sexta-feira, 7 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO - QUARTO DIA

Quarto dia de encontro, terceiro encontro matinal com a plenária reunida. Quinze grupos de outros estados e alguns grupos paulistanos - na abertura se falou em 60, mas na prática devem ter cinco ou seis participando efetivamente - reunidos para uma manhã de resoluções e encaminhamentos. Afora duas ou três idéias anotadas, não conseguimos chegar a nenhuma conclusão ou proposta de ação, mobilização, articulação de qualquer espécie. Sintomático. Parece que preferimos reclamar e ter sempre do que reclamar, reclamar da curadoria do encontro, do patrocinador do encontro, resmungar, choramingar, ao invés de buscar objetivamente possíveis soluções para o problema. Simplesmente não conseguimos. Vários colegas expressaram sua avaliação do encontro em São Paulo. Pontos negativos foram levantados e repassados e repassados. Propostas passaram várias vezes pela roda e não criaram eco.
As propostas de encaminhamentos deveriam atender a quatro grandes temas ou questões apontadas pelos grupos, durante os dois encontros matinais anteriores, como "as quatro mais" do Próximo Ato - Etapa São Paulo:
1. Diálogo com a sociedade.
2. Políticas públicas de financiamento do teatro.
3. Compartilhamento e crítica estética entre grupos.
4. Repertório e políticas vigentes de programação.
Talvez, se pensassemos em duas ações para cada uma das quatro questões, conseguíssemos apontar mais do que as duas a que, depois de mais de duas horas de reunião, chegamos:
1. Alimentar um blog com links para os quatro temas. O que contempla os quatro itens.
2. Intervir na dinâmica dos festivais criando momentos de encontros dos grupos. Que contempla somente a 'questão número 4.
E o diálogo com a sociedade? Nenhuma idéia?
E sobre as políticas públicas?
amanhã teremos mais uma rodada de duas horas para tentar novamente chegar a mais alguns encaminhamentos.
De tarde, o último encontro com Erika Fischer-Lichte, onde ela projetou trechos de peças do grupo alemão Murx - visto num PoA em Cena - e analisou cirurgica e brilhantemente cada uma das peças. Depois os produtores ingleses David Jubb e David Micklem ministraram uma dinâmica chamada Playgrounding, um minicurso que é um processo de improvisação arquitetônica. Coisa pra inglês ver. A realidade dos caras é muito distante da nossa, mas também lá, cultura é a primeira coisa que se corta quando aparece a palavra crise.
Noite: duas palestras bacanas: a mexicana Ileana Diéguez e o brasileiro Ismail Xavier, mega doutor e professor da USP na área de cinema. As palestras eram díspares mas se encontravam de maneira formidável. Ela falando nas experiências de teatralidade contidas nas intervenções cênicas urbanas, e ele destrinchando Glauber Rocha e sua teoria sobre a "Estética da Fome". Senti que conseguiram expandir as mentes e limites da nossa imaginação e da nossa teatralidade.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO - TERCEIRO DIA

Mais um dia de encontro.
De manhã, lá fomos nós para mais uma sessão de Espaço Aberto na Casa das Rosas. A plenária, um pouco menor do que no dia anterior por causa das ausências, decidiu discutir quatro temas: reformas na lei rouanet, diálogos com a sociedade, crítica e residência entre grupos e um quarto tema que não lembro agora qual era, mas isso não tem muita importância porque esta sala de discussão e a que deveria tratar da lei rouanet acabaram não acontecendo. Assim, dois assuntos foram aprofundados e embora não se tenha chegado a conclusões definitivas, foi possível ouvir os mais variados relatos e teorias a respeito de cada uma das questões.
À tarde, mais uma árdua rodada de duas horas com a alemã Erika Ficher-Lichte e depois, outro encontro com a mexicana Ileana Diéguez que apresentou vários exemplos de invenções estéticas urbanas como prática de manifestação política que atua num limite entre o teatro e a teatralidade.
O encontro da noite acabou mais cedo pra mim. Isso porque um dos palestrantes convidados era, nada mais nada menos do que o ator, diretor, autor, dono de teatro, homem das artes, gestor cultural e vítima da ditadura, Sr. Celso Frateschi. Pois este Sr. é o grande, o maior, responsável direto pelo encerramento das atividades do Depósito de Teatro. Consegui ouvir sua palestra vazia em que, dos trinta minutos que dispunha, gastou 28 falando sobre como ele mesmo era bom e importante e como havia sofrido com a ditadura, e como havia aprendido com o Boal, e , enfim, como ele era magnífico e engajado. Mas, não levem muito em consideração o que estou escrevendo, porque sinto muita raiva desta pessoa. Mas que a palestra foi vazia foi. Tanto o papo de produtor de primeiro mundo dos Davids, quanto a discurso do Frateschi puxaram para baixo o nível bacana das discussões.
Em determinado momento ficou insuportável, mesmo repugnante ficar olhando o rosto e ouvindo a voz da referida sumidade que destruiu um sonho coletivo plantado em 1998 e que portanto, deveria estar festejando seus 10 anos, como o Espaço Ágora, do Sr. Celso Frateschi, que decretou este estado de luto em que nos encontramos. Tive que me retirar porque comecei a pensar que tipo de ação eu poderia fazer ou que tipo de atitude eu deveria tomar. Pena que a idade parece que nos torna absurdamente sensatos, e para não estragar a imagem do encontro preferi sair a armar um barraco na hora do debate.
Voltei pro Tulipp Inn pensando algumas coisa que ja pensei, do tipo como pode um homem de teatro, um artista que tem um espaço e o mantém, se torna cego pelo poder de um cargo ridículo no qual não consegue se manter por mais de dois anos, e não enxerga o chão que está pisando e amassa uma flor tão delicada quanto o nosso grupo de teatro? Pensei coisas novas: Como uma pessoa que acaba com um grupo de teatro por omissão e descaso pode ser convidado por uma instituição para falar num encontro internacional de teatro de grupo? Como uma pessoa que tem o seu nome envolvido em acusações de favorecimento do cargo em benefício próprio pode ser convidada para falar num encontro internacional de teatro? A primeira resposta é fácil: eles não sabiam nada sobre a história do Depósito. Mas no segundo caso, todos sabem das acusações feitas nas páginas de O Globo e puderam ler a troca dos e-mails disparados entre os burocratas da Funarte e este senhor. E me parece que, como nas eleições, somente a suspeita, o envolvimento do nome, já deveria afastar este tipo de pessoa deste tipo de evento. Mas não. Talvez o Itaú Cultural esteja envolvido nesta lavagem de nome de pessoa. Ou talvez, ele seja amigo dos curadores e de algum deles. Ele não disse nada além de referir-se a si próprio e "limpar" o seu nome dando a platéia a "sua ficha". Voltei pro hotel carregando um enorme peso, uma tristeza enorme.
Minha única atitude foi entregar-lhe uma carta acusando-o, responsabilizando-o pela morte do Depósito de Teatro que aqui ninguém sabe, mas é um grupo de Porto Alegre, com dez anos de existência e uma série de excelentes trabalhos prestados a cidade e a comunidade em que estava inserido.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO - SEGUNDO DIA


Bem puxado esse negócio aqui. Trabalho das nove da manhã às dez e meia da noite. E no dia seguinte tem de novo. Hoje o dia começou na Casa das Rosas, maravilhoso palacete, acho que do início do século XX, com um roseiral gigantesco. Foi aí o encontro da manhã, que começou as nove e meia com o trio de curadores explicando a dinâmica do Espaço Aberto, que discute temas que partem das inquietações dos próprios participantes e congrega os participantes que, livremente, se inscreverem para debater sobre este ou aquele tema. A idéia é aproveitar o clima de liberdade de assuntos que existe num coffe-break, por exemplo.
Foram apresentados 12 temas para discussões, que foram divididas em duas sessões de debates de duas horas cada um. Cada participante só pode escolher dois temas e então torna-se uma escolha muito difícil pois a gente gostaria de estar pelo menos em três lugares ao mesmo tempo. Isto é impossível. Mas participar de três discussões é possível porque as regras deste enorme coffe-break permitem que você se retire de uma reunião e entre em outra, no momento que a primeira não esteja mais lhe interessando. Todos os temas expressavam questões centrais e comuns a todos os teatreiros de norte a sul do Brasil.
Almoço, adivinhe onde? No restaurante do Itaú Cultural.
De tarde dois mini-cursos. Adivinhe onde? No Itaú Cultural. O primeiro, "O Que Acontece no Entremeio - Teatro Como Espaço Liminar" com a mega doutora e professora phd total Erika Fischer-Lichte que abordou as diferenças entre o fenômeno da encenação e o da apresentação, explicitando que a experiência da apresentação é absolutamente única e muito mais efêmera do que o próprio fenômeno teatral, uma vez que cada apresentação é a soma de relação entre aquele grupo de atores e aquele grupo de espectadores e que uns afetam aos outros simultaneamente.
Depois foi a vez da mega doutora e professora phd total Ileana Diéguez provocar a platéia com o tema "Os Limiares da Cena - Teatralidades, Performances e Política", através do qual palestrou sobre os limites do teatro, ou melhor, sobre as fronteiras do teatro com outras artes performáticas, como por exemplo a instalação. O teatro como arte liminal ou numa liminaridade que aproveita vários elementos do teatro recombinados com outros meios artísticos. Ilena apresentou cenas de uma re-criação de Antígona, que relacionava-se diretamente com um momento político do Peru, onde o Presidente Fujimori havia proibido de se falar nos túmulos encontrados numa escavação. E duas outras experiências que transbordavam teatralidade, mas preenchiam-se (será enriqueciam-se?) com elementos de outras áreas da arte.
De noite, mais uma rodada na Sala Vermelha do Itaú Cultural, que só não é maior por falta de espaço. Se fosse em Itú, certamente teria o dobro do tamanho. Com 0,5% da verba anual que sustenta uma estrutura daquele tamanho não teria acontecido o que aconteceu com o Depósito de Teatro. Mas isso é outro assunto.
De noite, duas belíssimas palestras, imperdíveis: a professora Erika Fischer-Lichte dissertando sobre a totalidade da sua teoria sobre o fenomeno da apresentação, e o mega doutor e professor e phd total em estética e crítico de arte, Rodrigo Naves. Simplesmente, genial. Os dois palestrantes propuseram uma discussão de altíssimo nível cada um na sua área. Rodrigo Naves citou vários autores e filósofos alemães e isso fez com que a doutora Erika suavizasse a expressão que usava no início da fala do colega da artes plásticas. Ele começou falando baixinho, num tom quase monocórdio, mas que logo inflamou-se e se transformou num , tão apaixonado e provocativo, quanto bem humorado discurso sobre os limites apresentados a chamada arte contemporânea. Encantou a platéia inteira.
O debate acabou por falta de perguntas e porque o restaurante fechava as 23 horas e muita gente queria pegar o fimzinho do jantar. Como dizia Brecht, primeiro a barriga, depois o foder, depois...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

PRÓXIMO ATO

Pois aqui estou eu em São Paulo, participando da sexta edição de um encontro internacional de teatro, chamado Próximo Ato, do qual a gente só está tomando conhecimento agora. É que este ano os organizadores do evento resolveram ampliá-lo para estados brasileiros. Nas cinco primeiras edições tudo se passou em São Paulo. Desta vez aconteceu em Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, sendo que cada uma destas cidades reuniu os estados da sua região geográfica. À frente desta gigantesca empreitada está o Itaú Cultural, braço do Banco Itaú para apoio às artes.
Os organizadores abriram a noite agradecendo a participação de todos, explicitando os objetivos da entidade, aquilo que esperam de semelhante encontro e passaram a palavra aos seus parceiros que são espécies de adidos culturais dos consulados da Espanha, França, Inglaterra e Alemanha. São ele que pagam as despesas da parte internacional do encontro. O Itaú cobre a parte nacional e prometem para o próximo ano ampliar ainda mais o Próximo Ato, levando-o para todas as regiões do Brasil, com a brilhante idéia de mapear a ação do teatro de grupo, e por extensão, da produção teatral brasileira. Pelo menos daquela produção que realmente interessa e que, via de regra, é realizada pelo chamado teatro de grupo, coletivos artísticos que tentam superar a precariedade, que é comum a todos, através da geração de experiência e da busca de uma forma estética mais ou menos radical.
Na sequência, falaram os curadores: Maria Tendlau, Antônio Araújo e José Fernando Azevedo. Como este é o terceiro ano consecutivo que o trio faz a curadoria do evento, eles esmiuçaram os propósitos do encontro e repassaram cada uma das três edições que comandaram, demonstrando que avançam num caminho lógico que ano a ano aprofunda a discussão sobre os resultados alcançados pela atividade teatral em grupos. A questão que se impõe no encontro diz respeito a timidez formal que resulta das experiências vividas nos grupos teatrais. Causas? Consequências? Façam suas apostas?
Depois, todos para o lançamento do livro que reúne textos desenvolvidos nas cinco primeiras edições do evento e, é claro, o indefectível coquetel. E todos, eram muitos. Bonito de se ver. Bonito de fazer parte e ver-se como um tentáculo de um movimento que a gente nem imagina a extensão e o potencial de atuação, mobilização e difusão de idéias, pensamentos e estéticas. Maravilhoso. Vieram 25 pessoas de outros estados para reunirem-se com mais de 60 paulistanos da capital o do interior.
E logo a seguir: os negócios. Os malditos e necessários contatos. Conhecer pessoas, conversar, trocar. Muitos sorrisos, apertos de mão, conversas vazias, ou seja, a velha cordialidade e hipocrisia, repito necessária, mas nem por isso menos hipócrita. Infelizmente, não gosto desta parte e mesmo entre os meus, sinto-me um peixe fora d'água. Percebo que não sou a pessoa certa para estar aqui, mais ou menos, na qualidade de representante do movimento de teatro de grupo do Rio Grande do Sul.
Saí de fininho e voltei para o hotel. Golden Tulipp. Mais bicha, impossível.

domingo, 21 de setembro de 2008

DEPÓSITO DE TEATRO FECHA SUAS PORTAS

Como ja deve ser do conhecimento de muita gente o Depósito de Teatro, justamente no ano em que completaria dez anos de atuação e luta renhida pela sua permanência, encerra suas atividades e fecha as portas da sua sede na Rua Câncio Gomes. Com o emblema de "10 anos de resistência e prazer", o grupo investiu todas suas fichas na manutenção de uma sede e na produção de uma obra artística inegavelmente de altíssima qualidade para os padrões locais. Injetou energia, sangue, suor e lágrimas; inventou e reinventou propostas teatrais, intervenções em diversos espaços, performances; atuou efetiva e dignamente na formação de platéia e de novos atores; tendo recebido por tudo isso o seguinte comentário do jornalista e ex-vice-governador do Estado, Antonio Hohlfeldt: “Pode-se dizer que, hoje em dia, o Depósito de Teatro (...) tornou-se o palco mais significativo de nossa atual cena teatral”.*
Algumas idéias e ações foram pensadas para denunciar à opinião pública os porquês de tão repentina decisão. A simples razão do silêncio é que o grupo teme represálias. Imaginem um grupo de artistas se cala porque teme represálias do poder público. É quase pior do que a censura.
Em que pese este temor, vários são os acontecimentos que podem ser apontados como causadores da dissolução do grupo e entrega dos prédios aos seus proprietários. Sim, o Depósito de Teatro era inquilino. Não era o proprietário nem do espaço da Benjanim, tampouco do da Câncio. Pode-se começar citando a audácia e pretensão do grupo em vislumbrar a criação de um centro multicultural numa região da cidade absolutamente carente de recursos e horizontes, formada, principalmente, por papeleiros e sub-empregados em geral, na sua maioria com baixíssimo nível de instrução escolar ou analfabetos; sem nenhuma possibilidade de acesso e expressão cultural; uma zona insegura, empobrecida e decadente da cidade. Contrariando todas as regras de mercado e previsões marketeiras, o grupo trocou a Av. Benjamin Constant por um novo endereço onde impera o descaso e o abandono, tanto do poder público quanto dos empresários reclamões da área.
É obvio que os integrantes do Depósito sabiam onde estavam se metendo. A praça da vergonha (não entendo como nenhum ecologista reclamou do que fizeram com a praça. Onde está a Agapan?) e seus arredores são focos de miséria, exploração sexual infantil e juvenil, “bocas” de tráfico, gangues de meninos de rua e grupos de moradores de rua, além de uma máfia de pequenos contraventores. É certo que eles escolheram aquele endereço porque acreditavam piamente que o teatro poderia provocar uma sensível diferença naquele lugar. "Estabelecer ali um foco de luz", com definiu a atriz Sandra Possani.
Outros pontos que devem ser apresentados como determinantes neste ato de pendurar as luvas e abandonar o ringue, dizem respeito justamente a dinâmica e o comportamento dos membros da Associação Cultural, que manteve, ao longo destes dez anos, uma atitude bastante relapsa em relação a questões de crucial importância na gerência de um empreendimento cultural. Inaptidão administrartiva; despaixão pela contabilidade; a insuportabilidade do peso asfixiante da burocracia imposta à cultura; inedaquação para gerenciar um empredimento cultural; comportamento relapso diante de questões chave na administração de uma empresa do setor cultural (que é o que somos obrigados a ser); comportamento relapso e pusilânime em relação ao gerenciamento cotidiano e profissional do grupo e do espaço.
Mas, a frente de todos estes motivos, dois se destacaram e decretaram a impossibilidade total de continuidade. Dois principais motivos minaram até a raiz mais profunda a resistência, o prazer e a crença na luta cultural que o grupo sempre manteve: a atitude injusta, arbitrária, imoral e autoritária da Funarte que à revelia de todas as provas apresentadas e desconhecendo o excelente histórico do grupo, penalizou a Associação não só, a devolver a quantia de trinta e quatro mil reais (mais ou menos o mesmo valor de que foram vítima comprovada pela justiça de um roubo praticado por sua produtora), e além disso simplesmente diz que o grupo perdeu o direito a outros 180 mil reais a que a Associação fez jus licitamente em dois outros editais promulgados e definidos pela referida entidade. Mas, sobre isso quero falar mais extensamente outro dia. Hoje quero tratar do outro motivo: a Prefeitura de Porto Alegre, administração José Fogaça.
Artista, intelectual, homem de visão, democrata, ora num partido, ora noutro, José Fogaça recebeu solenemente a diretoria da Associação em seu gabinete de audiências da Prefeitura. Na ocasião o grupo lhe apresentou o Projeto Entorno Solidário, que resumidamente propõe uma série de ações artístico-culturais-profissionalizantes no entorno da sede, em troca de uma verba que seria investida na manutenção do grupo e do espaço. O próprio grupo se encarregou de indicar ao prefeito a fonte desta despesa: o PIEC - PROGRAMA INTEGRADO ENTRADA DA CIDADE, que prevê em seus estatutos que sejam apoiadas financeiramente idéias e projetos de natureza cultural. O dinheiro existe e vem do Banco Mundial. Ou seja não sai um centavo dos cofres municipais e a cidade ainda ganha um centro cultural descentralizado cuja proposta é encarar o "trabalho sujo" que vem sendo feito justamente por ONGs e outros artistas kamikases. Era o negócio da China. O prefeito ficou encantado com o projeto. Ordenou imediatamente que seus assessores tomassem todas as providências cabíveis. Resultado: passados quase um ano e oito meses o projeto continua(?) tramitando pela Prefeitura. Passados uma ano e oito meses o grupo vinha sendo suavemente enrolado pela amabilidade e simpatia da Secretaria Municipal da Cultura que tentava débil e suavemente pressionar a liberação da verba.
Falta de visão do Fogaça? Ele estava mentindo e enganando descaradamente o grupo? Ou foi preguiça e falta de visão dos seus comandados? O dinheiro foi usado para outra coisa? Como vão prestar contas da parte do dinheiro que deveria ser aplicado em projetos da área cultural? Incógnitas não explicadas.
O resultado é que por BURRICE, DESCASO ou MÁ GESTÃO DE VERBA, a cidade de Porto Alegre perdeu a oportunidade de implantar um projeto que poderia ser piloto na área cultural, além de perder um espaço cultural maravilhoso numa área de risco.
O GRUPO DEPÓSITO DE TEATRO, privado da comemoração de décimo ano de intensas e memoráveis realizações, perde sua base, sua casa, sua cara, sua referência, seu centro de operações, perdeu o tesão, perdeu o rumo, o sentido de existir, perdeu totalmente a confiança neste neste governo de realizações medíocres, que tratou com medidas paliativas (algumas muito boas, mas paliativas) questões tão importantes quanto a manutenção dos espaços culturais sob administração de grupos de teatro e da sobrevivência dos próprios grupos.
Tendo em vista que o município não dá conta de construir ou instalar e administrar novos espaços culturais em regiões descentralizadas da cidade, e, aliás, nem no centro (o Centro Municipal de Cultura foi construído no final dos anos 70), é um absurdo irracional permitir a extinção de um grupo de teatro, é uma insanidade cultural perder a parceria de um grupo de teatro para cumprir uma missão que, no mínimo, é também da Prefeitura. Reflexo de como as coisas relacionadas a cultura são tratadas em nosso estado. Orgulho de ser gaúcho? Como assim? E na Cultura, não vai nada?
Modesto Fortuna
LEIA NO PRÓXIMO NÚMERO = OUTROS CAUSADORES DA MORTE DO DEPÓSITO DE TEATRO.
*Jornal do Comércio RS, 05 de agosto de 2005.
Foto: Kiran
Aparecem na foto: Os Três Patetas (Maria Falkembach, Sandra Possani, Roberto Oliveira) e José Fogaça.

SEICHO-NO-IE E O ENCANTO DAS MULHERES



Na mesma época em que comecei a perceber a existência das mulheres e querer me aproximar delas, conheci e comecei a andar com o Hique, ou Rique ou Rife. Nunca entendi direito o nome dele. Um cara metido a maluco, mas bom companheiro de trabalho e um amigo legal que sempre tinha cigarros. A família dele, todinha, era da seicho-no-ie. Acreditavam que o mundo é uma projeção da mente, faziam viagens espirituais pelo espaço e diziam que tudo na vida era habitado pela presença divina e então tudo devia ser amado como se fosse o próprio Deus. Que viagem. Daí que o Rife tinha que amar pedras, latas de lixo, postes de concreto e garrafas de cerveja. Mas disso eu também gostava. De cerveja e das mulheres.
A gente saía juntos. Na Lancheria do Parque. Ia andar de skate no Marinha. Ou então dava longas caminhadas pela cidade procurando qualquer lance legal: uma festa, uma briga, umas minas pra beijar. Ou simplesmente gastava uma grana bebendo cerveja e cachaça em algum boteco bem fudido. Às vezes ele tinha que me carregar pra casa. Às vezes ele é que dava trabalho. Uma noite ele tomou um porre fudido e se apaixonou por um tijolo desses de seis ou oito furos. Levantava o tijolo na mão com reverência e me mostrava como o tijolo era lindo. “Eu te amo tijolo.” E começou a fazer carinho no tijolo. Abriu as calças e tirou o pau pra fora. Alisava o pau e o tijolo. Quando o pau ficou duro enfiou o negócio num dos buracos do tijolo e ficou metendo e cantando um mantra seicho-no-ie. O cara ficou engatado na porra do tijolo. O pau trancou lá dentro. Levei ele no Pronto Socorro com tijolo e tudo. Os caras riram de montão. Quebraram o amado tijolo com um martelo. O pau do Rique tava todo esfolado. Sangrando bastante. Depois dessa façanha passou a amar somente as mulheres e outros buracos mais delicados e receptivos e que também são habitados por Deus.

Nessa época foi que comecei a perceber as mulheres. Admirá-las. Antes eu nem as via. Apenas gostava de bater nelas. De espancá-las pra valer no recreio da escola, ver como choravam, desesperadas. De repente, comecei a vê-las de uma maneira diferente. Ficaram encantadoras, a ponto de me fazer acreditar que mulher é a coisa mais bonita que existe no mundo. Comecei a pensar que sobre elas pesa a responsabilidade por um mundo menos hipócrita. Mas isso já é outro papo. E não falo só por causa do lance da trepada, do prazer, sexo, etc... Falo de encanto mesmo. De beleza, saca? Assim como... o mar, uma palmeira balançando no vento, um bauru do Trianon, um Mercedes conversível... Beleza mesmo. Estética. Design. Cheiro, movimento e tesão. Como a garota que passa agora diante da minha janela. De tarde, solzinho dourado e ela parece um sorvete cremoso rebolando e me derretendo. Esfrego instintivamente o pau. O Caetano cantando alguma coisa na cozinha. Alguma coisa que diz: “o melhor lugar é ser feliz, o melhor é ter amor...”. Amor! Essa é a palavra. Eu, cheio de amor pra receber e ela, sobrando pra me dar. E como sobrava... Eu poderia chupá-la inteira durante dias. Deus habitava ela inteirinha. Eu poderia comê-la de mil e trezentas maneiras diferentes. O olho devorando. Uma cabeça imaginando e a outra sacando todas e crescendo, comichando. Inchando pra valer. E o olho já transbordando. A menina rebolando aquela bundona carnuda. Pensei que era muito fácil amar as mulheres. Sobretudo as lindas. Sobretudo aquela ali, na parada ônibus, na frente da janela do meu quarto. Encostada no muro como um passarinho pousado numa goiabeira. Um lacinho vermelho no cabelo. Aquele solzinho incandescendo de leve a pele dela. Vejo ela de biquini na praia. Vejo ela de calcinhas brancas. Vejo ela peladinha na minha cama. Vejo ela como eu quiser. Me convidando. Vejo Deus habitando a boceta dela e me chamando pra entrar no seu templo sagrado. Ela conversa com Deus e diz pra ele: “Vou dar praquele carinha que ta na janela me olhando. Tenho que dar pra ele. Vou foder ele todinho e chupar bem o pau dele.”
O Caetano calou a boca e eu, pra aliviar a tensão, fui até a cozinha mudar de estação. Outro bobalhão começou a cantar outra merda qualquer. Resolvi atacar. Saí à rua determinado e pude ver o ônibus arrancando. Na parada, caída no chão a fita mimosa vermelha com cheiro de champú barato. Cheiro de flor. Fita mimosa, perfume, cabelo de mulher, flor, mulher. Tudo da mesma família feminina. Coisas que se afinam, que guardam a beleza em si. Todas habitadas por Deus.
Voltei para o meu quarto e me converti imediatamente a seicho-no-ie. Cantei o mantra que tocava no rádio: “eu já não penso em mais nada, só consigo pensar em você...”, enrolei a fitinha mimosa vermelha no meu pau e mandei ver. Bati uma bronha bem devagarinho pensando na garota da parada e em todas as mulheres do mundo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

AINDA ORANGOTANGOS DUPLAMENTE PREMIADO NO FESTIVAL DE CINEMA DE LIMA



O longa Ainda Orangotangos venceu dois prêmios no Festival de Lima, no Peru. Dirigido por Gustavo Spolidoro, o filme recebeu o troféu Spóndylus, para filme de estréia, e Roberto Oliveira venceu na categoria de Melhor Ator. Ainda Orangotangos ganhou o Primer Premio del Jurado a da Mejor Ópera Prima, recebendo o troféu Spóndylus e o valor de US$ 5 mil. Oliveira recebeu o prêmio de Melhor Ator pelo trabalho feito em Ainda Orangotangos e em Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca. Ambos são produzidos pela Clube Silêncio em parceria com a produtora Drama Filmes.Faziam parte do júri, presidido pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, a atriz portuguesa Maria de Medeiros, o diretor argentino Marcelo Piñeyro, o jornalista francês e diretor do Festival de Friburgo Edouard Waintrop e o diretor chileno Silvio Caiozzi. Este é o 11º festival que o longa participa. Ainda Orangotangos já foi exibido no Festival de Roterdã (Holanda), Bacifi (Argentina), Toulouse (França) e Munique (Alemanha). Nos próximos meses, o longa será exibido em outros festivais importantes, como Sanfic, em Santiago no Chile; Milano Internacional, na Itália; Latinbeat, em Nova York; Films From the South, em Oslo, Noruega, e em Nouveau Cinema, em Montreal (Canadá).O filme, o primeiro todo rodado em um único plano-seqüência no Brasil, é uma adaptação de seis contos do livro homônimo de Paulo Scott. Gustavo Spolidoro e Gibran Dipp assinam o roteiro, que mostra 14 horas de um dia quente de verão, quando quinze personagens transitam pelas ruas e prédios de Porto Alegre. Ainda Orangotangos estréia dia 29 em Porto Alegre e no dia 5 de setembro nos cinemas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

terça-feira, 17 de junho de 2008

UM POUCO DE POLÍTICA

Vocês viram o que está acontecendo no desgoverno Ieda? Loucura. A merda está transbordando. O Palácio e o Palacinho tão com os encanamentos completamente entupidos, a ferrugem tomando conta. O Buzatto vermelho na tv. O vice que quer o cargo. A Ieda que não sabe nada. A Cultura atirada as traças com a Mônica Leal lançando projetos na área. Estão todos loucos. E nós aqui embaixo. Continuo achando que deviam fechar a Secretaria de Estado da Cultura. Se é para ficar inativa, causando despesa orçamentária, melhor fechar. Ou manda de volta pra Educação e voltamos aos tempos do DAC-SEC. Ou bota o Busatto na Cultura. Melhor une a Cultura e o Detran. A Cultura entra com a LIC e o Detran com a grana das multas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

UM POUCO DE POLÍTICA

Em vez de desmentidos oficiais,
O Governo Federal
Passará a divulgar
Rementidos acidentais.

UM POUCO DE POESIA

SÃO 19 HORAS E 16 MINUTOS.
OS SEGUNDOS, NÃO OLHEI
PORQUE NÃO ADIANTA MESMO.
ELES VÃO PASSANDO.
UNS ATRÁS DOS OUTROS,
DESCONTANDO O MEU TEMPO.
m.f.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

sábado, 19 de abril de 2008

JUNO - UMA BABAQUICE QUE RENDEU OSCAR


A sinopse divulgada pelos releases de tudo quanto é site e veículo de imprensa diz que a jovem Juno, com apenas 16 anos "engravidou acidentalmente de um grande amigo com quem transou apenas uma vez". Pensando que ela é uma jovem bem informada da classe média americana que estuda numa escola cara e bacana, de cara, desconfiei que ela fosse bastante babaca. Daí pra escapar do aborto ela procura nos classificados um casal a quem possa entregar o bebê assim que ele nascer. E encontra um casal de ricaços que, vejam só, está querendo muito adotar uma criança e se propõe a bancar toda a brincadeira de Juno. A maneira como as coisas são resolvidas no filme não podem ser mais superficiais e rasteiras.
Histórias babacas como essa são absolutamente normais no cinema do mundo inteiro e, mais ainda, na mega indústria cinematográfica americana. Mas daí a entregar o oscar de melhor roteiro para esta melosa historinha escrita por Diablo Cody, que é tida como a roteirista-sensação do momento é, no mínimo, pra avacalhar com o troféu. E ainda tem sites e revistas dizendo que ela "tem um estilo invejável", que "os diálogos são espertíssimos, ácidos, com uma linguagem elaborada e ao mesmo tempo inocente", e que " a relação da personagem com o mundo é o que torna o filme memorável".
Não caiam nessa. É um filmezinho sessão da tarde com um elenco que vai de aceitável (a protagonista), passável (papai e madrasta) a muito fraco (amiguinho nerd comedor que não entende muito bem o que fez). Dinheiro gasto à toa. E preferível esperar que passe no SBT.


terça-feira, 8 de abril de 2008

25 CENTAVOS

Remexendo em velhos papéis guardados achei este conto de 1991. na época se chamava vinte e cinco cruzeiros, então atualizei. Aí vai.

O carinha vadiava pela noite chutando as pedras soltas que encontrava na rua. Muito na sua. Vagando pelas calçadas e meios-fios, falando sozinho. Às vezes até cantava bem alto, quase berrando, uns pedaços de músicas que lembrava. Lucy in the sky with diamonds, Lucy in the sky with diamonds... Ria. Imitava John Lennon. Imitava James Dean, James Bond, James Cagney, Jesse James e ria. Lucy in tthe sky with diamonds... Enfiou a mão no bolso e sentiu a pequena moeda sextavada. Pequena merda metálica socada no fundo do bolso direito do jeans surrado. Catou a dita cuja. Vinte e cinco centavos. Não chegava a trinta dinheiros, pensou. O que se pode fazer com vinte e cinco centavos?, perguntou pro primeiro poste de luz. Não dá pra nada, disse o poste. Dá pra tudo. Posso ficar famoso com meus vinte e cinco centavos... O poste riu sonoramente. Tá duvidando? Aceitou o desafio. Let it be... let it be... Entrou no primeiro bar e comprou uma caixa de fósforos beija-flor da companhia fiat lux tendo em média 40 palitos. Lucy in the sky with diamonds... Tocou fogo na mansão de um figurão do governo collorido, que por sorte ou azar estava metido no golpe da previdência. Com paciência, esperou a polícia sentado no cordão da calçada na frente do portão. Demorou de montão pra ouvir as sirenes. A casa estava praticamente destruída pelas chamas quando chegou bombeiro e camburão. Gritaria, sopapo, afobação. Logo depois pintou jornal, rádio e televisão. Pousou pras fotos com o nariz quebrado batendo um samba de breque na caixinha vazia. Deu entrevista pro SBT, pra Manchete e pra Globo assumindo a autoria. No outro dia bem de manhãzinha estaria com a latinha estampada em tudo quanto é jornal e canal de tv. Pra disfarçar a loucura e dar toque político pro assunto, já que o troço ia sair no horário nobre em rede nacional, leu diante das câmeras um manifesto dizendo que aquilo era um protesto contra discriminação racial, a matança no pantanal e a repressão sexual que sofreu desde menino. Que pepino: por ironia do destino, pegou vinte e cinco anos de retiro na Ilha Grande. Tirou de letra, com estilo e pensamento positivo na melhor tradição seishonoiê: Ainda bem que no meu bolso não tinha mais do que vinte e cinco centavos.

domingo, 23 de março de 2008

BATATAS E OUTROS BICHOS


Todo dia era eu. Eu já não agüentava mais porque todo dia era eu. Me acordavam todos os dias às quatro e meia da manhã. Caralho! Às quatro e meia da manhã... Eu ficava com vontade de matar as pessoas que cruzavam por mim, mais ou menos, até às dez e meia. Isso quando eu comia alguma merda qualquer. Se tivesse com fome, com a merda da barriga roendo as tripas, só depois do rango é que dava uma diminuída na minha ira, minha gana de foder com os outros só se esvaia quando eu metia alguma coisa na barriga. E nem todos os dias eu comia por causa da úlcera e do enjôo. E isso é o que mais me danava, mais me deixa puto. Todo dia era eu. Tinha uns 50 caras pra escalar, mas todos os dias eu era escalado pra trabalhar na cozinha... Podiam fazer um rodízio, mas não... Eles te fichavam. Pegavam no pé do carinha direto. Vai ver achavam que eu não tinha capacidade pra fazer outra coisa...
E se o trabalho fosse mesmo na cozinha... se ainda fosse na cozinha... nem na cozinha não era... não era na cozinha diretamente... Na real, era numa peça fechada, meio escura, que ficava do lado da cozinha. O cheiro era de matar qualquer um. Não tinha nenhuma janela. Só uma mesona de madeira, velha pra caralho, e um banco comprido de cada lado da mesa. A gente sentava ali antes das cinco e ficava direto até a hora do rango, que começava a ser servido a partir das onze e meia, pontual, nunca atrasava. Às vezes se esqueciam de chamar a gente e a gente ficava trabalhando até dar vontade de mijar ou sentir o cheiro da comida e uma fome do caralho. Todos os dias eu trabalhava na cozinha sem nem entrar na cozinha. Sem que pudesse me beneficiar do poder de trabalhar na cozinha. Quem trabalha na cozinha é rei. Todo mundo quer trabalhar na cozinha. Gente da cozinha não passa fome nunca. Meu trabalho era, das cinco da manhã até as nove, nove e meia, junto com outros cinco caras, descascar batatas e beterrabas e cenouras e chuchu e outros bichos desses. E depenar galinha. E desfolhar espinafre.
Dependendo dava uns seis, sete, dez minutos de intervalo, pra mijar pra cagar e soltar uns peidos que a gente mesmo fez uma lei de não poder peidar dentro da porra do cubículo. Ta certo. Imagina... Quando algum de nós descolava um cigarro a gente fumava no intervalo passando de mão em mão. Era raro, mas de vez em quando rolava da gente fumar um fininho. Fazia a cabeça e voltava pras batatas.
Os mesmos auxiliares que traziam os sacos de batatas, voltavam e recolhiam as merdas dos legumes descascados. Eles se achavam mais do que nós. Acho que era porque tinham uniforme. Mas eles também não trabalhavam direto na cozinha. Só carregavam as coisas pra lá e pra cá. Mas pelo menos tinham acesso à cozinha. Passavam a manhã inteira paleteando peso. Traziam todo tipo de merda pra gente picotar. Lá pelas dez eles apareciam com sacos de feijão e largavam ali dentro pra gente escolher o feijão. A gente fazia questão de que todas as pedras estivessem com certeza dentro do feijão. Eles nunca reclamavam. Pra eles tanto fazia. O trabalho com o feijão era o mais molezinha. A gente simplesmente fazia barulho com eles e jogava pra dentro dos grandes baldes de plástico transparente que os auxiliares uniformizados vinham buscar quando tava tudo escolhido. Depois de tanto tempo trabalhando naquele compartimento fudido eu era ninja na arte milenar de descascar batatas, tirar a pele das cenouras e picar chuchu em cubinho e debulhar milho e todas essas porras dessas merdas. E assim, eu ia levando minha vidinha tranquilamente. Me fingindo de morto, bem quietinho no meu canto pra todo mundo se esquecer de mim. Eu era o homem-invisível.
Quando o negãozinho dos dentes separados que uma vez me deu um cigarro veio buscar dois baldão de feijão escolhido, o cara grandalhão de verde que trabalhava sempre sentado na minha frente já fazia uns dois anos, pulou no pescoço do moreno, e furou o pescoço do cara com a faca de descascar batatas que tinha uma pontinha bem fininha pra gente tirar os olhinhos das batatas e era bem afiadinha e bem que dava pra explodir mesmo a goela dum. Que sangüera. Era sangue pra caralho. Saltou pra tudo quanto é lado. Espalhou feijão pra tudo quanto é canto. O cara gorgolejou e caiu pra cima da mesa ensangüentando metade dos feijões que tavam em cima da mesona de madeira. O cara de verde pulou em cima dele e começou a tirar a roupa do negãozinho que não sabia se segurava a goela pra tapar o furo ou se tentava impedir o grandão de tirar as roupas dele. O cara de verde bufava, tava realmente alucinado. Parou de arrancar as calças do negãozinho dentuço, pegou a faquinha e furou o carinha de novo, desta vez enfiou fundo embaixo do suvaco e continuou um pouco afundando e rodeando a faca na ferida. E daí voltou a tirar as calças e a roupa toda do pobre do carinha que tava fudido na mão do grandão que tava completamente irado. Tirou toda a roupa do carinha. Ficou peladinho. Pegou a faca e furou o negãozinho na bochecha. O crioulo gritou pra caralho. A gente não sabia o que fazer... ficamos todo mundo colado na parede, de cara, quando espirrou o primeiro sangue eu ja tava encostado na parede. Os outros foram levantando cada um na sua, todo mundo apavorado e vieram também se encostar nas paredes. Todo mundo com os olhos estalados, olhando a cena na nossa frente. Macabro pra caralho. O negãozinho deu dois gritos de arrepiar e olhava pra gente pedindo ajuda. O cara ajeitou a boina verde, deu uma olhada pra nós, como quem pergunta se alguém vai querer se meter, agarrou a maior cenoura que achou atirada por ali e virou o cara de bunda pra cima e enfiou a cenoura inteirinha no cu do negão. Juro que fechei os olhos. Não aguentei. A úlcera moeu forte na barriga.
Não demorou pintou o pessoal da segurança. Tudo de terno preto, todos de óculos escuros. Cercaram o grandão, mandaram largar a faca... Ele largou... Desceram o pau nele. Bateram pra caralho. Todo mundo junto. Não é que nem filme de kung-fu que vai um de cada vez. Entrou todo mundo junto, rebentando. Eram uns dez dando porrada. Rebentaram a cara dele pro resto da vida. Chutaram tanto nas costas e por tudo que não sei como o desgraçado não morreu. Se é que não morreu. Acho que morreu. Arrastaram aquele enorme cara como se fosse um trapo e levaram ele pra sala da segurança que ficava lá embaixo junto com a sala das máquinas. Depois, chegaram três carinhas da faxina, de macacão amarelo, bacana, cheios de vassoura e de balde e de esfregão de tudo quanto é jeito, acompanhados por um baita negrão da segurança que eu até conhecia de vista. O negrão da segurança mandou a gente liberar a salinha pro pessoal da limpeza limpar o sangue e lavar os feijões e levou a gente pra cozinha. Caralho, eu me dei conta que nunca tinha entrado na cozinha. Fiquei olhando pra tudo quanto é lado. Aquele monte de panela brilhando. A fumaça fumegando. Um monte de gente trabalhando. Um cheiro forte dum monte de rango diferente. A minha barriga chegou a roncar alto. O negrão da segurança disse pra gente sentar num banco e tirar o resto do tempo de folga e se a gente quisesse podia até antecipar e fazer um rango logo. É claro que a gente quis. O negão falou que o negãozinho, o auxiliar de cozinha tinha violentado a irmãzinha do grandão de verde. Então, mereceu mesmo uma cenoura na bunda. Pena que não foi mais cedo daí a gente podia ta comendo antes ainda.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

PESADA LIÇÃO DE VIDA

Existem determinadas pessoas que nos fariam um enorme favor se ficassem longe da gente. Pessoas que se infiltram em nosso meio para causar dores e prejuízos não precisavam sequer existir. Ou então deveriam nascer baratas. Vermes.
Em agosto de 2004 o Depósito de Teatro, acreditando estar dando um passo em direção a profissionalização dos seus integrantes, chamou uma produtora executiva para tocar a produção do espetáculo "QURIOZAS QOMÉDIAS" que havia conquistado o financiamento do Fumproarte e permitia esta extravagância. Logo em seguida fomos classificados em outros editais e passamos a direção de produção para esta mesma moça que trabalhou no Depósito até o dia 11 de julho de 2006 quando declarou ter desviado uma quantia de aproximadamente 30.000 reais da conta bancária da Associação, sendo que esta soma era o total de vários golpes nos quais o dinheiro era surrupiado de várias formas diferentes e durante todo tempo em que ela trabalhou com a gente. Fomos vítima de estelionato.
Procuramos imediatamente um advogado e no dia 28 de julho de 2006 comparecemos na Terceira Delegacia de Polícia para apresentar queixa crime contra nossa produtora.
Para que se possa compreender a extensão do golpe, a profundidade do problema causado pela ação desta moça desqualificada, basta dizer que ainda hoje, passados mais de 20 meses, ainda estamos nos refazendo dos reflexos financeiros que este "irrisório" roubo de 30.000 reais causou nas finanças do grupo.
Pois, esta semana recebemos com júbilo a notícia que a ré, L.A.P.G. foi condenada a um ano e quatro meses de trabalho social para alguma causa comunitária que será determinada pela Justiça, e a partir de agora deixa de ser ré primária podendo pegar uma cana dura caso venha a cometer o mesmo ou outro delito que venha lesar algum outro incauto.
Tivemos que conviver com o rombo, com suas causas e com nossas omissões, ainda estamos costurando os buracos deixados em nossa confiança irrestrita nos seres humanos e, acima de tudo, estamos ainda tentando aprender a lição que nos trouxe semelhante acontecimento. Esperamos que a referida estelionatária tente aprender também a lição durante sua pena. Se não aprender com esta, vai, com certeza, aprender com a próxima.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

UM REGISTRO PRECIOSO

Apenas para declarar que acho da maior importância a existência do Anuário de Artes Cênicas de Porto Alegre, que democraticamente relaciona todos os espetáculos da área levados à público durante o ano. O Anuário é produzido pela Coordenação de Artes Cênicas da SMCultura, organizado pela Laurinha Backes, Lourdes Elói e cia., e produzido pela equipe da coordenação comandada pelo Prof. Luiz Paulo Vasconcellos.
Parabéns pela brilhante idéia, parabéns pela realização deste precioso registro que preserva em si a história das artes cênicas em Porto Alegre.
Aliás, um verdadeiro trabalho de garimpo vai começar agora quando a missão e lançar um almanaque sobre o que foi realizado nos anos oitenta. À luta, mãos à obra.
Se o Sr. Athos Damasceno, sozinho, numa época em que não existiam as facilidades do computador e editoração eletrônica, conseguiu publicar em 1956 "PALCO, SALÃO E PICADEIRO", obra que traça a história do espetáculo e da crítica no século XIX, é 100% garantido que em breve teremos a oportunidade de conhecer, ou relembrar, o que foi realizado na década de oitenta nos teatros de Porto Alegre.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

DOZE ANOS NA PRIMEIRA FILA

Leitura fundamental para quem faz teatro desde o final dos anos 70 até 1992, o livro "DOZE ANOS NA PRIMEIRA FILA" escrito pelo então crítico teatral do Segundo Caderno da Zero Hora, o ilustre senhor CLAÚDIO HEEMANN, que tive a feliz oportunidade de conhecer, e passar do ódio irracional e incontrolável à simpatia e daí a estima sincera. O livro contem uma coleção de críticas selecionadas por ele mesmo dentro das que escreveu neste período: abril de 1978, quando "o meu relacionamento com o teatro sofreu uma alteração significativa. Recebi convite para ser crítico teatral do jornal Zero Hora.", até a data em que foi despedido da função pela mesma Zero Hora, um dos muitos braços jornalísticos do ilustre e poderosíssimo Grupo RBS.
Acredito eu, que isto aconteceu quando houve uma grande reformulação que sacudiu o jornal e a demissão do crítico não foi a primeira, nem a última. O jornal inteiro passou por uma reforma, modernizou-se, tornou seu alcance mais nacional e um pouco menos voltado para as coisas locais. Mas isso ja é assunto para outra conversa.
Considero como minha primeira peça, para efeito de currículo e realização, o espetáculo "QUANDO AS MÁQUINAS PARAM" (de Plínio Marcos, com direção de Paulo Flores) que foi encenada em 1976. Em 1978, quando Cláudio Heemann começou a escrever na Zero Hora eu estava dando os primeiros passos naquele novo terreno. Então era natural que eu sofresse algumas críticas mais duras, mas estas críticas não aparecem no livro, ou pelo menos não são a tônica do material escolhido com habilidade, argúcia e inteligência que sempre foram características da personalidade exterior exercida no papel de crítico por Claúdio Hemann. Sua figura alta, seu cavanhaque "naturalmente" bem aparado e torto, seu inseparável casaco, paletó ou jaqueta, tudo em sua pessoa rescendia a dignidade e sapiência. Provavelmente ele lia os escritos demolidores da super crítica norte-americana Pauline Kael (depois veremos se o nome está certo). Com certeza, era discípulo de Barbara Heliodora. No livro, nos deparamos tanto com a face do crítico mordaz, quanto a do crítico temível e temido, cuja opinião poderia alterar significativamente a bilheteria do teatro e, mais ainda, sujeitar a opinião das pessoas, influenciando no poderoso boca à boca. Mais ainda, aparece no livro sua maneira objetiva e precisa ao tratar do espetáculo em suas diversas áreas.
Lembro que suas críticas eram dissecadas pelos elencos pelos quais passei. Se ele falava bem de nossa peça sempre acertava em cheio em sua opinião, caso contrário, tivesse ele o topete de falar mal do nosso suado e honestíssimo trabalho, como podia ser tão burro e míope, tão petulante.
Claudio Heemann faleceu em dezembro de 1999. Assim, no ano que vem estaremos 10 anos sem nosso crítico teatral, que participou da célebre primeira montagem de Qorpo Santo, em 1966, no Clube de Cultura (como diria Hilda Hilst: "Informe-se."), e com certeza foi seguindo os passos de Qorpo Santo que Claúdio Heemann deixou pronto, antes de morrer esta preciosa seleção de textos e outras anotações que traçam um pedaço da história do teatro e do espetáculo na cidade de Porto Alegre. E mais, ele preserva e reune uma seleção dos mais importantes, destacados e elogiados acontecimentos da área cênica. Um pedaço da história do teatro local. Fundamental. E, para muitos, uma viagem sentimental e nostálgica.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

SÓ PRA CONSTAR

Por prazer, por brincadeira e por exercício intelectual tenho escrito comentários sobre peças, filmes e livros e coisas que tenho assistido, pequenas críticas, porque não chamar propriamente pelo nome?, com o intuito de treinar minha capacidade de colocar no papel de forma, clara, objetiva e subjetiva, minhas impressões sensoriais e intelectuais sobre a obra em questão.
Como tenho vários amigos no meio teatral, dedici publicar minhas críticas num blog e, como nenhuma delas é escrita com o objetivo de ferir, magoar, destruir, desacatar, ofender e mais toda uma lista de verbos com conotação negativa que alguém possa querer enxergar, tomo a liberdade de informar para alguém mais chegado meu e relacionado com a equipe do trabalho em foco, o endereço do blog e também, que escrevi um texto sobre o assunto.
Minha proposta é induzir a reflexão e a discussão do trabalho que estamos realizando hoje, aqui em Porto Alegre, porque acho que pouquíssimo exercitamos esse hábito salutar de trocar impressões sinceras sobre aquilo que se vê com as pessoas que estão diretamente relacionadas com a criação e apresentação da obra. Mesmo quando escrevo de forma mais contundente e taxativa, sei que minha opinião não é a expressão da verdade e não pretendo, mais do que qualquer outro escritor, converter o leitor à minha opinião. Não tenho a intenção de invalidar, tampouco de perder amigos. Lanço um olhar crítico sobre o que assisto, escrevo sobre isso e proponho um debate sobre peças, textos, espetáculos, propostas, enfim, sobre teatro em particular e sobre a vida de uma forma geral.
O blog está sendo divulgado principalmente no meio teatral porque, embora capacitado para discorrer em outras áreas, como pode ser observado no meu perfil, tenho escrito mais sobre teatro, esta encantadora e efêmera, e tão aviltada, arte.
Para finalizar gostaria de encorajar os possíveis leitores destas críticas a enviarem seus comentários.
Modesto Fortuna.