segunda-feira, 23 de julho de 2007

Sobre a arte de escrever.


Faz sete dias que não escrevo neste meu blog. Sempre penso que vou escrever todos os dias, mas nunca consigo fazer isso. Às vezes acontece que não tenho tempo pra escrever, às vezes não tenho o quê escrever na hora que posso, às vezes acho que tenho o que escrever mas não estou aqui, na frente do computador. E acontece também de estar aqui e ter tempo para escrever e não ter uma mísera idéia sobre o quê escrever. Só quem escreve é que sabe como é difícil escrever. Escrever bem , então... A literatura é uma arte no mínimo escorregadia. Ja me aventurei por todos os caminhos literários quase sempre sem sucesso. Continuo tentando. Pior mesmo são aqueles casos de autores que ficam a vida inteira repetindo-se mediocremente e juram que são ótimos. No teatro, tem vários. Se escrever é díficil, escrever para teatro é cruel. O autor pode até enganar o seu leitor, mas não engana o espectador. Além disso, quem nasceu pra Bortolotto, pode até enganar imitando Bukowski, mas nunca vai ser um. Quem nasceu pra cópia, nunca chega no original.

sábado, 14 de julho de 2007

Revendo velhos conceitos sobre Porto Alegre.


Eu penso que existem "interésses", como diria o nosso Brizola, que pretendem amarrar Porto Alegre ao passado e ao provincianismo. Pretendem atrelar Porto Alegre ao titulo de "carroça". Trata-se de uma deslavada mentira. Porto Alegre não e mais, nem de longe, aquela cidadezinha tosca e interiorana que ficava localizada no extremo sul, no cú do Brasil.
Porto Alegre é a cidade da Restinga, do Lami, lá na extrema Zona Sul até a Nova Gleba, a Wenceslau Fontoura, lá nos cofins da Zona Norte, divisa com Alvorada. Com certeza, hoje, são raríssimos os portoalegrenses que conhecem toda Porto Alegre. A cidade se emancipou totalmente a partir do momento que recebeu o Fórum Social Mundial. Ganhou ares cosmopolitas. Ficou famosa no mundo inteiro.
Incutir a idéia de que a cidade ainda é pequena, interiorana, atrasada, é trabalhar pela manutenção de ideais elitistas, tacanhos e, estes sim, atrasados, retrógrados, que almejam preservar ad infinitum os privilégios, as prerrogativas e as imunidades que os ideólogos do provincianismo portoalegrense desfrutam desde os tempos da fundação da cidade.
Um olhar mais detido pela cidade, revelará que Porto Alegre é uma metrópole, que a cidade se desenvolveu tremendamente nos últimos 25 anos. É um fato. É inexorável.

CÃO SEM DONO



de repente, quando eu menos esperava, fui convidado pra fazer o cão sem dono. que bela experiência de vida. que bela experiência de filmar. que grandes parceiros e profissionais o beto e o renato. que sintonia. que respeito rolava entre os dois. que delicadeza no trato com os atores. que maravilhosa certeza à respeito daquilo que queriam. direção certeira com mãos de veludo. bacana. e eu estava lá. tive a sorte de integrar a ficha técnica do filme. o julhinho está total. entregue. do caralho. o galera é um puta escritor, aliás quem não leu "mãos de cavalo" está perdendo um livro excelente do começo ao fim. e a mina? a tayná. que linda. que solta ela está no filme. a primeira vez que atua. que talento. eu fiquei absolutamente feliz de ter participado do filme. longa vida para o nosso cão sem dono. longa vida para beto brant e renato ciasca.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

HOJE TEM BAGASEXTA


Hoje é noite de Bagasexta. Hoje é sexta-feira, treze, e é dia de BAGASEXTA TPM. Faz quase cinco anos que repetimos mensalmente este espetáculo, um show de variedades ambientado num bar e que acontece no meio de uma festa que reúne tipos de todas as tribos. Antigamente, acontecia de quinze em quinze dias. Como a festa transformou-se em festa temática a partir da segunda edição, a gente quase morria pra produzir e apresentar o show duas vezes por mês. Nem bem a gente se recuperava de uma Basgasexta, ja tinha que começar a produzir a seguinte. Era um trabalho anormal.
Teve a Bagasexta do Depósito da Benjamin. Depois teve a fase Sunga que mudou de nome e virou Cine Theatro Ypiranga, cheio de "h" e de "y". E agora estamos na fase do novo Depósito.
Na Benjamin, era o momento da invenção. Muitos artistas compareciam. Tinha fila. Era apertado e a Bagasexta ficou famosa. Saiu na Zero e tudo. No Sunga, virou meio gls, mudou de público. Mudou de Sunga pra Cine Theatro e mudou de público de novo. Agora, voltou pro Depósito, espaço maior e está se ambientando. Mas ja deu pra ver que os artistas voltaram. Voltaram os colegas. Tem um público legal. Gente bacana.
Atualmente estamos numa fase, no mínimo, conturbada, já que dois atores do elenco estão tentando a vida no Rio de Janeiro e estão cada vez menos conosco. A parte de criação fica bastante prejudicada. E a atuação também, ja que nem sempre eles estão com a gente e então toda aquela empolgação e química de grupo se perde. A festa perde com isso.
Mas... c'ést la vie, como dizem os franceses.
Escrachamos o humor, detonamos o bom mocismo, radicalizamos a comédia, expomos o nosso rídiculo e o dos outros, desrespeitamos o politicamente correto em nome da risada e do enlouquecimento do cidadão, estimulamos o uso da altas doses de prazer no corpo e nas relações, provocamos o desnudamento do ator e do público. Isso é a Bagasexta. Isso, pra mim, é a Bagasexta.
Logo que a Baga firmou-se como um sucesso, a gente pode notar o surgimento do efeito inveja. Parece mentira, mas a Bagasexta suscita inveja em algumas pessoas da dita classe teatral. A "crasse" não perdoa o sucesso. Claro que não é só com a Bagasexta que isso acontece. É bem coisa de Porto Alegre. Aqui, a coisa funciona assim. Mas, com ou sem inveja, a caravana passa e nós passarinhos.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Reflexões sobre a velhice.


Minha cabeça está cheia de coisas. Sempre cheia de coisas. Minha mãe está no hospital. Ela e mais quatro outras senhoras, outras quatro mulheres velhas num hospital cheio de outras pessoas velhas e doentes. É difícil circular pelo hospital sem pensar no meu futuro. Meu futuro sempre me dá o maior medo. Não gostaria de me ver no lugar de minha mãe. Olho pra ela e sinto pena. Ela me parece tão criança... tão desamparada. Hoje ela disse: "É..." e parou. Não formulou o resto do pensamento. Perguntei-lhe o que era e me disse: "Tantas coisas..." e não me disse mais nada. Fiquei pensando que coisas ela teria na cabeça? E olhei pras outras velhas. E pensei qual o sentido da velhice? Pra quê? Talvez em algum momento passado os velhos tivessem algo a ver com sabedoria e pudessem dar conselhos sobre as coisas da vida. Então a velhice teria algum significado. Hoje, a gente tem que procurar muito antes de encontrar algum velho que tenha em si algum resquício de alguma sabedoria ou conhecimento sobre a vida que ele possa e/ou se disponha a passar aos mais jovens. O que mais se vê na velhice é a mágoa. Uma amargura que turva os olhos e os sentidos e faz com que o velho seja apenas um chato esperando a morte. E quando eu ficar velho? Como será o mundo quando eu ficar velho? Quando eu serei velho? Com sessenta anos? Com setenta? Que outras vantagens, além de não pagar passagens de ônibus, eu terei quando ficar velho? Ficarei mais perto da morte. ficarei mais perto da decadência, das doenças, da decrepitude. Pena, mas não consigo enxergar ganhos na velhice. Agora, apenas observo tudo isso com temor. Parece-me tão sem sentido. Tão cruel com o ser humano. Saber que vai morrer sem saber quando é o guiness de crueldade. Envelhecer é, com certeza, o segundo lugar. A pele enrugada, os músculos flácidos, as dores no corpo, as falhas da memória, a proximidade da morte, a dificuldade de respirar, locomover-se, viver, em suma. Pra quê?

terça-feira, 10 de julho de 2007

VIVA A CHORADEIRA PANFLETÁRIA

Num momento qualquer da história bem moderna inventou-se o panfletarismo e de repente tudo virou panfletário. Fazer campanha contra ou a favor de qualquer coisa é panfletário. Manifestações em geral é panfletário. Piquete é completamente panfletário. Entregar panfletos é panfletário. Acho que isso começou um pouco antes do “politicamente correto”. Atualmente com o Big Bush mandando bala, voltou à moda falar mal do Tio Sam, mas sempre tem que tomar cuidado pra não ser chamado de panfletário.
No teatro é exatamente a mesma coisa. Só muda o rótulo: choradeira. Qualquer coisa que se reclame é choradeira. Não se pode reclamar. Não se deve reclamar de nada ou logo se ouve: “- Começou a choradeira”. Quando alguém pergunta como vai a situação do teatro local, a gente, que é de teatro, já pede desculpa antes de começar a falar rezando para que o interlocutor não vá pensar que se trata de mais uma crise de “choradeira”.
Mas cá entre nós, a situação está péssima. E chamem do que quiserem.
Deixar de fazer uma denúncia social ou política apenas porque ela vai ser tachada de panfletária é acreditar no imobilismo. Deixar de enumerar os eternos problemas do teatro gaúcho apenas por que vão dizer que é “choradeira”, é tapar o sol com a peneira. Apenas por exercício especulativo: a “choradeira” da classe teatral não seria, eventualmente, porque os “eternos problemas do teatro local” continuam, há mais de quinze anos sendo eternos? Não seria porque estes renitentes problemas não estão sendo atacados por aqueles que ocupam cargos e têm a responsabilidade pública de fazer alguma coisa a respeito?
O que nós, artistas de teatro, devemos fazer? Devemos calar? Sorrir muito? Parecer felizes? Exemplo 1: A secretaria de estado da cultura afogada em dívidas herdadas da administração anterior, que as herdou da administração anterior, que herdou da outra que veio antes, ainda não pagou integralmente o prêmio de incentivo às artes cênicas de 2002, não colocou o edital em 2003, nem 2004. Instaurou um prêmio para 2005/06, depois voltou atrás e retirou-o do ar, mesmo ja tendo grupos inscritos. A LIC, desde sua criação atende muito mais aos grandes projetos do que a produção teatral “formiguinha”representada pelos espetáculos que fazem a vida cultural da cidade. O que significa para um empresário o meu projeto quando ele concorre com o mega Porto Alegre em Cena? Com o glamuroso Festival de Gramado? Com a super OPUS e sua corrente de patrocinadores? Onde está o fundo de apoio à cultura?
Exemplo 2: Em três ocasiões diferentes entreguei para três coordenadores de artes cênicas diferentes (a pedido deles) e para dois secretários municipais de cultura diferentes (que não pediram) um documento apontando problemas crônicos, estruturais e necessidades do teatro local. Se na próxima administração da mesma secretaria porventura me pedirem posso apenas imprimir novamente o mesmo documento (como fiz em cada uma destas vezes anteriores) e entrega-lo mais uma vez porque ele continua(rá) atualíssimo.
A ordem na classe teatral parece ser cada um cuidar da sua vida isoladamente, parar com a ”choradeira”, continuar produzindo e procurar resolver os problemas.
Achamos mesmo isso? Ou entendemos que muitos destes problemas não deveriam ser tratados por nós? Nós é que devemos desenvolver soluções que deveriam ser pensadas, planejadas e exercidas por outras pessoas que foram eleitas ou designadas para cuidarem disso? Pessoas que se escudam na desculpa da faltas de verbas para ficarem com suas bundas magras ou gordas ou flácidas ou empinadas enfiadas em cadeiras confortáveis esperando que a gente resolva o que eles deviriam resolver. Será que a gente reclama porque é chorão ou porque simplesmente as coisas não são mesmo feitas?
Grandes tacadas federais como passar o pires na Itália buscando dinheiro para restaurar prédios da colonização italiana no interior do Rio Grande do Sul, ou uma campanha para trazer para Porto Alegre um Centro Cultural do Banco do Brasil, são iniciativas louváveis na sua essência, mas e o dia a dia? E a produção teatral? A infraestrutura? A distribuição de espetáculos? A manutenção de grupos estáveis?
Por tudo isso, inflamado por este ataque de chorão e panfletário, lanço a convocação: CHORÕES E PANFLETÁRIOS DO MUNDO DO TEATRO, UNI-VOS. NÃO DÁ MAIS PARA SUPORTAR CALADO TANTO DESCASO! POR UMA POLÍTICA CULTURAL CLARA E EFICIENTE! POR APOIO A PRODUÇÃO TEATRAL! MAIS VERBAS PARA O TEATRO!

EU INVENTEI DE SEGUIR A MULHER - outro pequeno conto

Eu inventei de seguir a mulher. Eu tava de bobeira e inventei de seguir a mulher. Não que eu seja tarado. Mas não tinha nada pra fazer e pensei que ela ia ficar muito assustada. Eu não tinha que seguir a mulher, mas eu segui. Achei que seria no mínimo engraçado me fingir de maníaco que segue alguém. Fiz uma cara de quem está muito afim de sacanear alguém e fiquei seguindo ela desde que desceu do ônibus. Enterrei o gorro na cabeça, meti as duas mãos nos bolsos e segui a mulher. Ora me aproxima, ora deixava ela se distanciar um pouco. Respirava alto como imaginava que era a respiração de um tarado e falava bem baixinho as coisas mais escrotas que eu conseguia imaginar. Só dizia merda. Só pensava merda. Quanto mais merda eu falava mais merda eu tinha pra dizer. Ela apressou o passo. Pronto. Desconfiou. Sentiu que eu era perigoso e que tava querendo aprontar pra cima dela. Olhou pra trás de canto de olho pra verificar não sei o quê, como se adiantasse dar uma olhada rápida pra contabilizar as chances de escapar. Ela tava fudida. Tava escuro pra caralho. Frio pra caralho. Não tinha um puto na rua. Tava todo mundo socado nas suas casas vendo uma merda de programa de televisão qualquer. Comecei a me sentir mais perigoso. Comecei a gostar da sacanagem. Ela estava cada vez com mais medo de mim. Caralho, nunca imaginei alguém com medo de mim. Na real, eu é que sempre tive medo dos outros. Eu que me sentia sempre por baixo. Sempre com medo de apanhar. De levar mijada. De levar um pé na bunda. E agora aquela vagabunda, bunda grande, tava ficando apavorada comigo. Só com a minha presença. Com a minha respiração de tarado. A mulher não era grande. Só a bunda dela é que era grande. Ela era média. Gostosinha. Não vi a cara dela, mas olhando assim, de trás, parecia uma putinha indo pra casa depois de sair do trabalho de balconista ou qualquer outra merda e ter se encontrado com o namorado guri de xerox e se esfregado bastante com ele até ficar com a buceta molhada... Vagabunda... tu merecia morrer, sua puta, filha duma puta, bunduda... tu deve ter uma buceta boa de meter o cacete bem duro... eu vou te pegar piranha e vou te fuder essa buceta e esbagaçar o teu cú sujo e fedorento... E eu tava pensando essas coisas e falando uns troços assim e cada vez mais gostando do meu personagem, cada vez mais me sentindo, me achando, e ela andando bem rápido quase correndo devagar, quando surgiu um cara correndo com um baita dum berro na mão esquerda e parou na frente da mulher e disse gritando e chorando com uma cara de louco desesperado: “já que tu não quer ser minha, Valquíria, tu não vai ser de mais ninguém” e deu três tiros à queima-roupa na cara da Valquíria e em seguida olhou pra mim e perguntou desvairado: “tu que é o novo cara dela? Tu que roubou a Valquíria de mim? Filho da puta...” e atirou duas vezes. Eu caí sobre meus joelhos e fiquei ali, no meio da calçada, ajoelhado, tentando perceber onde ele tinha acertado, onde doía e de onde saía tanto sangue, vi quando ele botou a arma na boca. Vi quando ele puxou o gatilho. Vi quando ele caiu pra trás. E não vi mais nada. Só me lembro de ter pensado que fui eu que inventei de seguir a mulher. E não vi nem a cara da Valquíria.

UM POUCO DE PINTURAABEL - um desenho antigo

BABEL - Um desenho antigo.
Uma ilustração para um conto chamado Babel que nunca cheguei a escrever, mas quem sabe um dia...
M.F.

UM POUCO DE LITERATURA - CONTO

EU VI UMA BARATA SAINDO DO BUEIRO
Eu vi uma barata saindo do bueiro. Eu vi um monte de baratas saindo de um bueiro. Não. Eu sonhei com baratas saindo do bueiro. Eram muitas baratas saindo de um bueiro. Mas isso era um sonho. O que eu vi mesmo foi a cabeça. Uma cabeça ao lado do bueiro. Cara, eu vi uma cabeça. Parecia que a cabeça tinha sido... Eu não acreditava. Olhava pra cabeça e pensava que não podia ser uma cabeça aquele volume escuro atirado ao lado do bueiro. Mas era uma cabeça. De homem. Toda ensangüentada. E parecia que tinha mesmo sido arrancada. Arrancada, cara. A cabeça foi arrancada e atirada perto do bueiro. Quem atirou deve ter pensado que a cabeça iria rolar pra dentro do bueiro, mas ela parou ao lado do bueiro. E eu ia só atravessando a rua. Tinha acabado de comer um xis. Tava voltando pra casa. Pra quê que eu tenho que ver uma cabeça? Quase vomitei em cima da cabeça. Vomitei nas baratas. Mas isso foi no sonho. Na real, não tinha baratas. Tinha um olho meio que saindo pra fora da cabeça. Eu tive um acesso de curiosidade mórbida e quanto mais não queria olhar aquele troço mais olhava e procurava detalhes, procurava reunir os pedaços de cérebro espalhados. De dentro do ouvido saia uma gosma branco-esverdeada que eu não soube definir o que era. Impossível saber a idade da cabeça. Era homem por causa do cabelo com corte de cabelo de homem mas também poderia ser uma sapata. A cabeça de uma sapata foi arrancada por um cara que perdeu a mulher pra sapata. O cara jogou a cabeça de dentro do carro pra ela cair dentro do bueiro e a maldita cabeça da maldita sapata parou na beira do bueiro. E não caiu. E quando ele (o cara) estava dando uma ré pra empurrar a cabeça da sapata pra dentro do bueiro, percebeu que vinha gente, que era eu e caiu fora. E eu encontrei a cabeça. Mas era tudo viagem. Não tinha carro nenhum na rua. Só eu e a cabeça e era uma cabeça de homem. Ta... não sei porque eu acho que é de homem, mas eu olho e SEI que é uma cabeça de homem. Amassada, ensangüentada, completamente avariada, esmagada na frente, partida atrás, uma massa disforme de cores variadas, uma cabeça de homem. Faço o quê? Chamo os homem? Chamo os bombeiros? A SAMU não adianta mais. Procuro o corpo pelas redondezas. Só com os olhos porque eu é que não ia sair dando uma banda e procurando o corpo da cabeça arrancada. Procuro o corpo aguçando os olhos naquelas bocadas tão mau iluminadas. Não via nada. Nada parecido com um corpo num raio de duzentos, trezentos metros. Então era só uma cabeça sem corpo. Pensei no Frankenstein e viajei que podia ser uma cabeça que alguém estava trazendo do cemitério. Podia ser um carregamento de cabeças dentro de um caminhão. Todas essas cabeças seriam usadas para criar um batalhão de frankesntein que seriam treinados pelos americanos para destruírem o irã e o iraque e todos os palestinos, judeus, libaneses, e todo aquele povo que arma há quinhentos anos aquele barraco lá no oriente médio. Acontece, que o motorista do caminhão dormiu na direção, meio que subiu no cordão da calçada, a motora acordou, o caminhão deu uma forte chacoalhada, a cabeça caiu pra fora da lona, ainda deu tempo das rodas de trás do caminhão passarem por cima da cabeça que deu azar, quer dizer, azar duplo, porque além de ser uma cabeça morta, ainda caiu da carroceria do caminhão, bateu no muro e rolou pra perto do cordão da calçada bem há tempo de ser esfacelada pelas rodas traseiras do veículo. E o motorista ainda se recuperando do susto, sentiu mais um pequeno tranco nas rodas traseiras como se tivesse passado por um pequeno quebra-molas, ainda olhou pelo espelho mas não viu a porra da cabeça que rodopiou sobre si mesma espalhando um pouco de gosma e miolos e quase caiu no bueiro ao seu lado. Que viagem! Sem saber bem por que, sem saber o que se faz numa situação dessas porque eu nunca tinha visto uma cabeça na beira de um bueiro, porque eu nunca vi num filme um cara enfrentando uma situação semelhante, sem saber por que eu fiz exatamente aquilo, me afastei, olhei pro estádio do Beira-Rio completamente lotado, enxerguei o goleiro, olhei pro juiz e de novo nos olhos do goleiro, nunca que ele saberia pra onde eu ia chutar, eu já havia escolhido o canto, corri pra cabeça, e emendei um chutão de peito de pé que pegou bonito, pegou em cheio e sem piedade, o goleiro se atirou inteiro, bonitaço, esticado pro lado direito, enquanto eu engavetava um golaço no canto esquerdo, a meia altura, mandando a cabeça pro fundo daquele bueiro e marcando o gol que deu a vitória e o bi campeonato mundial para o Inter.
Modesto Fortuna