar falando dele aqui, quem quiser que coloque o nome dele ou da peça no google que aparece uma montanha de páginas sobre o assunto, como dizia Hilda Hilst: Informe-se.). A peça foi encenada em comemoração à passagem dos 50 anos do Departamento de Arte Dramática da Ufrgs, criado "... por alunos do curso de Letras da Faculdade de Filosofia...", como ensina didaticamente o programa da peça. Pois, na minha singela opinião, o espetáculo sai completamente vencedor diante dos olhos da Reitoria, que é quem tem a chave do cofre que pode vir a patrocinar outras possíveis (e no mínimo anuais) montagens do DAD. Aliás, esta seria uma ação de extrema importância, já que qualquer (no bom sentido) oficina de teatro que se pretenda boa (TEPA, TERREIRA, DEPÓSITO) realiza uma (ou mais) montagens com seus alunos, e a poderosa UFRGS não faz isso há anos.Desde "Conto de Inverno" híbrido espetáculo infantil/juvenil/adulto encenado em 1996, passando pela apenas tímida colaboração em "Assassino" feito em parceria com a atriz e bailarina Alexandra Dias, eu não assistia um espetáculo cuja direção fosse assinada pelo professor Irion Nolasco, que agora desemcumbe-se satisfatoriamente, criando alguns belos momentos e efeitos de direção, alguns com criatividade, outros com experiência, dando-se ao luxo de enxertar outros textos do autor entre as cenas do texto principal, às vezes, modernamente, na forma coreográfica, tão em voga atualmente. Trabalhando com um elenco de jovens iniciantes a direção se sai positivamente vencedora porque apresenta uma concepção clara e realiza um espetáculo de fácil compreenssão, onde a trama nunca se perde e também por conseguir uma força e um resultado (com o perdão da linguagem) espetacular do elenco, que, diga-se de passagem, atravesse vitoriosamente a difícil tarefa que lhe é incumbida, ou seja falar todo aquele texto, no mínimo, abundante, que é obrigado a dizer. Mostra-se um elenco coeso e bem equalizado. Exatamente como diz no texto do blog do jornalista Felipe Vieira: "... o talento, o entusiamo e a disposição de 24 alunos..." No entanto, se observarmos individualmente, é claro que uns se saem melhor do que outros. O quarteto que protagoniza o espetáculo está muito bem em cena. Márcia Donadei empresta tamanha seriedade e profundidade no seu silêncio e consegue transmitir uma grave dimensão humana a sua personagem que nos coloca como em "A Roupa Nova do Rei" clássico infantil de Hans Christian Andersen. Di Machado, está bastante seguro e à vontade no papel de Príncipe Protagonista. Aproveita bem as situações e dá credibilidade a decisão inédita de casar com a feia proposta pelo autor. Não fosse tão longo e repetitivo seu texto, o que o coloca numa situação de tornar-se repetitivo também, estaria brilhando em cena. Talvez é o que venha a acontecer, se o espetáculo chegar a amadurecer apresentando-se mais do que meia dúzia de vezes. Meu amigo e quase meu ator, Herlon Holtz aparece com desenvoltura, voz bem colocada, disposição e disponibilidade corporal, demonstra um certo carisma, mas não chega a energizar o ambiente. O remédio pra isso é apresentar mais vezes o espetáculo e expandir sua energia em direção ao público. Rafaela Cassol, que conheço das festas do Depósito, está muito bem, sua composição da personagem, como se diz em teatro, a "sua rainha" existe. Leônidas Rubenich é vencido pela vaidade capilar e seu cabelo aparece mais do que ele em todas as cenas. Uma pena porque seu cabelo é bonito e ele tem uma bela energia e presença em cena, mas durante o espetáculo travam um combate sem vencedores. Os demais confundem-se na coesão de elenco e todos se defendem e cumprem eficazmente seus papéis.O figurino é um acerto, um golaço. Irion apostou e acertou em cheio quando escolheu a experientíssima Rô Cortinhas. Um arraso no cinema e no teatro. O cenário, além de ser bom pra viajar, é assinado pelo diretor em parceria com meu longinquo amigo Zau Figueiredo, então tem várias propostas de utilização esboçadas mas que não chegam a se concretizar, ainda estão "sujas". A Banda é boa, divertida. A iluminação do querido Bathista Freire é didática e parece, submetida pelo diretor. Consegue efeitos básicos no tecido e é eficiente para iluminar os atores.A questão que me coloco é responder porque cansei do espetáculo ao final do primeiro ato e durante um bom pedaço do segundo ato, chegando ao final, louco que terminasse, para que eu não perdesse a sensação de ter visto um bom espetáculo, e não ficasse com a impressão de ter assistido uma peça cansativa. E vejo que o que me chateou na peça foi um excesso de didatismo, um preciosismo acadêmico que impediu cortes profundos no texto. A decisão de fazer na íntegra deixa o espetáculo prolixo e, às vezes redundante, e obriga o público a ouvir várias vezes a mesma discussão. A mim, parece que o texto repassa e repisa os mesmos assuntos. Então, confesso que cheguei cansado ao final do segundo ato. Eu e os atores. E o também o público a minha volta, que olhava o relógio, preocupado com o ônibus, e se inquietava perceptivelmente nas cadeiras. E, pelo menos no meu caso, não é por uma questão de tempo ou de ônibus, pois adoro ficar assistindo. Mas, entendi que a idéia já estava compreendida, que todo elenco ja havia defendido bravamente suas posições, que o espetáculo ja havia mostrado a que vinha e, então, não pude deixar de pensar que deveria haver uns bons cortes naquele texto em benefício da comunicação do espetáculo com o público, mas logo percebi que este era um pensamento babaca, pois cada obra tem o seu tamanho, sua textura, seu tempo, suas cores para o bem e para o mal. Terá o diretor e o elenco e a equipe e o próprio espetáculo, como organismo vivo que é, se haverem com uma gorda "barriga" que aparece na peça lá pelas tantas. Mesmo assim eu faria cortes no texto em benefício do espetáculo, e para justificar cito o eterno contemporâneo Tadeusz Kantor: "O teatro não é um aparato de reproduzir literatura, o teatro possui sua própria realidade autônoma." Senti como se a peça, o público e os atores estivessem pedindo um pouco menos de texto.Contudo, o espetáculo tem a vitude de fazer com que o espectador não perceba que três longas horas se passam. Isto é ótimo, mesmo depois dos franceses terem nos obrigado a passar mais de seis horas naqueles bancos horríveis. Parabéns a todos. E, como não poderia faltar, um recado a UFRGS: o Reitor e seus assessores financeiros têm que entender que o teatro é um ser vivo, que deve ser apresentado um número máximo de vezes, exibido diante do público e confrontado pela platéia o mais de vezes possíveis, para que ele desabroche o demonstre diante dos nossos olhos a transformação de largarta em poderosa obra de arte. A Reitoria tem que compreender que deve bancar, no mínimo anualmente, a produção de um espetáculo, pois isso é fundamental para a formação dos atores e diretores que saem formados por esta instituição.Todo mundo deve assistir.
M.F. Porto Alegre, 24 de abril de 2008

CLOWNSSICOS, A MONTAGEM II



CLOWNSSICOS está de volta. Recauchutada (no bom sentido), a peça criada e dirigida por Daniela Carmona, que estreou em 2004, como espetáculo de final de curso do TEPA, retorna à cartaz em montagem profissional da Cia do Giro, com financiamento do Fumproarte. O enredo, clowns interpretam clássicos da dramaturgia universal, é raso, batido. Recurso muito usado no teatro e que aparece em diversas peças, como por exemplo, A Comédia dos Amantes, roteiro de Luís Arthur Nunes, dirigido por Oscar Simch. Daniela Carmona assina novamente o roteiro, adaptação e direção da encenação, além de atuar como uma espécie de protagonista, ou, conforme o seu clow, a que mais aparece. As adaptações das histórias clássicas buscam sempre o riso fácil, mas nem sempre são engraçadas, e utilizam em demasia a figura do narrador, o que prejudica o andamento da peça. Talvez os clowns de Daniela devem-se permanecer com "os temas "menores" que envolvem o riso" e daí fossem bem mais engraçados. O elenco tem três nomes fortes: a própria Daniela, Adriano Basegio e Arlete Cunha. Os outros são João Pedro Madureira, Léo Maciel e Larissa Sanguiné. O primeiro tem que se aplicar mais, muito mais. Os dois últimos, Léo e Larissa, eram formandos na montagem de 2004, e agora se esbaldam divertindo-se pra valer e arrancando bons momentos e risadas da platéia. São os melhores apesar de valerem-se durante todo o espetáculo das mesmas gags e dos mesmos truques. Léo tem uma impagável "cara de criança cagada". Minha honorável amiga Arlete Cunha está deslocada. Não rende e seu clown é o mais apagado da peça. Em geral achei a peça excessivamente gritada. Ou talvez, eu estivesse muito perto do palco. Logo me cansei do roteiro repetitivo e da marcação pobre da peça. Antônio Rabadan se sai melhor com os figurinos do que com o cenário que é apenas uma prática, bonita e alegre ambientação para o espetáculo. A cena de tecido é desnecessária. Assim como achei extremamente desnecessário e gratuito aquele final surpreendente. Confesso que não entendi. Pra quê? Desafiar as estruturas? Romper com a quarta parede? Chocar o público?Enfim, é um espetáculo honesto, onde aparecem: uma entrega dos atores durante todo espetáculo; uma tentativa de realizar uma comédia acima da média portoalegrense; e sem dúvida, uma vontade intensa de fazer teatro. Parabéns a todos.
M.F.

MAIÊUTICA NO ARENA

Maiêutica[Do gr. maieutiké (téchne).]Substantivo feminino 1.Processo dialético e pedagógico socrático, em que se multiplicam as perguntas a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto em questão. [Cf. ironia socrática.] 2.Obst. V. obstetrícia. (Dicionário Aurélio)

Guadalupe Casal e Maíra Prates, duas jovens atrizes, sob orientação de Maico Silveira, estão em carta em cartaz no Teatro de Arena com MAIÊUTICA. Uma peça curta que pretende explorar "as divergências da relação mãe e filha num passeio poético guiado pela infância", conforme pode ser lido no delicado programa do espetáculo.As duas atrizes são também as responsáveis pela dramaturgia, que, na minha opinião é o ponto fraco da peça, já que os textos selecionados e/ou a junção deles, não oferece um crescimento, um desenvolvimento progressivo nas idéias que o espetáculo pretende dialogar com o espectador. Não oferece também maiores dificuldades para a interpretação das atrizes. Passeios pelo universo feminino são tão abundantes no teatro quanto as chamadas peças de casal. Ou se encontra, dramaturgicamente, uma idéia com um quê de originalidade ou com textos que aprofundem esta discussão ou se cai na mesmice das coisas já faladas.A encenação, como tantas outras, conta com poucos recursos, e opta por trabalhar apenas com alguns elementos de cena. O figurino assinado por Guadalupe Casal é apenas funcional. A iluminação, criada por Carol Zimmer, não acrescenta nada, não acentua climas, não vai além de iluminar a cena. Como o diretor não se assume como tal, e chama-se apenas de orientador cênico, não se pode comentar a direção. "Orientação" me parece um eufemismo para não assumir o compromisso com a real direção de uma peça, e também para dividir a responsabilidade com os atores. No caso, as atrizes.As duas interprétes se mostraram excessivamente tímidas. Talvez por tratar-se da estréia. Com certeza, com a repetição das apresentações, elas irão fortalecendo suas interpretações. Gaudalupe Casal se mostra mais expressiva e apresenta mais nuances quando das acontecem mudanças de idade e de situação. Maíra Prates aparece melhor como criança do que como adulta ou uma mulher solitária mãe de uma adolescente. Transita com demasiada semelhança pelas direfentes fases solicitadas pelo texto.O resultado é uma peça que não empolga, que carece de criatividade, de aprofundamento interpretativo, de direção e de uma dramaturgia mais sólida e, com a simplicidade de um risco de giz traçar um espetáculo com uma teatralidade mais exuberante.
M.F.

BABEL GENET

Pois eu estava na concorridíssima estréia de BABEL GENET no Teatro Renascença. A peça, dirigida por Humberto Vieira, é sua reentrée na cena portoalegrense depois de longa e voluntária ausência desde o seu longinqüo Viagem ao Centro da Terra e sua encenação de Memory Motel. O primeiro vi no Teatro de Câmara com Renato Campão e o segundo no Renascença, com a Adriane Mottola e Zé Adão Barbosa. O primeiro continha textos do Marquês de Sade, e o segundo Charles Bukowski. Coerente com esta trajetória, Humberto coloca em cena agora sua visão de Jean Genet.
Num espetáculo confuso e irregular, o que mais me agradou foi o coro. Os medalhões do elenco estavam cheios de displicência e pareciam não ter se dedicado com profundidade nos ensaios. Senti-me, às vezes, constrangido ao ver a atuação de João Pedro Gil. Ficava imaginando seus alunos do DAD/UFRGS vendo o professor se utilizado de truques primáriosno desempenho de seu papel. Mirna Spritzer, excelente atriz, uma das melhores a cidade, não é um travesti nem na China e muito menos no palco do Renascença. Adriane Mottola, tarimbada, que fazia parte do elenco de Memory Motel, não convence. Jezebel de Carli completamente desconfortável. Humberto perdeu as rédeas. Era mesmo uma babel, mas tinha muito pouco de Genet e quase nada da marginalidade,liminalidade e exclusão divulgadas no release do espetáculo.
M.F.


MAIS UM SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO



Quando as cortinas do Teatro Renascença se abrem e surgem os primeiros sons, e inicia-se a cena de abertura desta nova montagem de O SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO, dirigida a quatro mãos por Daniela Carmona e Adriano Basegio, tem-se a maravilhosa impressão de que participaremos de um espetáculo inesquecível. A abertura é simplesmente primorosa em todos os seus elementos cênicos e prenuncia a magia e encantamento que se irradiarão do grande carvalho da floresta em direção a platéia. Muito acertadamente a dupla de diretores aposta na fábula como centro da concepção do espetáculo e como diz o jornalista Renato Mendonça, é "impossível você não se sentir imerso em um ambiente de sonho, perdido (ou achado) em uma floresta".
O crítico literário Harold Bloom diz que Shakespeare escreveu esta obra "provavelmente, sob encomenda, para homenagear um casamento entre nobres" e segue afirmando que trata-se, sem dúvida, de sua primeira obra-prima, perfeita, uma de suas peças que apresentam força e originalidade admiráveis". Do alto da minha ignorância, me permito discordar do professor Bloom. Se pensarmos em termos de análise literária são inegáveis e perceptíveis os méritos estilísticos do texto e indiscutível a genialidade do autor inglês. Mas, colocando-me apenas como um mero espectador que recebe uma encenação do texto em pleno século XXI, fica difícil não ver no texto a ingenuidade de uma novela das sete e uma excessiva falação literária associada a uma repetição de idéias manjadas.
Peço antecipadas desculpas por traçar, às vezes, comparações entre esta montagem e aquela realizada pela diretora Patrícia Fagundes, mas devido a proximidade temporal de uma com a outra isto trona-se inevitável, e acredito que não há espectador que tenha visto as duas peças, que não faça semelhante analogia entre os dois espetáculos. Tudo isso para dizer que Antonio Rabadan, bem ao contrário dos elementos do outro "Sonho...", desta vez acerta em cheio na concepção visual do espetáculo. Cenário e figurino contribuem tremendamente para fundamentar a concepção dos diretores. As peças do figurino são, separadamente pequenas obras de arte, e no conjunto compõem a atmosfera perfeita para o enlevo da platéia. O cenário que em Clowssicos era apenas prático, aqui transforma-se nos diversos ambientes sem perder a magia e sem deixar de exercer sua força. Todos estes elogios também devem ser estendidos para a acertadíssima trilha sonora que tem nada mais, nada menos que o nome excelente músico Fábio Mentz. O tarimbado iluminador Fernando Ochôa, na minha opinião, poderia ter concebido uma luz ainda mais apurada para o espetáculo, não se limitando a fazer uma luz apenas bonita e eficiente. Não que eu ache que a luz tenha que aparecer, mas diante soa outros elementos do espetáculo, me parece que a iluminação não brilha como poderia. Mas sei que a luz depende de equipamentos, por isso sou sempre cuidadoso ao falar deste assunto.
A dupla de diretores, como ja disse, acerta na concepção onírica, silvestre e um tanto lasciva, mas descuida da direção dos atores quando permite que as interpretações sejam bastante irregulares. O ritmo do espetáculo vai caindo ao decorrer do tempo junto com o interesse do público, tanto por causa do longo texto, quanto pela ausência de novos estímulos cênicos e cômicos e pela carência de variações nos ritmos da peça. Ao contrário do "Sonho..." da Patrícia, que investia muito mais na comicidade, aqui a parte cômica fica relegada somente a algumas personagens ou núcleos de personagens, e isto resulta em mais lirismo e romantismo e em menos comédia.
No elenco vale destacar positivamente a presença viva e simpática de Adriano Basegio como Puck; da minha queridíssima super atriz Arlete Cunha, em plena forma, que, como diz Renato Mendonça, "resplandece" no papel de Novelo e a jovem Fernanda Nascimento, que empresta carisma e chama atenção para sua fada. O excelente ator Álvaro Rosacosta se apresenta acomodado, exercendo o que eu chamo de interpretação apenas correta e protocolar. Saudade daquele Álvaro do Beijo no Asfalto.
Assim, apesar de um pouco cansativo na sua última meia hora, este "Sonho numa Noite de Verão" tem méritos suficientes para encantar os espectadores e a Cia. do Giro merece mais uma vez os sinceros aplausos por mais esta criação.
M.F.

PENÉLOPE BLOOM PARA POUCOS

Muito difícil, dificílimo, comentar peça de ex-mulher. Se digo que não gostei disso ou daquilo, será por causa de mágoas do passado ou do presente. Se falo bem, é pra disfarçar os mesmos ressentimentos. Mas, no meu rápido cursinho de crítica teatral, Dona Bárbara ensinou que o crítico deve presar, acima de tudo a isenção. Então, o fato é que achei o espetáculo bonito e bem acabado, mas não gostei da peça. Depois de meia hora sem acontecer nada, foi um martírio esperar os 45 minutos restantes para o final do espetáculo, não só por se tratar de um espetáculo "difícil", mas principalmente por causa de sua verborragia e ausência de alterações de ritmo. A longa queixa e divagação da Sra. Bloom começam e terminam praticamente inalteradas. Além disso, pude presenciar um choque entre dois tipos de teatro diferentes: a brasileira, Maria Falkembach, mostrando um teatro moderno, físico, com partituras vocais e corporais, dando seguimento a sua pesquisa na interface da dança e do teatro, enquanto que a atriz costa-riquenha, Vicky Monteiro, em que pese seu esforço aparente para fisicalisar algumas ações, permanece o que chamamos de "atriz de texto", o que provavelmente está mais vinculado a sua larga vivência teatral naquele país. Enquanto esta última mantém durante todo o tempo uma sólida quarta parede, a primeira rompe esta convenção por diversas vezes. O embate destas duas correntes teatrais, que poderia ser benéfico, na realidade da cena não favorece o espetáculo. Vicky demonstra claramente suas qualidades vocais e expressivas e Maria Falkembach, que ja tive oportunidade de dirigir em diversas ocasiões, mostra maturidade em cena. Pena que seja colocada na condição de coadjuvante, de uma espécie de espelho da verdadeira Molly Bloom, que seria vivida por Vicky Monteiro.
A peça se baseia na última parte do livro "ULISSES" de James Joyce, que é quando o Sr. Bloom deita e dorme e sua esposa, Molly, desperta e recapitula o dia e parte de sua vida, num fluxo psíquico entre lúcida e ilúcida. Não li o livro de Joyce, mas sei que ele tem fama de literatura "difícil" que beira o incompreensível e dedicado ao entendimento apenas para eruditos. Sendo que segundo alguns críticos, a tradução da edição brasileira, realizada por Antonio Houaisss, complica ainda mais o entendimento. Tudo isso empresta ao livro um pouco da síndrome de "roupa nova do rei", a qual se faz presente por extensão, também na peça em questão.
A iluminação, de Mirco Zanini, talvez por opção, talvez devido aos poucos recursos da sala, é apenas protocolar. O cenário de Rudinei Morales, é discreto, bem acabado e se coaduna com as necessidades do espetáculo. Poderia ter mais "viagem", um pouco mais de arte e refinamento. A trilha sonora de Leandro Maia é precisa, discreta e presente salientando momentos e propondo climas. O figurino feito à seis mãos, por Liane Venturella, Sandra Possani e Chico Macalão, em que pese a breguice do penhoir ser igual a colcha, é de muito bom gosto e acrescenta beleza e plasticidade ao movimento das atrizes que tiram e colocam roupas o tempo inteiro.
A direção de Gerardo Bejarano é limpíssima e, ao meu ver, comete os seguintes pecados: não se define quanto ao estilo de interpretação, permite que o ritmo do espetáculo se mantenha o mesmo durante praticamente toda a peça; e, finalmente, privilegia a verborragia em detrimento da proposta físico-corporal. Cria um espetáculo sem muitas nuanças e não ilumina a difícil obra em que se baseia, mantendo-a elitizada e acessível somente para poucos entendidos.
M.F.

ANTÍGONA BR

Sei que parece sacanagem ir ver peça de colega no segundo dia, mas não deu para ir no primeiro e ganhei um convite para a segunda apresentação de ANTÍGONA BR que aconteceu no magnífico Theatro São Pedro. A peça tem direção de Jessé Oliveira, de quem eu posso dizer que acompanho o trabalho pois tenho visto muitas de suas produções, inclusive sua montagem anterior à frente deste mesmo Grupo Caixa Preta, HAMLET SINCRÉTICO. Aliás, mantendo uma tendência atual, perceptível em várias peças, esta ANTÍGONA BR segue na linha encontrada em Hamlet Sincrético. Assim como Enrique Diaz persegue em "A Gaivota" a mesma fonte do seu "Ensaio.Hamlet". E Patrícia Fagundes segue as descobertas do "Sonho..." na sua "Megera...".
ANTÍGONA BR, numa tentativa de aprofundar as idéias e temas já apresentados no espetáculo anterior, oferece ao público uma confusa salada onde os ingredientes são algumas tragédias gregas, muitos elementos da cultura afro-brasileira (capoeira, griot, culto aos orixás, signos, ritos e mitos africanos), catolicismo popular e um pouco de linguagem pop, tudo isso temperado com cantos e músicas afro-brasileiras sob direção Luiz André da Silva.
Colocando de lado os problemas de ritmo desandado, má articulação entre as cenas e a excessiva e prolongada duração do espetáculo, problemas estes que são totalmente contornáveis na sequência das apresentações, a nova peça do Caixa Preta encontra-se assentada na dramaturgia pra lá de confusa assinada por Viviane Juguero, na minha opinião um dos maiores problemas do espetáculo.
Os figurinos de Raquel Capeletto são excelentes, dão colorido, brilho e auxiliam na composição e na identificação dos personagens. A iluminação também aparece de maneira eficiente. As coreografias de Joca Vergo, além de eficientes, dão brilho ao espetáculo, mas padecem também do mal da confusão ou falta de clareza.
A direção de Jessé Oliveira apresenta lances surpreendentes, de altíssima criatividade, entremeados com momentos completamente perdidos e vazios onde se percebe que o diretor ou não teve tempo para pensar melhor a respeito, ou realmente não conseguiu definir a contento. Uma direção de altos e baixos, problematizada por uma dramaturgia sem clareza que pretendeu abarcar muitas histórias de uma só vez, mas também pelas escolhas feitas pelo diretor, como é o caso do inexplicável uso de duas atrizes para representar Antígona. O elenco é um caso à parte. Acompanho o trabalho de alguns atores desde TRANSEGUN e, por incrível que possa parecer, em alguns não identifico crescimento. Continuam os mesmos amadores de sempre. Gestos mal acabados, gritaria exagerada, dicção ruim, corpo sem presença. Ou se exigem pouco e se vêem como amadores, ou estão sendo pouco puxados pela direção. Desta montagem cabe destacar apenas o trabalho de Lucila Clemente que fez uma belíssima composição para o seu personagem no coro dos velhos. Quanto aos outros, se ninguém brilha, ninguém compromete. O que, cá entre nós, é muito pouco.
Pra concluir, acho que o trabalho de Jessé não terminou. Ainda tem muita coisa pela frente se quiser pelo menos aproximar-se da realização anterior.
M.F.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

OS PERSAS - A TRAGÉDIA MODERNA

Uma proposta de atualização da tragédia formalmente bem sucedida. Momentos de puro teatro e pura ação vocal. A mais antiga das tragédias por nós conhecida na íntegra na versão do moderno teatro alemão. Ousado, "limpo", provocativo. E a precisão?
M.F.

A COMÉDIA DOS ERROS - MUITOS ACERTOS, POUCO RISO


Sei que minha grande amiga e colega Adriane Mottola há muito tempo acalenta a idéia de encenar A COMÉDIA DOS ERROS. Desde os tempos do Decameron, quando a conversa girava em torno de que peça poderíamos montar, essa possibilidade já era citada. E agora, finalmente, seu sonho está em cena. E somente isto já seria um fato prodigioso. Está em cartaz a ousada encenação que a diretora Adriane Mottola, corajosamente bota na roda como sua proposta para elucidar a seguinte questão: como se daria a adaptação, a aproximação, da forma elisabetana, que passados quinhentos anos já podemos chamar de clássica, ao gosto do público moderno. Como encenar Skakespeare sem ser chato? Impossível não comparar quando somos (beneficamente) assolados por montagens dos clássicos shakespearianos. Ficando apenas no âmbito da comédia, pode-se dizer que: enquanto Daniela Carmona e Adriano Baseggio escolheram apostar na fantasia onírica e campestre e na magia incandescente das fadas e Patrícia Fagundes da preferência ao caminho da comunicação agíl e movimentada dos cabarés e casas noturnas, Adriane vai fundo na proposta de modernização, aproveita seu trabalho e estudos de teatro contemporâneo para contemporaneizar Shakespeare.
Montagem super bem realizada com figurinos, como sempre, impecáveis de Coca Serpa. Cenários sugestivos e bem construídos. A iluminação franciscana mas eficiente.
A direção de Adriane Mottola é segura e resulta num espetáculo limpo, bem articulado, mas que ao ver peca pela escolha da tradução de Barbara Heliodora. Pode ser uma boa jogada de marketing, mas o texto versificado choca-se com a proposta ultra moderna da marcação coreografada.
Assisti a terceira apresentação da peça. A primeira realizada numa segunda-feira. Os erros não estavam apenas no título. Aconteceram vários tropeços durante a apresentação. O espetáculo estava frio. Intimidado. Sem ritmo. coisas que não significam absolutamente nada, simplesmente porque é assim que funciona. Na terceira apresentação uma peça está engatinhando a procura de um sentido, de um ritmo e de uma conformação particular que só vai atingir lá pela viségima apresentação. Fora isso, senti falta da comédia. Do riso provocado pelas situações cômicas. A platéia sorria. O elenco esforçava-se visivelmente na tentativa de parecer engraçados. Mas a explosão sonora das risadas não acontecia. Talvez por causa do próprio esforço. Destaque para a atriz Janaina Pelizzon que aparece num papel pequeno mas muito bem aproveitado. Ao vê-la em cena, lembrei do filme "Quero Ser John Malkovitch", e pensei: quero ser Janaina Pelizzon. Sem esforço, com um "time" perfeito.
Resumindo, trata-se de uma produção de alto nível, espetáculo de puro teatro, bem realizado e saboroso, mas esbarra na falta de comédia, talvez por ficar tri-partido entre o contemporianismo das marcas coreografadas, o texto mantido em versos e o esforço exagerado de alguns atores para tornarem-se engraçados.
M.F.
Foto: Marcos Nagelsten zh
Aparecem na foto: Janaina Pelizzon e Sofia Salvatori

quinta-feira, 14 de maio de 2009

ÉDIPO - UMA AULA DE TRAGÉDIA


Fui ao Theatro São Pedro ver a nova peça do Luciano Alabarse, a tragédia Édipo. Peça do Luciano é para mim ida obrigatória ao teatro. Primeiro, porque, pra quem não sabe acompanho a trajetória do Luciano desde quando ele era aluno do DAD/UFRGS. Pra falar a verdade, eu era bolsista da Universidade e trabalhava como uma espécie estagiário em uma peça dirigida pelo Luciano. Acho que era seu trabalho de formatura. Vi praticamente todas as peças que ele dirigiu e pelo menos uma, em que ele atuou. Em segundo lugar, em todas as oportunidades, percebi seriedade artística e profundidade de propostas. Um teatro absolutamente consequente. E sempre com muito público.
Pra começar a dramaturgia é de primeira. Tanto a de Sófocles, como a do Luciano, que teve a sacação e o tino de reunir com inteligência as peças Édipo Rei e Édipo em Colono. Desceu redondo. Principalmente na parte final, onde, embalado pela representação dos atores, Luciano Alabarse cria um cena de grande apelo (no melhor sentido dramático) emocional para a platéia.
Escrevi para o Luciano logo após ter assistido o espetáculo que eu achava que ele estava ficando careta. E é o que acho. Eu gostava imensamente mais e era tocado imensamente mais quando assisti, por exemplo, Pode Ser que Seja Só o Leiteiro Lá Fora, ou a adatação que ele fez para um romance de João Gilberto Noll, chamado Hotel Atlântico. Vou ficar somente nestas duas. Aquele era o Luciano que eu gostava. Cada peça era melhor do que a anterior. E agora?
Decidiu mergulhar nos clássicos. Fez Antígona com assessoria da mega doutoura Kathrin Holzermayr Rosenfield. Foi a pimeira aula de tragédia. Depois, fez Hamlet. A mais careta de todas. Voltou pros gregos em Medéia com a sensacional Sandra Dani no papel principal. Daí até eu, né? E aí chega a vez de Édipo. Insisto em escrever aula de tragédia porque é assim que chegam em mim as três peças gregas: todas têm uma clima de aula de tragédia para o público frequentador do teatro São Pedro. Algo como samba pr inglês ver.
Esta peça é inegavelmente a melhor de todas. Ainda paira um tom de caretice, mas mesmo sem nunca ter participado do chamado teatro de grupo, Luciano está investindo também na manutenção de vários nomes do seu elenco. Os atores, e ele mesmo, vão se apropriando daquela linguagem trágica e suas interpretações vão se tornando mais vigorosas. Concordo plenamente com Renato Mendonça quando ele escreve em seu comentário que "brilham Marcelo Adams, como um Édipo bem-intencionado, egocêntrico e épico, Marcos Contreras, construindo um Creonte sempre a ponto de explodir, e Lutti Pereira, interpretando o vidente Tirésias em impressionante clima de transe místico". Faço minhas, as palavras do nobre colega crítico.
Quanto a polêmica sobre o efeito da trilha com Roling Stones, fico achando que tanto faz colocar Stones, quanto Pink Floyd, quanto The Who, quanto Beatles, quanto qualquer outra preferência musicaldo Luciano não faria diferença alguma. A música parece dissociada da peça. Uma coisa é a peça, outra coisa é a música. Elas não se contrapõem nem se acrescentam. Creio eu. É uma bricdeira do diretor, uma inofensiva licença poética. Um coup de théâtre pra inglês ver.
Modesto Fortuna.

CONSIDERAÇÕES EM DIA DE GRIPE


Pois enfrentei o frio e a gripe e me fui para o teatro, que é uma das únicas coisas que consegue me tirar de casa. Como é bom ir ao teatro. Me fui para o SESC no sábado assistir a mais recente criação do Grupo Meme, concebido, dirigido e coreografado por Paulo Guimarães. Lamento não ter visto "BU", seu trabalho anterior, assim poderia conhecer um pouco mais sobre o trabalho do meu amigo Laco. Terezinhas é um belo é agradável espetáculo. Bem coreografado e limpo. Nem todos os bailarinos têm o mesmo preparo técnico, assim as interpretações destoam um pouco entre si. Na minha opinião o problema da peça reside na dramaturgia que é bastante fraca.
Isto posto, quero mesmo fazer dois comentários.
Um: eu estava gripado, tossi três ou quatro vezes. Talvez, cinco. Me senti um chato completo. Mas minha culpa foi atenuada por que estava na platéia o famoso "fotógrafo chato", aquele que por inexperiência ou excesso de zelo, quer fotografar a peça inteira como se estivesse filmando o espetáculo. Pois tinha um assim na platéia nesta noite. O espetáculo completamente intimista e estalo constante da máquina. E ele sentado, muito bem posicionado, no centro da platéia. De última.
Dois: de última é o palco do SESC que não permite cenas no chão. Da terceira fila pra trás ninguém enxerga nada. Se numa peça de teatro isso é um problema sério, porque se os atores estão em pé não se enxerga as pernas. Quando se abaixam transformam-se, no máximo, em uma cabeça. Se deitam, somem. Agora imagine num espetáculo de dança que trabalhar o tempo inteiro com estas variações. Impossível. O palco prejudica o espetáculo. Isso é o que dá construir auditórios ao invés de teatros. Os arquitetos e engenheiros tem que saber que tudo o se faz num auditório é possível de ser feito num teatro, mas o contrário nem sempre é possível.
M.F.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A CRÍTICA DA CRÍTICA



Depois de escutar com o devido respeito e atenção as palavras proferidas na palestra apresentada na noite de terça (8/4) no Teatro do SESC, pela Sra. Bárbara Heliodora, que como apregoa a divulgação trata-se de “uma das críticas teatrais mais temidas e respeitadas do Brasil”, fiquei ruminando algumas coisas: é absolutamente inegável o profundo conhecimento técnico, teórico e prático que ela possui sobre o teatro. Sua vasta cultura, erudição, preparo e brilhantismo ficaram patentes na leitura do texto que ela criou, creio eu, especialmente para o encontro promovido pelo ARTESESC. Defendeu a função da crítica, com um texto elegante, claro, no qual demonstrava suas crenças através de um pensamento fluente, inteligentemente encadeado, sem deixar de ser um tanto esquemático. É indiscutível a vivência teatral de quem assiste, anualmente, perto de 100 espetáculos, como ela mesma afirmou. É simplesmente incontestável a importância do nome Bárbara Heliodora tanto para o exercício da crítica em particular, quanto para o teatro brasileiro em geral. Dona Bárbara é uma apaixonada confessa pela arte teatral. Diz amar o teatro e torna visível este amor com a maneira inflamada e parcial com que manifesta sua visão sobre o que considera bom ou ruim na arte dramática. Na verdade, se detecta que ela ama mesmo o bom teatro, tanto quanto detesta aquele teatro que na sua visão pessoal é ruim. Sua veemência atinge as raias do dogmatismo e da pretensão de ser a dona de uma verdade única, embora negue isso com a mesma ênfase. Para quem lê, mesmo que esporadicamente as suas críticas nas páginas do Jornal O Globo, como é o meu caso, é possível perceber, nas linhas e nas entrelinhas, que por vezes, ela manda às favas a sua apregoada isenção e objetividade, e se deixa levar por momentos de extrema vaidade pessoal, arrogância, crueldade, deboche e até mesmo uma transbordante e destrutiva maldade. Ela diz que todos somos críticos informais quando assistimos qualquer obra de arte, e pensamos se gostamos ou não gostamos, ou quando expressamos nossa opinião numa mesa de bar, o que não deixa de ser uma verdade. Mas querer comparar uma discussão entre amigos num bar com o preto sobre o branco das páginas de um jornal de circulação nacional é, no mínimo, querer minimizar o seu poder diante da platéia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA COM O DIRETOR ROBERTO OLIVEIRA

Meu amigo, Roberto Oliveira, ator, diretor e chorão de plantão concedeu uma entrevista para o Blog Caco, editado por Renato Mendonça, editor de teatro do caderno de variedades da Zero Hora. Abaixo a entrevista na íntegra. Boa leitura a todos. Os comentários são válidos e esperados. A foto é da belíssima fotógrafa de ZH, Dulce Helfer. (Ass.: Modesto Fortuna)
RENATO MENDONÇA: Aqui vão as perguntas, e me corrige se eu errei alguma coisa.
Abraço e obrigado
O Depósito de Teatro andou meio sumido, mas está voltando com força total: no dia 29 de março, vai liderar novamente a Farra do Teatro; além disso, a partir de abril, o Depósito promove a Oficina de Montagem – Nível Avançado, para atores já com experiência (detalhes para as duas atividades em www.depositodeteatro.com.br).
No dia 11 de abril, estréia no Renascença mais uma montagem do grupo, o espetáculo infantil O que seria do Vermelho se não fosse o Azul, com texto e direção de Roberto Oliveira.
CACO - É com Roberto, líder do Depósito, que o Caco conversou, não sem antes cumprimentá-lo com atraso pelo prêmio de melhor ator que ele recebeu pelos filmes "Ainda Orangotangos" e "Cão Sem Dono", durante o 12º Festival de Lima – Encuentro Latino de Cine (luxo: entre os jurados, Mario Vargas Llosa e Maria de Medeiros), em agosto do ano passado.
ROBERTO – UMA TOTAL E FELIZ SURPRESA. EU ESTAVA EM BELO HORIZONTE PARTICIPANDO DAS FILMAGENS DE UM LONGA: GAIO FILHO, DIRIGIDO POR TIAGO MATA MACHADO. DEI SORTE PORQUE DOIS FILMES EM QUE EU ATUEI ESTAVAM DISPUTANDO NO MESMO FESTIVAL: CÃO SEM DONO E AO. PESSOAS LIGADAS AO AINDA ORANGOTANGOS ESTAVAM LÁ E TROUXERAM MEU TROFÉU.

CACO – Em 2008 e parte de 2007, o Depósito perdeu sua sede e enfrentou graves problemas financeiros. Por quê? O que aconteceu?
ROBERTO - QUANDO NOS MUDAMOS DA BENJAMIN PARA A CÂNCIO GOMES, SABÍAMOS O RISCO QUE ESTÁVAMOS CORRENDO. NOS PREPARAMOS PARA SUPORTAR SEIS MESES DE TOTAL ARROCHO E APRESENTAMOS AO PREFEITO JOSÉ FOGAÇA O PROEJTO ENTORNO SOLIDÁRIO, UM PROJETO DE CUNHO ABSURDAMENTE SOCIAL. VOCE PODE VER NO LINK ABAIXO COMO O PROJETO FOI RECEBIDO.
http://www2.portoalegre.rs.gov.br/cs/default.php?reg=64414&p_secao=3&di=2006-06-30

DEPOIS DE UMA LONGA INDEFINIÇÃO DO NOSSO PREFEITO JOSÉ FOGAÇA EM DESTINAR RECURSOS DO PIEC (PROGRAMA INTEGRADO ENTRADA DA CIDADE) PARA O PROJETO ENTORNO SOLIDÁRIO, PROJETO ESTE QUE PRETENDIA REVITALIZAR O ENTORNO E ATACAR DE FRENTE PROBLEMAS EXISTENTES NAQUELA REGIÃO, QUE VÃO DESDE ANALFABETISMO ATÉ PROSTITUIÇÃO INFANTIL. INFELIZMENTE, A PREFEITURA ATUA COM UMA MOROSIDADE DE TARTARUGA NA ÁREA CULTURAL. O PIEC RECEBE DINHEIRO DO BID E DEVE DESTINAR RECURSOS PARA PROJETOS NA ÁREA DA INCLUSÃO CULTURAL, QUE ERA EXATAMENTE O QUE PRETENDÍAMOS FAZER. INOPERÂNCIA? ENGANAÇÃO? ESTAGNAÇÃO? O PREFEITO FOGAÇA ARRUMOU UMA PEDAÇO DE UMA COISA DANDO UM TERRENO PARA UMA DISTANTE FUTURA SEDE DO ÓI NÓIS, E ESTRAGOU COMPLETAMENTE OUTRA SEMENTE QUE PODIA FLORESCER LÁ NO QUARTO DISTRITO.
IMPUTAMOS TAMBÉM RESPONSABILIDADE DIRETA PELO FECHAMENTO DA SEDE A FUNARTE, NA PESSOA DE SEU OMISSO E AUTORITÁRIO EX-PRESIDENTE SR. CELSO FRATESCHI. IRONICAMENTE A ENTIDADE QUE TEM POR OBRIGAÇÃO FOMENTAR A FORMAÇÃO E MANUTENÇÃO DE GRUPOS DE TEATRO, DECRETOU O ENCERRAMENTO DO DEPÓSITO DE TEATRO AO TOMAR INJUSTAS, ARBITRÁRIAS E DESCABIDAS MEDIDAS PUNITIVAS QUE ESTÃO SENDO CONTESTADAS NA JUSTIÇA.
DEPOIS DE DEZ ANOS DE TOTAL RESISTÊNCIA FOMOS FORÇADOS A FECHAR NOSSAS PORTAS, POIS DEIXÁRAMOS APENAS DE NÃO RECEBER PELO QUE FAZÍAMOS E PASSAMOS A PAGAR PARA FAZER. ANTES QUE PESADAS DÍVIDAS RECAÍSSEM SOBRE OS MEMBROS DO GRUPO QUE AINDA NÃO HAVIAM ABANDONADO O BARCO DECIMOS PELA ENTREGA DOS IMÓVEIS QUE ALUGÁVAMOS.
CACO - O Depósito estava conduzindo um projeto de integração com a comunidade carente do entorno da sede da Câncio Gomes. O que ficou desse projeto? Faltou apoio?
ROBERTO - SIM, FALTOU APOIO. DO ESTADO, DA PREFEITURA, DA IMPRENSA E, PRINCIPALMENTE DO EMPRESARIADO TACANHO. A CULTURA GAÚCHA ESTÁ ATIRADA AS TRAÇAS. ALÉM DO CARNAVAL E DO TRADICIONALISMO NÃO AVANÇAMOS UM MILÍMETRO NO ORÇAMENTO DE NENHUM GOVERNO, SEJA DA ESQUERDA, SEJA DE DIREITA. VIDE A SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA. O EMPRESARIADO CONTINUA COM AS FIRMES VISEIRAS DO CAPITAL AFERROLHADAS AOS OLHOS. ESTÃO TÃO ALHEIOS DA CULTURA LOCAL QUE NÃO CONSEGUEM ENXERGAR AS POSSIBILIDADES DE LUCRO INSTITUCIONAL E O POTENCIAL DE TRANSFORMAÇÃO QUE O NOSSO PROJETO PRETENDIA APLICAR NA REGIÃO. PROCURAMOS TODAS AS EMPRESAS DO ENTORNO: FERRAMENTAS GERAIS, GERDAU, MERCEDES BENZ, VONPAR, TOYOTA, PEPSICO, DMAE, ESAB, PÉGASUS, TURBO MOTO, SINOSSERRA E ATÉ MESMO A CGTEE, QUE ESTEVE ENVOLVIDA EM FALCATRUAS FINACEIRAS MAS NÃO APLICAVA UM TOSTÃO NA CULTURA LOCAL, TODAS DISSERAM NÃO. NOS INSTALAMOS NUMA ZONA CONFLAGRADA DA CIDADE COM UM MARAVILHOSO PROJETO DE TRANSFORMAR A CARA E A ALMA DO ENTORNO, MAS NOSSA IDÉIA CAIU NO VAZIO, NUM VÁCUO PARA ONDE VÃO TODAS AS PEÇAS, TODAS AS MÚSICAS, TODAS AS PINTURAS, POEMAS, FOTOGRAFIAS, ESCULTURAS, ETC, QUE HABITAM ESTA ESTRANHA ILHA CHAMADA RIO GRANDE DO SUL.

CACO – 2008 foi sinônimo de discussão de espaços para os grupos de teatro e de dança e de falência da LIC. Que achas disso? Poderias propor o que seria prioridade em 2009? Qual tua posição sobre a Lei de Fomento aos Grupos, e que está tramitando na Câmara de Vereadores da Capital?
ROBERTO - A DISCUSSÃO SOBRE OS ESPAÇOS VAI GANHAR CADA VEZ MAIS TERRENO, POIS TODOS OS GRUPOS PERCEBEM QUE "TER" UM ESPAÇO FAZ UMA ENORME DIFERENÇA NOS RESULTADOS ARTÍSTICOS.
FAZ TEMPO QUE A LIC FALIU. DESDE O PRIMEIRO MOMENTO, QUANDO MOSTROU QUE ESTAVA ASSOCIADA APENAS AOS INTERESSES DA MACRO CULTURA, DOS SONEGADORES E FORMADORES DE CAIXA DOIS E QUE SUAS GENEROSAS VERBAS JAMAIS BENEFICIARIAM OS PROJETOS DA MICRO CULTURA. A LIC NÃO ATENDE AOS INTERESSES DA MAIORIA DOS FAZEDORES DE ARTE DO NOSSO ESTADO.
QUANTO AS PRIORIDADES AÍ VÃO:
PRIORIDADE MUNICIPAL = MAIS PULSO DO SECRETÁRIO DE CULTURA NAS QUESTÕES DE SUA ÁREA E MAIOR PESSOAL NA CAPTAÇÃO DE RECURSOS JUNTO A FAZENDA MUNCIPAL. APROVAÇÃO, REGULAMENTAÇÃO E EXECUÇÃO DA LEI DE FOMENTO PARA OS GRUPOS DE TEATRO E DANÇA QUE SE ENQUADRAM DENTRO DA PROPOSTA TORNADA PROJETO DE LEI QUE SE BASEIA INTEGRALMENTE NA LEI APROVADA EM SÃO PAULO. MAIS VERBAS E AUTONOMIA PARA O PROJETO USINA DAS ARTES. MAIS VERBAS PARA O PROJETO ARRUMANDO A CASA. MAIS VERBAS PARA O FUMPROARTE, QUE A CADA CONCURSO TEM QUE INVENTAR UMA REGRA NOVA PARA ELIMINAR MAIS CANDIDATOS. PARTICIPAÇÃO DA SECRETARIA NA CONSTRUÇÃO DA SEDE DO ÓI NÓIS, NO MÍNIMO PARA ABRIR PORTAS DE EMPRESÁRIOS IMPORTANTES. APOIO DIRETO E EFETIVO NA APROVAÇÃO DO PROJETO ENTORNO SOLIDÁRIO APRESENTADO PELO DEPÓSITO DE TEATRO, QUE ESTÁ PARADO EM ALGUMA GAVETA DA PREFEITURA MUNICIPAL, MAS COMO AINDA É O MESMO PREFEITO, NÃO DEVE SER DIFÍCIL DE ENCONTRA-LA. INTERVENÇÃO DIRETA NA QUESTÃO DOS GRUPOS QUE TRABALHAM NO HOSPITAL SÂO PEDRO.
PRIORIDADE ESTADUAL = DEPOR A GOVERNADORA E SUA SECRETÁRIA DA CULTURA PODERIA SOAR MUITO RADICAL, MAS É A PRIMEIRA COISA QUE ME OCORRE. A INÉRCIA QUE TOMOU CONTA DA SECRETÁRIA DE ESTADO DA CULTURA DESDE A METADE DO GOVERNO OLÍVIO ATÉ O PRESENTE MOMENTO SÓ DEMONSTRA DESCASO. É REFLEXO DA PRÓPRIA FALTA DE CULTURA OU DE VISÃO DA CULTURA QUE NOSSOS DIRIGENTES DA CULTURA ESTADUAL TÊM, OU MELHOR NÃO TÊM. ENQUANTO A CULTURA CONTINUAR SENDO A PASTA POBRE QUE DEVE SER ENTREGUE A UM AMIGO OU CORRELIGIONÁRIO OU NA BARGANHA DE CARGOS ENTRE PARTIDOS, CONTINUAREMOS VIVENDO NESTA MISÉRIA CULTURAL. ACHO QUE OS ARTISTAS TÊM QUE DECIDIR QUE SECRETARIA QUEREMOS. TEMOS QUE INVERTER O PROCESSO. NÃO DÁ MAIS PRA FICAR ESPERANDO. OU A SECRETARIA PRODUZ, CRIA E DESENVOLVE PROJETOS OU FECHA. OU VOLTA PARA A EDUCAÇÃO E SE ASSUME O RETROCESSO. ASSIM COMO ESTÁ É UMA PIADA. É O DESMANTELAMENTO DO APARELHO CULTURAL DO ESTADO.

CACO – Como está o Depósito agora? Além da montagem da peça infantil, outros planos?
ROBERTO - ESTAMOS EM FASE DE FISIOTERAPIA. PASSAMOS PELA PIOR FASE. SAÍMOS DA UTI. DEPRECIAÇÃO, INDIGNAÇÃO, SOLIDÃO, DESORIENTAÇÃO, E AGORA ESTAMOS NA FASE DA RECONSTRUÇÃO LENTA DO QUE SERÃO OS PRÓXIMOS DEZ ANOS. TOMARA, QUE TENHÁMOS APRENDIDO ALGUMA COISA COM ESTA PESADA LIÇÃO.
POR OUTRO LADO, ESTAMOS CHEIOS DE PLANOS, OU MELHOR DE PROJETOS. APRESENTAMOS DOIS PROJETOS PARA A FUNARTE, QUATRO PARA O FUMPROARTE. COM CERTEZA CONTRIBUIREMOS PARA TORNAR-LHES MAIS DIFICULTOSA A DECISÃO. TALVEZ ASSIM ELES PERCEBAM QUE O FUMPROARTE PRECISA DE MAIS DINHEIRO. COMO TU DISSESTE ESTAMOS PREPARANDO A FARRA DE TEATRO/2009 QUE PRETENDE SER UM ATO COMEMORATIVO AO DIA INTERNACIONAL DO TEATRO, ALÉM DE ENCERRAR A SEMANA DE PORTO ALEGRE E A EXPOSIÇÃO DOS 80 ANOS DA USINA DO GASÔMETRO. ESTAMOS LANÇANDO UMA COLEÇÃO DE POSTAIS COMEMORATIVOS AOS 10 ANOS DO NÚCLEO DE FORMAÇÃO DE ATORES DO DEPÓSITO DE TEATRO. ESTAMOS NOS INSTALANDO NA SALA 402 DA USINA DO GASÔMETRO, ABRIGADOS PELO PROJETO USINA DAS ARTES. PRETENDEMOS TRANSFORMAR NOSSA SALA NUM TEATRO DE BOLSO. ESTAMOS TRABALHANDO NA DIVULGAÇÃO DAS OFICINAS/2009. E VAMOS ESTREAR UM ESPETÁCULO INFANTIL CHAMADO O QUE SERIA DO VERMELHO DE NÃO FOSSE O AZUL EM ABRIL NO TEATRO RENASCENÇA.

CACO – O Depósito vai ocupar espaço na Usina do Gasômetro? Quais seriam os planos? A Bagasexta segue viva?
ROBERTO - SIM. ACABEI DE RESPONDER TUA PERGUNTA AÍ ACIMA. PARTICIPAMOS DO EDITAL DO PROJETO USINA DAS ARTES E FOMOS CONTEMPLADOS COM A SALA 402. UMA SALA TODA DE VIDRO, COM UM PÉ DIREITO BAIXÍSSIMO, MAS QUE VAI SER NOSSO ENDEREÇO POR ALGUM TEMPO. PRETENDO REALIZAR ALGUMAS EXPERIMENTAÇÕES TEATRAIS APROVEITANDO O PEQUENO ESPAÇO QUE A SALA OFERECE.
QUANTO A BAGASEXTA, AS COISAS SÃO MAIS DIFÍCEIS. ALÉM DE ESTARMOS OUTRA VEZ SEM UM LUGAR ADEQUADO PRA FAZER NOSSA FESTA PERFORMATICA, ESTAMOS DESFALCADOS DO JULINHO (ANDRADE) E DO MARCELO (AQUINO) QUE ESTÃO ATUANDO NO EIXO RIO/SÃO PAULO. O FUTURO DA BAGASEXTA É INCERTO. TALVEZ A GENTE FAÇA COMO O "TANGOS" E O "BAILEI", UMA VEZ POR ANO A GENTE REAPARECE E FAZ UMA GRANDE BAGASEXTA ANUAL.

CACO – Andaste fora dos palcos por um tempo, mas foste percebido em várias plateias. Como estás vendo a cena atual em Porto Alegre?
ROBERTO - COISAS DO WORD. FIQUEI HORAS DIGITANDO E PERDI AS TRÊS ÚLTIMAS RESPOSTAS. TENHO IDO MUITO AO TEATRO. EU ADORO TEATRO. QUANDO NÃO ESTOU FAZENDO ESTOU ASSISTINDO. SAIO DE CASA PREPARADO PRA GOSTAR DA PEÇA QUE VOU ASSISTIR. TORÇO PELO BOM TEATRO. A PEÇA COMEÇA E EU VIBRO COM AS PRIMEIRAS IDÉIAS, MAS E DEPOIS? AS COISAS QUE TENHAM VISTO SÃO MARAVILHOSAS TENTATIVAS DE ALGO QUE NÃO ACONTECE. NÃO CONSIGO FICAR EMPOLGADO COM AS COISAS QUE TENHO ASSISTIDO. NADA TEM OUSADIA. POUCAS PEÇAS TÊM TEATRO-ARTE. ASSIM COMO SOU ADEPTO DO FUTEBOL-ARTE, SOU ADEPTO DO TEATRO-ARTE. FORA OS SHEAKESPEARES E POUQUÍSSIMOS OUTROS TRABALHOS, A DRAMATURGIA É FRACA, TÍMIDA. UM CONTEÚDO INDEFINIDO RESULTA NUMA FORMA INDEFINIDA. ATUAÇÕES IMPRECISAS E DÉBEIS. DIREÇÕES CONFUSAS E MAL DESENHADAS. É CLARO QUE TEM (AINDA BEM, NÉ?) EXCEÇÕES. EU SEI QUE TRABALHAMOS COM A PRECARIEDADE, COM A FALTA TOTAL DE RECURSOS, MAS... TENHAM DÓ.
MAS TAMBÉM ACHO QUE ISTO É UM REFLEXO DA MANEIRA COMO A CULTURA É TRATADA. COMO ENCARAMOS AS QUESTÕES CULTURAIS. NA MINHA OPINIÃO, TUDO ESTÁ INTERLIGADO. NÃO CONSIGO PENSAR QUE TUDO ACONTECE ISOLADAMENTE. FECHAR AS PORTAS DO DEPÓSITO DE TEATRO ESTÁ INTERLIGADO A ATITUDE DE EXPULSAR OS GRUPOS DO HSP. A MANEIRA COMO A UFRGS TRATA A CULTURA, UTILIZANDO-SE DA LEI ROUANET PARA CAPTAR RECURSOS PARA PRESERVAÇÃO DE SEUS PRÉDIOS E MANTENDO A MINGUA O DEPARTAMENTO DE ARTE DRAMÁTICA ESTÁ INTIMAMENTE LIGADA A PASMACEIRA QUE DOMINA A SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA QUE VEM PERMITINDO O DESMATELAMENTO DA PARCA ESTRUTURA CULTURAL DO ESTADO. TODOS ESTES PROBLEMAS E QUESTÕES SÃO FACES DIFERENTES DE UM MESMO UNIVERSO. PARA MIM OS RESULTADOS NA ÁREA ARTÍSTICA DEPENDEM DIRETA E INDIRETAMENTE DE BONS GESTORES E DE BONS RESULTADOS NO ÂMBITO ADMINISTRATIVO CULTURAL.
CACO – Já foste premiado com o Açorianos de Melhor Ator por "O Ferreiro e a Morte" (1987) e por O Estranho Sr. Paulo (1996), com o Açorianos de Melhor Ator Coadjuvante, por "Decameron" (1993), e com o Tibicuera de Melhor Ator Coadjuvante, por "O Rei Nunca Riu" (1993).Mas tens frequentado sets de filmagem cada vez mais. Queres te dividir entre cinema e teatro? E qual a diferença entre a atuação no cinema e no teatro?
ROBERTO - SERIA MARAVILHOSO QUE TUA FRASE - "TENS FREQUENTADO SETS DE FILMAGEM" - FOSSE MESMO VERDADEIRA. APESAR DE TODOS OS PRÊMIOS CONSEGUIDOS NO TEATRO E APESAR DOS CINCO OU SEIS TROFÉUS QUE VIERAM DAS ATUAÇÕES NO CINEMA, AINDA ESPERO AQUELES CONVITES TODOS, EM QUANTIDADE, PARA QUE EU POSSA ME DIVIDIR ENTRE O TEATRO E O CINEMA COMO EU GOSTARIA. ACHO QUE O ATOR DEVE TESTAR SUAS CAPACIDADES INTERPRETATIVAS EM TODAS AS MÍDIAS POSSÍVEIS, PENA QUE AQUI NO ESTADO A GENTE NÃO POSSA REALMENTE EXPERIMENTAR-SE NA TELEVISÃO E NO CINEMA. SÃO POUCOS OS ATORES GAÚCHOS QUE CONSEGUEM ADQUIRIR UMA CERTA PRÁTICA E FAMILIARIDADE COM OS RECURSOS DA TV E DO CINEMA, BEM COMO DE SUAS DIFERENÇAS E PARTICULARIDADES.

CACO – Já ouvi falar que estavas te dedicando a escrever um livro. Procede? Que livro seria esse?
PROCEDE. ESTOU TENTANDO EDITAR UM LIVRO COM QUATRO PEÇAS INFANTIS QUE ESCREVI NOS ANOS 80 E 90. MAS O LIVRO A QUE TE REFERES TEM O TÍTULO PROVISÓRIO DE NO SMOKE - DIÁRIO DE UM (QUASE?) EX-FUMANTE, QUE, COMO O TÍTULO INDICA, CONTA NA FORMA DE UM DIÁRIO OS PROBLEMAS ENFRENTADOS POR UM SUJEITO QUE ESTÁ DETERMINADO A PARAR DE FUMAR. O LIVRO SE COLOCA NA LINHA DOS LIVROS DE HUMOR. NA MESMA VERTENTE DAS COISAS QUE O VERÍSSIMO ESCREVE. GUARDADAS AS PROPORÇÕES, É CLARO. TERMINEI DE ESCREVÊ-LO NO ANO PASSADO E AGORA ELE SE ENCONTRA EM FASE DE TESTES. ENTREGUEI CÓPIAS PARA DEZ AMIGOS SELECIONADOS E ELES ESTÃO LENDO E ANOTANDO SUAS CRÍTICAS PARA UMA PROVÁVEL SEGUNDA REVISÃO GERAL. ESTOU PROCURANDO QUEM QUEIRA EDITAR. QUERES SER MAIS UM DOS LEITORES-TESTADORES? ALGUÉM AÍ QUER LER? ALGUÉM AÍ QUER EDITAR?