
Algumas idéias e ações foram pensadas para denunciar à opinião pública os porquês de tão repentina decisão. A simples razão do silêncio é que o grupo teme represálias. Imaginem um grupo de artistas se cala porque teme represálias do poder público. É quase pior do que a censura.
Em que pese este temor, vários são os acontecimentos que podem ser apontados como causadores da dissolução do grupo e entrega dos prédios aos seus proprietários. Sim, o Depósito de Teatro era inquilino. Não era o proprietário nem do espaço da Benjanim, tampouco do da Câncio. Pode-se começar citando a audácia e pretensão do grupo em vislumbrar a criação de um centro multicultural numa região da cidade absolutamente carente de recursos e horizontes, formada, principalmente, por papeleiros e sub-empregados em geral, na sua maioria com baixíssimo nível de instrução escolar ou analfabetos; sem nenhuma possibilidade de acesso e expressão cultural; uma zona insegura, empobrecida e decadente da cidade. Contrariando todas as regras de mercado e previsões marketeiras, o grupo trocou a Av. Benjamin Constant por um novo endereço onde impera o descaso e o abandono, tanto do poder público quanto dos empresários reclamões da área.
Outros pontos que devem ser apresentados como determinantes neste ato de pendurar as luvas e abandonar o ringue, dizem respeito justamente a dinâmica e o comportamento dos membros da Associação Cultural, que manteve, ao longo destes dez anos, uma atitude bastante relapsa em relação a questões de crucial importância na gerência de um empreendimento cultural. Inaptidão administrartiva; despaixão pela contabilidade; a insuportabilidade do peso asfixiante da burocracia imposta à cultura; inedaquação para gerenciar um empredimento cultural; comportamento relapso diante de questões chave na administração de uma empresa do setor cultural (que é o que somos obrigados a ser); comportamento relapso e pusilânime em relação ao gerenciamento cotidiano e profissional do grupo e do espaço.
Mas, a frente de todos estes motivos, dois se destacaram e decretaram a impossibilidade total de continuidade. Dois principais motivos minaram até a raiz mais profunda a resistência, o prazer e a crença na luta cultural que o grupo sempre manteve: a atitude injusta, arbitrária, imoral e autoritária da Funarte que à revelia de todas as provas apresentadas e desconhecendo o excelente histórico do grupo, penalizou a Associação não só, a devolver a quantia de trinta e quatro mil reais (mais ou menos o mesmo valor de que foram vítima comprovada pela justiça de um roubo praticado por sua produtora), e além disso simplesmente diz que o grupo perdeu o direito a outros 180 mil reais a que a Associação fez jus licitamente em dois outros editais promulgados e definidos pela referida entidade. Mas, sobre isso quero falar mais extensamente outro dia. Hoje quero tratar do outro motivo: a Prefeitura de Porto Alegre, administração José Fogaça.
Artista, intelectual, homem de visão, democrata, ora num partido, ora noutro, José Fogaça recebeu solenemente a diretoria da Associação em seu gabinete de audiências da Prefeitura. Na ocasião o grupo lhe apresentou o Projeto Entorno Solidário, que resumidamente propõe uma série de ações artístico-culturais-profissionalizantes no entorno da sede, em troca de uma verba que seria investida na manutenção do grupo e do espaço. O próprio grupo se encarregou de indicar ao prefeito a fonte desta despesa: o PIEC - PROGRAMA INTEGRADO ENTRADA DA CIDADE, que prevê em seus estatutos que sejam apoiadas financeiramente idéias e projetos de natureza cultural. O dinheiro existe e vem do Banco Mundial. Ou seja não sai um centavo dos cofres municipais e a cidade ainda ganha um centro cultural descentralizado cuja proposta é encarar o "trabalho sujo" que vem sendo feito justamente por ONGs e outros artistas kamikases. Era o negócio da China. O prefeito ficou encantado com o projeto. Ordenou imediatamente que seus assessores tomassem todas as providências cabíveis. Resultado: passados quase um ano e oito meses o projeto continua(?) tramitando pela Prefeitura. Passados uma ano e oito meses o grupo vinha sendo suavemente enrolado pela amabilidade e simpatia da Secretaria Municipal da Cultura que tentava débil e suavemente pressionar a liberação da verba.
Falta de visão do Fogaça? Ele estava mentindo e enganando descaradamente o grupo? Ou foi preguiça e falta de visão dos seus comandados? O dinheiro foi usado para outra coisa? Como vão prestar contas da parte do dinheiro que deveria ser aplicado em projetos da área cultural? Incógnitas não explicadas.
O resultado é que por BURRICE, DESCASO ou MÁ GESTÃO DE VERBA, a cidade de Porto Alegre perdeu a oportunidade de implantar um projeto que poderia ser piloto na área cultural, além de perder um espaço cultural maravilhoso numa área de risco.
LEIA NO PRÓXIMO NÚMERO = OUTROS CAUSADORES DA MORTE DO DEPÓSITO DE TEATRO.
*Jornal do Comércio RS, 05 de agosto de 2005.
Foto: Kiran
Aparecem na foto: Os Três Patetas (Maria Falkembach, Sandra Possani, Roberto Oliveira) e José Fogaça.