domingo, 17 de maio de 2009

PEQUENOS MILAGRES DO FABULOSO GRUPO GALPÃO

O fabuloso Grupo Galpão vem de surpresa a Porto Alegre trazendo dois espetáculos praticamente em segredo. Fez uma apresentação de O HOMEM É UM HOMEM no estacionamento da Usina e duas de PEQUENOS MILAGRES no Theatro São Pedro. Esta última, comemora os 25 anos do Grupo Galpão e conta quatro histórias escolhidas entre as mais de 600 cartas que o Grupo recebeu a partir da campanha "Conte sua História" proposta como ponto de partida para a criação do espetáculo que foi dirigido pelo londrinense Paulo de Moraes, diretor da Armazém Cia de Teatro, atualmente estabelecida no Rio de Janeiro e conhecida entre nós pelas montagens de "Alice Através do Espelho", "Pessoas Invisíveis" e, mais recentemente, "Toda Nudez Será Castigada" que integrou a grade do último PoA em Cena. Reconhecido como um dos grandes diretores brasileiros da atualidade, Paulo de Moraes, maneja com segurança e inteligência os mecanismos da direção teatral, mas assistindo seus três ou quatro últimos trabalhos pode-se perceber certas repetições nas soluções e o surgimento de um estilo, uma receita teatral. Este espetáculo do Galpão é limpo, bem marcado, com uma concepção clara e passagens de cenas bem delineadas. A peça vai conquistando o espectador aos poucos com a história escolhida para servir de ligação entre as outras, "Cabeça de Cachorro", brilhantemente interpretada por Antônio Edson, o querido e carismático Toninho. Em "Casal Náufrago", o público ja está na mão dos atores e totalmente envolvido pela peça. O elenco do Galpão, esbanja segurança e unidade, aproveita sua maturidade para divertir-se em cena. Destacam-se as interpretações de Lydia del Picchia vivendo a esposa Cinira e o ja citado Antônio Edson que interpreta o menino João. Acima, escrevi o fabuloso Grupo Galpão. O "fabuloso" se refere ao fato de o Galpão ser uma referência clara no teatro nacional e também, já que acompanho seus trabalhos há mais de 15 anos, porque sempre, em todas as montagens, mantém um nível de excelência técnica e artística que impressiona. Ver o Galpão sempre é bom. Se, peças como "Um Trem Chamado Desejo"ou "A Rua da Amargura", não possuem o brilhantismo e carisma de "Romeu e Julieta", que foi o espetáculo que projetou nacionalmente o grupo, acho extraordinário que cada uma destas montagens mantenham para o espectador tudo o que se espera do fabuloso Grupo Galpão.
M.F.

O MELHOR DO TEATRO FOI A DANÇA



E fui ao teatro no sábado. Quando assisti a primeira peça da minha vida, fiquei deslumbrado. Não acreditava no que estava vendo. Como era lindo! Como era lindo! Era uma adaptação de "A Moreninha", que pude ver no Theatro São Pedro, antes da reforma.Desta vez, ganhei um convite para assistir "Eu Preciso Aprender a Ser Só", com direção de Eduardo Kramer, que é um diretor sempre inventivo tanto na luz quanto na direção. De cara fiquei feliz porque tinha gente suficiente pra quase lotar a Sala Álvaro Moreyra, que está bem equipadinha e coisa e tal, mas conserva pra sempre a sina de "sala". Até que alguém a transforme num teatro, vai ser sempre uma sala. Acho que ja disse aqui que adoro quando vou ao teatro e tem bastante gente pra assistir. Já vi trabalhos anteriores de Eduardo Kraemer. O que mais permaneceu em mim foi "Espancando a Empregada", que vi na mesma sala, com a dupla Renato Campão e a minha diva Arlete Cunha arrasando, destruindo as pseudo estruturas do público e do teatro. O texto de "Preciso Aprender..." é infinitamente mais fraco, raso e batido do que o texto da outra peça citada. Isso faz uma diferença significativa. A falta de comunicação na vida moderna, a condenação a solidão do ser humano no mundo contemporâneo, a obrigatoriedade de ser políticamente correto num mundo cada vez mais defeituoso e fragmentado, são temas abordados em diversos filmes e espetáculos do final do século passado e contemporâneos. É o tema, por exemplo, de "Encontros Depois da Chuva", de Adriane Mottola. O melhor da peça, aquilo que mais me tocou, foram as coreografias. A parte teatro do espetáculo de teatro/dança do Eduardo, estava enfraquecida pelo texto; pelas pálidas performances dos atores, cujas interpretações não alçam vôo em momento nenhum; pela repetição e pela constante multiplicação por três que tornava o espetáculo previsível. Só não era cansativo porque teve o justo tempo de duração. Mas, como eu dizia, foi justamente na parte dança da peça que o espetáculo chegou até mim. Os três homens do elenco eu conheço e sei que não são bailarinos. Marco Antônio Sório colega de longa data, dos tempos do Palhaçadas no Teatro de Arena. Esteve muito tempo afastado do teatro e retornou integrando o elenco de várias peças do Teatro Ofídico. Marco está na hora de fazer um trabalho mais maduro e profundo. Mostrou-se inseguro em relação a marcas e tropeções no texto. Rafael Guerra e Everson Silva são oriundos das oficinas de formação de atores do Depósito de Teatro e conheço bem suas manhas e artimanhas recorrentes. Rafael tem verdade no olhar. Everson ainda mantém uma fala atrapalhada e uma falta de foco e definição no olhar. Os dois têm uma excelente energia e são bastantes perspicazes, mas sofrem de uma mesma doença que não permite que voem mais alto, ou mais fundo. Nenhum dos três dança. Das atrizes só conheço Sayonara Sosa, que também andou um tempo afastada e retornou atendendo o chamado do palco. Aparece com muita energia neste trabalho. Muitas vezes, demasiada energia, eu diria. Interpreta e reage o tempo inteiro, sofre o tempo inteiro. Sua interpretação fica exagerada porque é uma exceção no conjunto. Destoa. Não para em momento nenhum. Fica afetada, muito diferente da interpretação das outras duas, Claúdia Canedo, voz muito bem colocada, interpretação somente adequada, e Débora Geremia que defende com garbo e energia sua parte. A Sayonara eu acho que dança, as outras duas não sei se são também bailarinas. Mas, acontece que quando o elenco dança, ele se comunica. O teatro aparece e se instala. A Sala Álvaro Moreyra vira teatro. A peça acontece. Chato mesmo é a campanhia que marca algumas partes do texto. Não ajuda nada. E aquela mal arranjada locução no final da peça. É horrível. No cenário, básico e multiplicado por três, já aparece um certo descuido, mas a locução é bem pior. A iluminação não é tão inventiva, quanto se espera de um espetáculo do Eduardo Kraemer e torna-se apenas funcional. A direção é apenas correta. Eu, particularmente, prefiro aquele Teatro Ofídico radical na escolha de seus textos, provocações e pesquisa de linguagem.
M.F.

TORTURANDO CRIANÇAS NO TEATRO INFANTIL


O QUE ESTÃO FAZENDO com o teatro infantil? Será que não tem ninguém vendo o que estão fazendo com o teatro infantil? Será que não tem uma arte-educadora, capaz de se indignar com o que está acontecendo com o teatro infantil? Não tem um psicólogo de pré-escola que tenha a ousadia de botar a boca no trombone para reclamar da programação do teatro infantil? Não tem uma diretora inteligente de uma escola moderna, avançada e inteligente que venha de público manifestar-se sobre o baixíssimo nível do teatro infantil. Não tem um pai, uma mãe que não perceba que não é bom expor o filho a certas peças que estão em cartaz e escreva uma carta para um jornal denunciando o fato. Eu coloquei uma enquete neste blog sobre a qualidade do teatro infantil que se anda fazendo em Porto Alegre. Hoje dei uma olhada num site é fiquei pasmo com a programação. Não vi e não gostei. Ainda bem que eu não sou obrigado a assistir nenhum dos espetáculos em cartaz. Me imaginei criança, com meus pais preocupados com minha formação cultural e me levando obrigado ao teatro para ver uma "pecinha infantil". Que tortura não haveria de ser. Para mim e para eles. Quando crescesse, certamente, eu odiaria o teatro. Há alguns anos atrás, Porto Alegre poderia orgulhar-se do nível de seu teatro infantil em relação ao que é praticado, por exemplo, no Rio de Janeiro, ou em São Paulo, ou em Brasília, que foi onde vi as piores peças infantis. Embalado pela explosão de produções caça-níqueis e besteiróis medíocres que vêm assolando o teatro para adultos, também o teatro infantil vem perdendo contínua e absurdamente a qualidade e o senso crítico e artístico de outrora. Atualmente, o que se vê é a criança exposta, indefesa, diante de tanta mediocridade que lhe é apresentada guela abaixo. É um reflexo do baixíssimo nível da programação televisiva dedicado aos "baixinhos". E, desculpem, mas tenho que voltar aos pais? O que os pais estão achando disso? Será que eles também estão com a cultura embotada e não conseguem distinguir o joio do trigo? Será que não há nada nos estatutos da criança e da adolescência que fale do poder de destruição que este tipo de teatro poda causar na criança e no prazer ou desprezo que ela tenha em assistir uma apresentação teatral? Muitas destas respostas eu não tenho, não sei o que dizer, algumas eu pressinto, e não é nada bom o que eu vislumbro. O teatro infantil, o bom teatro infantil, vem perdendo público ano após ano na proporção direta em que o medíocre teatro comercialóide vem alcançando maior lucratividade. As escolas compram, os pais levam os filhos, as orientadoras dão seu aval, as diretoras assinam embaixo, todos fazem vista grossa e a criança tem que engolir uma pecinha que lhe trata como um debilóide.
M.F.

MARGARIDAS SOLTAS NO PALCO

Montagem produzida no DAD, baseada em contos de caio fernando abreu, com orientação de gisela habeyche. assisti hoje ao meio dia na sala alziro azevedo, com bom público, o exercício teatral proposto pelas atrizes, provavelmente algum trabalho ligado a cadeira de interpretação. o texto debochado, contemporâneo e agudo de caio se sobessai. é o melhor da peça. as atrizes, em que pese a nítida falta de uma direção, estão desenvoltas em cena. todas tem uma boa voz e são raros os momentos em que não se entende o que alguma delas fala. as três interpretam a mesma personagem e vão desfiando a história, modernamente, de maneira fragmentada, com rasgos corporais. muriel está muito melhor aqui do que em "roberto zucco", talvez porque se sinta mais dona do processo e do trabalho. está mais à vontade, mais inteira e mais colocada. em silêncio, é sempre a melhor das três. daniela tropeça na própria bebedeira, tira partido cômico de seu texto, mas perde ao representar apenas exteriormente o porre que toma quando flagra o namorado transando com a empregada. fernanda ja começa "sofrendo", mantém-se segura e firme, mas comete aqui e ali alguns exagêros desnecessários. elas poderiam ter se espelhado uma nas coisas boas das outras. muriel parece ser a que alcança mais profundidade. daniela mais comicidade. fernanda mais empatia. falta aquela direção que poderia "limpar", dar brilho e nitidez tanto as interpretações, quanto aos pequenos detalhes criados pela atrizes, que se perdem na falta de foco, numa certa "sujeira" que se faz presente na peça. no final, o público é convidado a dar uma nota de zero à cinco ao espetáculo. então, dando um ponto a cada atriz, descontando-se o ponto que caberia a direção e subtraindo o ponto que caberia a concepção cênica, fica-se com um 3. o que, convenhamos, pra qualquer crítico que se preze, é uma boa nota.
M.F.

ROBERTO ZUCCO SEM SAL E SEM AÇUCAR



Quando a peça "ROBERTO ZUCCO" estreou, há mais ou menos um ano atrás, como um trabalho de aula realizado no DAD, lembro que a diretora e grande amiga, Patrícia Fagundes, falou que eu deveria assistir porque se tratava de um bom trabalho, Na ocasião acabei não indo. Pois agora, na ressaca pós Poa em Cena fui ver a peça, que tem direção e cenografia de Felipe Vieira de Galisteo, aluno do DAD/UFRGS e mais um jovem que se aventura nas águas do teatro portoalegrense, fazendo parte da novíssima geração de diretores e que de cara já marca um ponto ao escolher encenar um texto de Koltès. A peça é protagonizada por Maico Silveira, jovem ator, também saído do DAD, que tive oportunidade de assistir em três ou quatro trabalhos anteriores.Como sempre que vou ao teatro, já saio de casa com uma excitação diferente, um prazer, com vontade de gostar, de aplaudir. Então, é uma pena, mas não gostei da encenação. Realmente, em meio a tanta coisa ruim que ja vi acontecer no palquinho da Sala Alziro Azevedo e no desperdiçado Teatro Qorpo Santo, os primeiros minutos de "ROBERTO ZUCCO" impressionam, e até mesmo a peça como um todo, se sobressai positivamente. Mas as idéias, a concepção, as interpretações não se sustentam ao longo do tempo e não oferecem ao espectador a profundidade dramática contida no texto do torturado Bernard-Marie Koltès, tampouco a dimensão humana da sua hiper torturada personagem, Roberto Zucco.É. Pode-se dizer que são iniciantes e então, vendo a peça por esta ótica, dizer que trata-se de um espetáculo acima da média do DAD. Mas porque esta complacência? Porque dar ao trabalho e a equipe que o fêz esse tratamento benevolente? A peça não fez parte da grade do PoA em Cena? Na minha opinião, ou se dá um tratamento acadêmico ao trabalho, e tratamos como aquilo que de fato é, ou seja: um exercício acadêmico, uma produção obrigatória de final de semestre, realizada com quase nenhum ou pouquissímos recursos (porque a poderosa UFRGS não destina a verba que deveria aos trabalhos e pesquisas do DAD, mas isso é outro assunto). Ou, se considera que o trabalho (e equipe) faz parte daquilo que convencionamos chamar de teatro profissional gaúcho (algo que se situa entre o mais puro amador e um profissionalismo que tenta imitar as tendências do Rio e São Paulo), e eleva-se o gabarito da avaliação. A mim parece que se enche a bola das criaturas e não se oferece um feed-back verdadeiro e honesto sobre as coisas que alcançaram e sobre aquelas que não conseguiram alcançar nesta montagem. A mim parece, óbvio que no elenco tem atores que serão bons e que o diretor virá a ser um bom diretor, mas não isso que coloca em questão. Se tratando de teatro, prefiro levar a discussão a um patamar mais profundo. Não basta dizer que é bom porque são jovens ou iniciantes, têm-se que discutir a fragilidade da concepção cênica. Têm-se que discutir a falta de nuances e muitas vezes a falta de elán que os atores apresentam. Têm-se que discutir o baixo nível de concentração dos atores que se atrapalham e erram textos.Vou mais longe. Assistindo a peça, pensei que o DAD deveria preparar melhor seus alunos e exigir mais deles. Fiquei pensando se um aluno do TEPA, ou do DEPÓSITO DE TEATRO, ou da TERREIRA DA TRIBO, não faz mais teatro em um ou dois anos de curso do que os alunos do DAD em seus quatro anos? Parece macio fazer o DAD e passar de semestre e formar-se ao fim de um tempo.Entendo que a peça tem uma matriz boa. Aparece um núcleo de uma boa concepção. É um trabalho completamente honesto que vi com atores substituindo nomes que saíram do elenco. Um atenuante para a falta de ritmo da apresentação que vi, mas não para as coisas que estou apontando.Outra coisa que pensei com a peça foi sobre ser "fiel ao autor". Já dirigi uma peça de Nelson Rodrigues e, mesmo me sentindo um criminoso, cortei e alterei textos. Com Dias Gomes, foi bem mais fácil. Com Suassuna, nem se fala. Bem, acredito que na encenação de Felipe pouquíssimos ou nenhum corte foi feito no texto. Parece estar na íntegra. Porque então acho que ele não foi fiel ao autor? Porque "ser fiel" não se trata de cortar ou não o texto. Trata-se de ser fiel ao imaginário do autor. A loucura, a viagem do autor. Então, como ja mencionei acima, me parece que a encenação não consegue comunicar a dimensão dramática contida no texto de Koltés. O diretor não consegue extrair de seus elenco a carga dramática necessária à interpretação do texto subjacente, emocional, corrosivo. Até mesmo o protagonista, vivido pelo ator Maico Silveira, carece da profundidade humana, e não consegue dar conta do mergulho vertical de Zucco no lago escuro e tenebroso em que ele se lança com absurdo destemor. Seu Zucco é quase um Rambo, não só pelo figurino (pedido pelo autor), mas pelo comportamento robotizado que apresenta ao decorrer do espetáculo. Parece que falta paixão. Fernanda Mandagará só se sai bem quando vive a mãe do garoto. Apesar de manter sempre o mesmo tom, consegue extrair alguns momentos bons quando interpreta esta personagam, principalmente na cena da praça. Pena que prefere nadar na superficialidade e não mostra a dor, peso e desencanto da mãe que vê o filho baleado na sua cara. Mariana Mantovani e Zé Benetti regrediram da última vez que os vi. Mariana falsa, quase afetada e Zé sem a performance mostrada em "Intensidades" e com duas horríveis mechas de cabelo na frente dos olhos. Muriel Vieira, a namorada consegue alternar momentos em que comunica algum sentimento ao público com momentos de "dizeção" de textos que caem num vazio absoluto. Falo dos atores mas culpo a direção, porque, sempre na minha opinião, o diretor tem obrigação de colocar o ator muito bem em cena. O diretor é o responsável pela profundidade do mergulho do ator (junto com o próprio, é claro).Uma última observação minha é o fato de parece não ter havido uma pesquisa teórica, um estudo mais aprofundado sobre o autor (embora seja um dos preferidos do diretor), sua obra e sobre o(s) significado(s) possíveis e impossíveis contidos no texto e suas implicações humanas. Não precisava ser assim. A peça foi motivo de estudo dentro do próprio DAD e então, farto material poderia ser encontrado dentro da própria universidade. Além disso, a gente entra no google e digita "Roberto Zucco"e aparecem 21.300 páginas que dissecam a peça e cada uma das suas personagens (eu tb acho pedante escrever personagens no feminino, mas é o correto e não fui eu quem inventou essa frescura). Encerrando, acho que o diretor, Felipe Vieira, poderia ter ensaiado mais, estudado mais, se preparado e ter sido mais preparado pelos professores do DAD para enfrentar a árdua tarefa de encenar Koltès. Mas, em todo caso, acho louvável a decisão de encenar este texto e penso que com mais tempo e recursos com certeza a peça seria mesmo um bom trabalho como disse minha amiga Patrícia Fagundes.
M.F.

MULHERES INSONES



Posso dizer que acompanho o trabalho do Décio Antunes, que eu me lembre, desde sua encenação de "A Serpente" (de Nelson Rodrigues) que assisti no Teatro de Câmara há muitos anos atrás. Na realidade, eu e o Décio fomos colegas de DAD, lá pelos idos de 1974, 75, 76. Os dois bastante calados, reservados (mais o Décio, do que eu), mesmo assim conseguimos construir uma relação de amizade e coleguismo que se estende até o presente momento.Relembrando agora de "A Serpente", penso que já naquele antigo trabalho (talvez um dos primeiros que ele dirigiu), o Décio colocava em cena uma ousadia cenográfica, um cenário de forte impacto que dita a concepção do espetáculo. Agora, acabo de ver uma das suas últimas realizações, o deslumbrante "Mulheres Insones". Desta vez, Décio junta um cenário forte com uma coreógrafa calejada que representa o que há de melhor na dança no Brasil e no mundo. Félix Bressan (o mesmo cenógrafo da Trilogia Perversa) parece que acertou desta vez ao assinar um cenário em conjunto com os diretores. Com certeza é seu cenário que mais se integra ao espetáculo e não fica roubando foco, disputando com o espetáculo. Desta vez, Décio estava melhor assessorado do que nunca. Daniel Lion é, ao lado de Coca Serpa, nosso mais importante figurinista. André Birk é medalhão da sonoplastia. Flávio Oliveira não tem mais, em sua casa, onde colocar tantos Açorianos recebidos por suas trilhas sonoras. A Carlota, então, nem se fala. Como diz pomposamente Caco Coelho: "Carlota Albuquerque é nossa Imperatriz da Dança com D maiúsculo." Essa também, eu posso dizer que acompanho de perto. Me odeio por não ter visto Lautrec, mas o resto vi tudo. Não perco. É pura aula de direção.Lamentei não ver minha amiga Naiara Harry em cena. Fiquei esperando sua entrada durante um bom tempo, até que me convenci que ela não entraria mais. Foi substituída. Pena. Mas, em compensação, estava no elenco uma das minhas bailarinas preferida: Angela Spiazzi. (as outras são: Tânia Baumann e Luciane Coccaro). Belíssima, exata, perfeita. Uma maravilha para os sentidos ver a Angela dançando. Aliás, o elenco da peça é muito bom. Muito coeso e cheio de energia. A pequeninha Didi é excelente bailarina. Ja a vi num espetáculo da Jussara Miranda. Tem presença. Mas carece, como também acontece com Joana do Amaral, de diminuir a representação e a falsa dramaticidade do corpo e do olhar quando imaginam que estão representando um personagem ou uma situação. Gabriela Greco, como não podia deixar de ser, é a melhor atriz e nada deixa a desejar corporalmente. Um corpo bonito que se movimenta plástica e dramaticamente de forma correta. Correta é pouco. Melhor seria dizer: consciente, concentrada. Me agrada sempre ver a beleza e a graça de Gabriela Peixoto que aparece na medida certa. Carismática, sentindo prazer de estar cena, acreditando sempre naquilo que está fazendo. Não exagera dramaticamente e funciona o tempo inteiro. Feliz do Décio que está trabalhando com este elenco disciplinado e brilhante. A peça é o melhor trabalho que ja vi do Décio, é sensível, dramática e tem uma personalidade própria. Que maravilha ir ao teatro e ver um espetáculo assim. Mas, pra não ficar somente em elogios, que são absolutamente sinceros, vão aqui também alguma críticas. Achei que faltou dramaturgia. Achei que a dramaturgia fica agarrada a poucos temas rodrigueanos e não arrisca. A coreografia arrisca e a dramaturgia não arrisca. Senti falta de texto. Acho que o espetáculo ganharia se fosse colocado mais próximo do espectador. Acho que as bailarinas deveriam estar mais preparadas pra colocar a dramaticidade e o teatro de Nelson Rodrigues em cena. Acho que a coreografia da Carlota se sobrepõem ao espetáculo, como o cenário de Félix Bressan se sobrepunha em As Núpcias de Teadora. E, finalmente, acho que o espetáculo, apesar delas rolarem na areia, fica num meio termo, num bom mocismo que não se coaduna com a profundeza das águas onde nadam as personagens mulheres de Nelson Rodrigues.
M.F.

DOMINGO NO TEATRO INFANTIL

Domingo de tarde fui ao teatro. Fui ver A Princesinha Fedorenta. Adorei ver o teatro cheio de crianças e pais e atores e atrizes. Era a última apresentação da temporada, o dia estava chuvoso e tudo contribuía para uma casa cheia. Achei ótimo. Me alegra ver teatro cheio. A peça me cansou. O texto é fraco. O cenário é meramente uma coisa pra ficar atrás. As canções e coreografias são realmente canções e coreografias para teatro infantil, no mau sentido do termo. Idéias batidas, tombos, correrias e uma gritaria do começo ao fim, como se as crianças fossem surdas. Se há coisa que odeio no teatro é atores gritando. E isso que o elenco é formado por gente muito boa. Todos estão bem em cena, cheios de energia e vitalidade. Se empenham e conseguem momentos de brilho e de empatia com a platéia. É bem verdade, que a peça se comunica mais com os adultos do que com as crianças. A direção é limpa, honesta e discreta. Talvez discreta demais. O resultado, na minha opinião, é uma peça que carece de idéias, faltam-lhe coisas que ela não quer ter. Nota-se que é um trabalho que pretende ser o que é. Nada mais. Nada além. E basta? Não é pouco? O que fica para as crianças? A mensagem da canção final? E basta? Pra mim não basta. Cansa.
M.F.

sábado, 16 de maio de 2009

CONCLUSÕES DO DAD/UFRGS




Dos três trabalhos de conclusão de curso do DAD tive oportunidade de assitir dois. Infelizmente, perdi a peça "DESVARIO" dirigida por Tainah Dadda. Assisti a apresentação de Letícia Chiochetta, uma adaptação de "A Prima-Dona" de Alcione Araújo, e ANÔNIMAS, peça livremente inspirada em contos do escritor Rubens Fonseca, adaptados pela diretora Juliana Brondani.No primeiro trabalho, a jovem atriz enfrenta um tour de force ao representar uma personagem que se espelha na reverenciada Maria Callas, em um monólogo escrito em 1992, sob encomenda para Marília Pêra, intérprete virtuosística que atua via de regra em musicais onde explora seu talento e a técnica desenvolvidos para o canto e a dança. Já, Letícia Chiochetta somente em alguns momentos parece sair-se bem ao explorar as difíceis melodias que aparecem no espetáculo. Em alguns momentos mostra-se insegura. A atriz aparece concentrada, tem uma ótima projeção de voz, sendo que em pouquíssimos momentos deixa-se de entender o que ela fala, movimenta-se bem e passa com naturalidade do teatro para as canções que interpréta. No geral, me parece que faltou direção ao espetáculo e que, se o exercício de Letícia tivesse a metade do tempo de duração que tem, o resultado seria melhor, pois ao final os aplausos foram apenas protocolares e restou, em mim pelo menos, a sensação de uma peça longa e chata.A outra peça, ANÔNIMAS, apresentada também na Sala Qorpo Santo, era interpretada por duas jovens atrizes: Fernanda Nascimento e Luísa Herter, e pela ex-dadiana, que atualmente integra a Cia Stravaganza, Sofia Salvatori, todas sob direção da formanda Juliana Brondani. O que vi foi um trabalho incipiente em todos os sentidos. Desde uma fraca dramaturgia, que era mau arranjada, falhava nas costuras do espetáculo e não propiciava o crescimento nem os clímaxes das cenas à luz, que, ao meu ver, não soube aproveitar com eficiência os parcos recursos de iluminação com os quais a poderosa UFGRS segue dotando uma sala tão boa para experimentos teatrais em palco italiano. Ou não. Já assisti várias montagens que ousaram além do palco italiano... A direção não consegue extraír o melhor de cada atriz e isso faz com que cada uma delas permaneça no mesmo registro dramático durante praticamente todo o espetáculo. Fernanda Nascimento consegue alguma empatia com a platéia somente no último terço da peça, e ganha vida e brilho na cena com o plástico bolha que ela aproveita muito bem. Luísa Herter, tem uma bonita figura em cena e, apesar de vê-la pela primeira vez, me bateu que poderia ir mais além do que foi. Seu corpo se move bem, soa voz é boa, embora a emissão, não seja e nem sempre suas ações são críveis. O fato de ja ter dirigido, a terceira atriza da peça, Sofia Salvatori, na montagem da peça BLITZ (de Bosco Brasil), confirmou-me a certeza de que todas poderiam ter dado mais si. Suado um pouco mais. Ensaiado um pouco mais? Sofia, que faz um trabalho brilhante em "TEUS DESEJOS EM FRAGMENTOS", dirigido pela minha grande amiga e colega Adriane Mottola, está apenas eficiente. Credito isso a direção, a dramaturgia, a repetição excessiva de marcas e aos repetidos movimentos multiplicados por três que deixam o espetáculo previsível.Para encerrar, quero dizer que acho que o problema maior está no DAD. Na aprisionante estrutura acadêmica , na fracas exigências da orientação, na existência de professores substitutos (ja que a universidade, ao invés de abrir um concurso e fixar um quadro de bons professores, prefere contratar alguns professores de dois em dois anos), na falta de ensaio, na falta de tempo e amadurecimento das coisas que ali são produzidas e, principalmente, na falta de fazer teatral que acomete o Departamento. Já disse em outro texto e repito aqui: qualquer aluno da Terreira da Tribo ou do Depósito de Teatro faz muito mais teatro em um ano do que o os alunos do DAD em quatro. É pra se pensar ou não é? Que diretores e atores estamos formando?
M.F.

TEATRÃO NO TEATRINHO

Fui até a Sala Carlos Carvalho, na sucateada Casa de Cultura Mário Quintana, assistir "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant". De cara fiquei feliz porque havia bastante público na fila do teatro e porque, ao entrar na sala, me deparei com o cenário limpo, clean, bem distribuído e bem acabado de Felipe Helfer. Depois, durante a peça vi que o cenário se adequa perfeitamente a peça, até determinando bastante a concepção da mesma, fato bastante comum no teatro. A peça, que foi anteriormente (há mais ou menos 20 anos) apresentada em Porto Alegre, se não me engano, no Teatro da Ospa, com uma performance arrasadora de Fernanda Montenegro interpretando a protagonista, Petra von Kant, que nesta montagem é vivida por Bettina Müller, é dirigida por Airton de Oliveira. Na minha opinião, a direção é limpa, óbvia e opta por uma linha caretíssima que lembra, guardada as devidas proporções, os espetáculos chamados de "teatrão". Penso que o Airton distribui bem as atrizes no espaço e as oferece sempre em angulos favoráveis aos espectadores, busca o tempo todo uma limpeza e um acabamento nas cenas, mas vejo também que se limita a marcações manjadas que nunca surpreendem, não inovam, nem subvertem qualquer regra dos mais básicos manuais de arte dramática. Fica aquele espetáculo correto, meio novela da oito, que nunca explode. Exige pouco ou apenas o básico de suas atrizes, todas elas com condições de render mais do que estão fazendo ao limitarem-se em atender o feijão com arroz realista solicitado pela direção. Incrivelmente, mesmo trabalhando numa sala tão pequena e tão próxima do público, tendo um cenário com espelhos que duplicam o publico, Airton opta pela quarta parede e, ao mesmo tempo que isola seu grupo de atrizes na "casa" de Petra Von Kant, isola também o espetáculo, que na minha opinião ganharia em teatralidade e comunicação emocional se buscasse o contato direto com o público. Mas isso é uma opção do diretor. Bettina Müller no papel da sofredora Petra Von Kant não chega a suar. Parece que tira de letra, esta segura, desenvolta e... normal. É notoriamente uma boa atriz, já testada anteriormente em outros papéis, que possuiria maturidade suficiente para render mais, para que se extraísse mais calor da sua interpretação. Me parece nitidamente "interpretando" e isso me distancia do sofrimento da rejeitada Petra. Me chama sempre atenção o trabalho da Janaina Pelizzon. Acho-a uma excelente atriz que está merecendo um trabalho a altura do seu talento. Entra na peça muda e sai calada e tira partido a cada intervenção. Aparece na medida certa, com segurança e presença em cena. Rosa Campos Velho aparece na última cena como a perplexa mãe Von Kant, e não mostra esforço nem prepocupação em extrair alguma mais profunda de seu personagem. Parece contentar-se com o pouco que dá. Marley Danckwardt, a aristocrata Sidonie, a amiga que apresenta Karin a Petra, tropeçou mais de uma vez no texto, parecia um tanto desconcentrada e com uma interpretação desafinada e vazia que só alcançou algum efeito na cena final, pouco antes de retirar-se da casa de Petra. Simone Telecchi, também usando figurinos de gosto duvidoso, se desdobra em poses pretensamente sensuais para viver a aspirante a modelo Karin. A gente fica sem saber o que levou Petra a se apaixonar tanto por ela. Não mostra o carisma necessário, fica entre uma boboca e ignorante mocinha do interior e uma aproveitadora de plantão. Concordei plenamente com a opinião da filha de Petra (interpretada apenas corretamente por Aline Jones) que diz que a moça é vulgar. Na montagem carioca de 1982, quem fazia Karin era a Renata Sorrah e depois a Cristiane Torloni. As duas ofereciam mil motivos não só para que Petra se apaixonasse, mas também para que a gente se apaixonasse por ela(s). De qualquer forma, parabéns para Airton de Oliveira e sua equipe pelo trabalho digno, honesto e correto.
M.F.

FELIZ ENTRADA EM CENA

Feliz de mim que fui agraciado com este belo espetáculo. Confesso que sempre vou ao teatro com o espírito de gostar do que vou ver. Em relação a "Crucial", me senti estimulado a gostar desde o convite que recebi. Uma linda proposta gráfica que em mim despertou a curiosidade de assistir a peça. Havia também a obrigação de amigo de ver a Vanise Carneiro. Pois gostei do trabalho dela em cena. Gostei muito. Vejo maturidade. Vejo entrega. Cresceu imensamente do trabalho anterior (MacBeth, da Patrícia Fagundes) para este. Crucial é algo ou alguma coisa ou alguém ou alguma situação muito importante, capital, mas é também sinônimo de difícil, árduo, decisivo. A mim parece que a Vanise foi desafiada neste trabalho. Desafiada pelo texto diferente e ousado de Paulo Scott. Desafiada pela direção de Gilson Vargas. E, porque não, pela atuação exímia e exemplar do Marcos Contreras que tá arrasando. Tem momentos de raro brilho. Aqueles momentos em que o teatro acontece. Então ela caiu num daqueles momentos decisivos = crucial. O Gilson, vai entrando com o pé direito na direção teatral, e de quebra traz do cinema alguns cortes e efeitos muito inventivos e uma estética que permeia a peça. O espetáculo tem uma limpeza de detalhes e uma clareza de proposta. O texto é bom, legítimo Paulo Scott, é interessante quase todo tempo. Mas não todo o tempo. Em alguns momentos ele me parece longo. O espetáculo acontece num estado crucial, num fio de navalha pavoroso, pois transita entre as fronteiras do cinema, da hq, da ficção científica, asimov, edgar allan poe, dos contos fantásticos, hoffmann, e até do teatro. Bacana. Me senti divertido e saí bem do teatro. Tão feliz quanto havia entrado. E aí parece que está o pecado do espetáculo. Ele se mantém frio, futurista, distante. A gente acompanha, mas não se envolve. Conversando com as pessoas com as quais eu estava ficou em todos uma sensação boa mas com a nítida falta de algo que ninguém soube explicar. Mas assim é o teatro.
M.F.

BEM SUCEDIDO PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


No sábado, fui ao suntuoso Salão de Atos da poderosa UFRGS, para assistir a estréia de IVONE, PRINCESA DA BORGONHA, espetáculo com direção de Irion Nolasco sobre um texto do polonês Witold Gombrowicz (não vou ficar falando dele aqui, quem quiser que coloque o nome dele ou da peça no google que aparece uma montanha de páginas sobre o assunto, como dizia Hilda Hilst: Informe-se.). A peça foi encenada em comemoração à passagem dos 50 anos do Departamento de Arte Dramática da Ufrgs, criado "... por alunos do curso de Letras da Faculdade de Filosofia...", como ensina didaticamente o programa da peça. Pois, na minha singela opinião, o espetáculo sai completamente vencedor diante dos olhos da Reitoria, que é quem tem a chave do cofre que pode vir a patrocinar outras possíveis (e no mínimo anuais) montagens do DAD. Aliás, esta seria uma ação de extrema importância, já que qualquer (no bom sentido) oficina de teatro que se pretenda boa (TEPA, TERREIRA, DEPÓSITO) realiza uma (ou mais) montagens com seus alunos, e a poderosa UFRGS não faz isso há anos.Desde "Conto de Inverno" híbrido espetáculo infantil/juvenil/adulto encenado em 1996, passando pela apenas tímida colaboração em "Assassino" feito em parceria com a atriz e bailarina Alexandra Dias, eu não assistia um espetáculo cuja direção fosse assinada pelo professor Irion Nolasco, que agora desemcumbe-se satisfatoriamente, criando alguns belos momentos e efeitos de direção, alguns com criatividade, outros com experiência, dando-se ao luxo de enxertar outros textos do autor entre as cenas do texto principal, às vezes, modernamente, na forma coreográfica, tão em voga atualmente. Trabalhando com um elenco de jovens iniciantes a direção se sai positivamente vencedora porque apresenta uma concepção clara e realiza um espetáculo de fácil compreenssão, onde a trama nunca se perde e também por conseguir uma força e um resultado (com o perdão da linguagem) espetacular do elenco, que, diga-se de passagem, atravesse vitoriosamente a difícil tarefa que lhe é incumbida, ou seja falar todo aquele texto, no mínimo, abundante, que é obrigado a dizer. Mostra-se um elenco coeso e bem equalizado. Exatamente como diz no texto do blog do jornalista Felipe Vieira: "... o talento, o entusiamo e a disposição de 24 alunos..." No entanto, se observarmos individualmente, é claro que uns se saem melhor do que outros. O quarteto que protagoniza o espetáculo está muito bem em cena. Márcia Donadei empresta tamanha seriedade e profundidade no seu silêncio e consegue transmitir uma grave dimensão humana a sua personagem que nos coloca como em "A Roupa Nova do Rei" clássico infantil de Hans Christian Andersen. Di Machado, está bastante seguro e à vontade no papel de Príncipe Protagonista. Aproveita bem as situações e dá credibilidade a decisão inédita de casar com a feia proposta pelo autor. Não fosse tão longo e repetitivo seu texto, o que o coloca numa situação de tornar-se repetitivo também, estaria brilhando em cena. Talvez é o que venha a acontecer, se o espetáculo chegar a amadurecer apresentando-se mais do que meia dúzia de vezes. Meu amigo e quase meu ator, Herlon Holtz aparece com desenvoltura, voz bem colocada, disposição e disponibilidade corporal, demonstra um certo carisma, mas não chega a energizar o ambiente. O remédio pra isso é apresentar mais vezes o espetáculo e expandir sua energia em direção ao público. Rafaela Cassol, que conheço das festas do Depósito, está muito bem, sua composição da personagem, como se diz em teatro, a "sua rainha" existe. Leônidas Rubenich é vencido pela vaidade capilar e seu cabelo aparece mais do que ele em todas as cenas. Uma pena porque seu cabelo é bonito e ele tem uma bela energia e presença em cena, mas durante o espetáculo travam um combate sem vencedores. Os demais confundem-se na coesão de elenco e todos se defendem e cumprem eficazmente seus papéis.O figurino é um acerto, um golaço. Irion apostou e acertou em cheio quando escolheu a experientíssima Rô Cortinhas. Um arraso no cinema e no teatro. O cenário, além de ser bom pra viajar, é assinado pelo diretor em parceria com meu longinquo amigo Zau Figueiredo, então tem várias propostas de utilização esboçadas mas que não chegam a se concretizar, ainda estão "sujas". A Banda é boa, divertida. A iluminação do querido Bathista Freire é didática e parece, submetida pelo diretor. Consegue efeitos básicos no tecido e é eficiente para iluminar os atores.A questão que me coloco é responder porque cansei do espetáculo ao final do primeiro ato e durante um bom pedaço do segundo ato, chegando ao final, louco que terminasse, para que eu não perdesse a sensação de ter visto um bom espetáculo, e não ficasse com a impressão de ter assistido uma peça cansativa. E vejo que o que me chateou na peça foi um excesso de didatismo, um preciosismo acadêmico que impediu cortes profundos no texto. A decisão de fazer na íntegra deixa o espetáculo prolixo e, às vezes redundante, e obriga o público a ouvir várias vezes a mesma discussão. A mim, parece que o texto repassa e repisa os mesmos assuntos. Então, confesso que cheguei cansado ao final do segundo ato. Eu e os atores. E o também o público a minha volta, que olhava o relógio, preocupado com o ônibus, e se inquietava perceptivelmente nas cadeiras. E, pelo menos no meu caso, não é por uma questão de tempo ou de ônibus, pois adoro ficar assistindo. Mas, entendi que a idéia já estava compreendida, que todo elenco ja havia defendido bravamente suas posições, que o espetáculo ja havia mostrado a que vinha e, então, não pude deixar de pensar que deveria haver uns bons cortes naquele texto em benefício da comunicação do espetáculo com o público, mas logo percebi que este era um pensamento babaca, pois cada obra tem o seu tamanho, sua textura, seu tempo, suas cores para o bem e para o mal. Terá o diretor e o elenco e a equipe e o próprio espetáculo, como organismo vivo que é, se haverem com uma gorda "barriga" que aparece na peça lá pelas tantas. Mesmo assim eu faria cortes no texto em benefício do espetáculo, e para justificar cito o eterno contemporâneo Tadeusz Kantor: "O teatro não é um aparato de reproduzir literatura, o teatro possui sua própria realidade autônoma." Senti como se a peça, o público e os atores estivessem pedindo um pouco menos de texto.Contudo, o espetáculo tem a vitude de fazer com que o espectador não perceba que três longas horas se passam. Isto é ótimo, mesmo depois dos franceses terem nos obrigado a passar mais de seis horas naqueles bancos horríveis. Parabéns a todos. E, como não poderia faltar, um recado a UFRGS: o Reitor e seus assessores financeiros têm que entender que o teatro é um ser vivo, que deve ser apresentado um número máximo de vezes, exibido diante do público e confrontado pela platéia o mais de vezes possíveis, para que ele desabroche o demonstre diante dos nossos olhos a transformação de largarta em poderosa obra de arte. A Reitoria tem que compreender que deve bancar, no mínimo anualmente, a produção de um espetáculo, pois isso é fundamental para a formação dos atores e diretores que saem formados por esta instituição.Todo mundo deve assistir.
M.F. Porto Alegre, 24 de abril de 2008

CLOWNSSICOS, A MONTAGEM II



CLOWNSSICOS está de volta. Recauchutada (no bom sentido), a peça criada e dirigida por Daniela Carmona, que estreou em 2004, como espetáculo de final de curso do TEPA, retorna à cartaz em montagem profissional da Cia do Giro, com financiamento do Fumproarte. O enredo, clowns interpretam clássicos da dramaturgia universal, é raso, batido. Recurso muito usado no teatro e que aparece em diversas peças, como por exemplo, A Comédia dos Amantes, roteiro de Luís Arthur Nunes, dirigido por Oscar Simch. Daniela Carmona assina novamente o roteiro, adaptação e direção da encenação, além de atuar como uma espécie de protagonista, ou, conforme o seu clow, a que mais aparece. As adaptações das histórias clássicas buscam sempre o riso fácil, mas nem sempre são engraçadas, e utilizam em demasia a figura do narrador, o que prejudica o andamento da peça. Talvez os clowns de Daniela devem-se permanecer com "os temas "menores" que envolvem o riso" e daí fossem bem mais engraçados. O elenco tem três nomes fortes: a própria Daniela, Adriano Basegio e Arlete Cunha. Os outros são João Pedro Madureira, Léo Maciel e Larissa Sanguiné. O primeiro tem que se aplicar mais, muito mais. Os dois últimos, Léo e Larissa, eram formandos na montagem de 2004, e agora se esbaldam divertindo-se pra valer e arrancando bons momentos e risadas da platéia. São os melhores apesar de valerem-se durante todo o espetáculo das mesmas gags e dos mesmos truques. Léo tem uma impagável "cara de criança cagada". Minha honorável amiga Arlete Cunha está deslocada. Não rende e seu clown é o mais apagado da peça. Em geral achei a peça excessivamente gritada. Ou talvez, eu estivesse muito perto do palco. Logo me cansei do roteiro repetitivo e da marcação pobre da peça. Antônio Rabadan se sai melhor com os figurinos do que com o cenário que é apenas uma prática, bonita e alegre ambientação para o espetáculo. A cena de tecido é desnecessária. Assim como achei extremamente desnecessário e gratuito aquele final surpreendente. Confesso que não entendi. Pra quê? Desafiar as estruturas? Romper com a quarta parede? Chocar o público?Enfim, é um espetáculo honesto, onde aparecem: uma entrega dos atores durante todo espetáculo; uma tentativa de realizar uma comédia acima da média portoalegrense; e sem dúvida, uma vontade intensa de fazer teatro. Parabéns a todos.
M.F.

MAIÊUTICA NO ARENA

Maiêutica[Do gr. maieutiké (téchne).]Substantivo feminino 1.Processo dialético e pedagógico socrático, em que se multiplicam as perguntas a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto em questão. [Cf. ironia socrática.] 2.Obst. V. obstetrícia. (Dicionário Aurélio)

Guadalupe Casal e Maíra Prates, duas jovens atrizes, sob orientação de Maico Silveira, estão em carta em cartaz no Teatro de Arena com MAIÊUTICA. Uma peça curta que pretende explorar "as divergências da relação mãe e filha num passeio poético guiado pela infância", conforme pode ser lido no delicado programa do espetáculo.As duas atrizes são também as responsáveis pela dramaturgia, que, na minha opinião é o ponto fraco da peça, já que os textos selecionados e/ou a junção deles, não oferece um crescimento, um desenvolvimento progressivo nas idéias que o espetáculo pretende dialogar com o espectador. Não oferece também maiores dificuldades para a interpretação das atrizes. Passeios pelo universo feminino são tão abundantes no teatro quanto as chamadas peças de casal. Ou se encontra, dramaturgicamente, uma idéia com um quê de originalidade ou com textos que aprofundem esta discussão ou se cai na mesmice das coisas já faladas.A encenação, como tantas outras, conta com poucos recursos, e opta por trabalhar apenas com alguns elementos de cena. O figurino assinado por Guadalupe Casal é apenas funcional. A iluminação, criada por Carol Zimmer, não acrescenta nada, não acentua climas, não vai além de iluminar a cena. Como o diretor não se assume como tal, e chama-se apenas de orientador cênico, não se pode comentar a direção. "Orientação" me parece um eufemismo para não assumir o compromisso com a real direção de uma peça, e também para dividir a responsabilidade com os atores. No caso, as atrizes.As duas interprétes se mostraram excessivamente tímidas. Talvez por tratar-se da estréia. Com certeza, com a repetição das apresentações, elas irão fortalecendo suas interpretações. Gaudalupe Casal se mostra mais expressiva e apresenta mais nuances quando das acontecem mudanças de idade e de situação. Maíra Prates aparece melhor como criança do que como adulta ou uma mulher solitária mãe de uma adolescente. Transita com demasiada semelhança pelas direfentes fases solicitadas pelo texto.O resultado é uma peça que não empolga, que carece de criatividade, de aprofundamento interpretativo, de direção e de uma dramaturgia mais sólida e, com a simplicidade de um risco de giz traçar um espetáculo com uma teatralidade mais exuberante.
M.F.

BABEL GENET

Pois eu estava na concorridíssima estréia de BABEL GENET no Teatro Renascença. A peça, dirigida por Humberto Vieira, é sua reentrée na cena portoalegrense depois de longa e voluntária ausência desde o seu longinqüo Viagem ao Centro da Terra e sua encenação de Memory Motel. O primeiro vi no Teatro de Câmara com Renato Campão e o segundo no Renascença, com a Adriane Mottola e Zé Adão Barbosa. O primeiro continha textos do Marquês de Sade, e o segundo Charles Bukowski. Coerente com esta trajetória, Humberto coloca em cena agora sua visão de Jean Genet.
Num espetáculo confuso e irregular, o que mais me agradou foi o coro. Os medalhões do elenco estavam cheios de displicência e pareciam não ter se dedicado com profundidade nos ensaios. Senti-me, às vezes, constrangido ao ver a atuação de João Pedro Gil. Ficava imaginando seus alunos do DAD/UFRGS vendo o professor se utilizado de truques primáriosno desempenho de seu papel. Mirna Spritzer, excelente atriz, uma das melhores a cidade, não é um travesti nem na China e muito menos no palco do Renascença. Adriane Mottola, tarimbada, que fazia parte do elenco de Memory Motel, não convence. Jezebel de Carli completamente desconfortável. Humberto perdeu as rédeas. Era mesmo uma babel, mas tinha muito pouco de Genet e quase nada da marginalidade,liminalidade e exclusão divulgadas no release do espetáculo.
M.F.


MAIS UM SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO



Quando as cortinas do Teatro Renascença se abrem e surgem os primeiros sons, e inicia-se a cena de abertura desta nova montagem de O SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO, dirigida a quatro mãos por Daniela Carmona e Adriano Basegio, tem-se a maravilhosa impressão de que participaremos de um espetáculo inesquecível. A abertura é simplesmente primorosa em todos os seus elementos cênicos e prenuncia a magia e encantamento que se irradiarão do grande carvalho da floresta em direção a platéia. Muito acertadamente a dupla de diretores aposta na fábula como centro da concepção do espetáculo e como diz o jornalista Renato Mendonça, é "impossível você não se sentir imerso em um ambiente de sonho, perdido (ou achado) em uma floresta".
O crítico literário Harold Bloom diz que Shakespeare escreveu esta obra "provavelmente, sob encomenda, para homenagear um casamento entre nobres" e segue afirmando que trata-se, sem dúvida, de sua primeira obra-prima, perfeita, uma de suas peças que apresentam força e originalidade admiráveis". Do alto da minha ignorância, me permito discordar do professor Bloom. Se pensarmos em termos de análise literária são inegáveis e perceptíveis os méritos estilísticos do texto e indiscutível a genialidade do autor inglês. Mas, colocando-me apenas como um mero espectador que recebe uma encenação do texto em pleno século XXI, fica difícil não ver no texto a ingenuidade de uma novela das sete e uma excessiva falação literária associada a uma repetição de idéias manjadas.
Peço antecipadas desculpas por traçar, às vezes, comparações entre esta montagem e aquela realizada pela diretora Patrícia Fagundes, mas devido a proximidade temporal de uma com a outra isto trona-se inevitável, e acredito que não há espectador que tenha visto as duas peças, que não faça semelhante analogia entre os dois espetáculos. Tudo isso para dizer que Antonio Rabadan, bem ao contrário dos elementos do outro "Sonho...", desta vez acerta em cheio na concepção visual do espetáculo. Cenário e figurino contribuem tremendamente para fundamentar a concepção dos diretores. As peças do figurino são, separadamente pequenas obras de arte, e no conjunto compõem a atmosfera perfeita para o enlevo da platéia. O cenário que em Clowssicos era apenas prático, aqui transforma-se nos diversos ambientes sem perder a magia e sem deixar de exercer sua força. Todos estes elogios também devem ser estendidos para a acertadíssima trilha sonora que tem nada mais, nada menos que o nome excelente músico Fábio Mentz. O tarimbado iluminador Fernando Ochôa, na minha opinião, poderia ter concebido uma luz ainda mais apurada para o espetáculo, não se limitando a fazer uma luz apenas bonita e eficiente. Não que eu ache que a luz tenha que aparecer, mas diante soa outros elementos do espetáculo, me parece que a iluminação não brilha como poderia. Mas sei que a luz depende de equipamentos, por isso sou sempre cuidadoso ao falar deste assunto.
A dupla de diretores, como ja disse, acerta na concepção onírica, silvestre e um tanto lasciva, mas descuida da direção dos atores quando permite que as interpretações sejam bastante irregulares. O ritmo do espetáculo vai caindo ao decorrer do tempo junto com o interesse do público, tanto por causa do longo texto, quanto pela ausência de novos estímulos cênicos e cômicos e pela carência de variações nos ritmos da peça. Ao contrário do "Sonho..." da Patrícia, que investia muito mais na comicidade, aqui a parte cômica fica relegada somente a algumas personagens ou núcleos de personagens, e isto resulta em mais lirismo e romantismo e em menos comédia.
No elenco vale destacar positivamente a presença viva e simpática de Adriano Basegio como Puck; da minha queridíssima super atriz Arlete Cunha, em plena forma, que, como diz Renato Mendonça, "resplandece" no papel de Novelo e a jovem Fernanda Nascimento, que empresta carisma e chama atenção para sua fada. O excelente ator Álvaro Rosacosta se apresenta acomodado, exercendo o que eu chamo de interpretação apenas correta e protocolar. Saudade daquele Álvaro do Beijo no Asfalto.
Assim, apesar de um pouco cansativo na sua última meia hora, este "Sonho numa Noite de Verão" tem méritos suficientes para encantar os espectadores e a Cia. do Giro merece mais uma vez os sinceros aplausos por mais esta criação.
M.F.